Sacralização do Holocausto é um atraso para os aprendizados proporcionados pela história

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Auschwitz-Birkenau, Poland - May 15, 2019: Railway to WW2 nazi concentration and extermination camp Auschwitz-Birkenau in Poland
(Foto: Getty Images)

Ao longo das últimas semanas, com a expectativa e a efetiva divulgação do relatório final da CPI da Covid, muito se discutiu sobre a memória do Holocausto e a suposta “banalização”, em função das comparações feitas entre os atos do presidente Jair Bolsonaro e o que ocorreu na Alemanha nazista.

Um dos gatilhos dessa discussão foi o termo “genocídio”, crime pelo qual Renan Calheiros queria indiciar Bolsonaro – mas retirou do texto final após pressão de senadores do grupo majoritário da CPI. A ideia era imputar ao presidente Jair Bolsonaro o cometimento de tal crime contra os povos indígenas.

O outro motivador do debate foi a capa da revista IstoÉ, na qual Bolsonaro é retratado como Adolf Hitler. No lugar do bigode, aparece a palavra “genocida”. A AGU criticou a publicação e chegou a sugerir uma nova capa para a revista.

Há, então, dois pontos principais que podem ser debatidos:

  • Como tratamos a memória do Holocausto

  • O espaço que temos para fazer associações entre o governo Jair Bolsonaro e o nazismo

Memória do Holocausto

O termo genocídio foi criado pelo advogado judeu Raphael Lemkin, em 1944, um ano antes da libertação do campo de concentração de Auschwitz. No relatório da CPI da Covid, o documento faz uma observação, ao usar o termo:

“Um primeiro esclarecimento é necessário: a ideia de genocídio costuma remeter ao Holocausto, que foi uma das piores tragédias da história. Não se pretende aqui praticar essa hipérbole, muito menos banalizar o sofrimento das vítimas do nazismo. Pois, por mais que possamos ver afinidades entre atos e manifestações de membros do governo e o repertório típico dos regimes fascistas, é óbvio que há diferenças importantes entre deixar um vírus agir desimpedido e construir campos de extermínio. Ressalvadas semelhanças pontuais, devemos evitar incorrer na armadilha das falsas equivalências.”

É verdade que o atual governo não teve um plano de acabar com um povo, um determinado grupo, como o regime nazista fez com judeus, comunistas, homossexuais, ciganos e muitos outros que não eram compreendidos como arianos. Isso, no entanto, não quer dizer automaticamente que seja impossível fazer comparações.

O caso Prevent Senior, por exemplo, que teve apoio do governo federal, remete a práticas nazistas.

A ética médica foi transformada após a Segunda Guerra Mundial. O Holocausto foi um divisor de águas em relação a necessidade de obter o consentimento do paciente para realizar testes – até então, talvez a humanidade não soubesse que era preciso esclarecer essa necessidade, mas Josef Mengele, da pior maneira possível, nos atentou para a importância de falar sobre o tema. Ainda assim, a Prevent Senior dá indícios de não ter respeitado esse aprendizado.

O problema é que toda vez que alguém remete a um acontecimento que envolve o Holocausto e a Segunda Guerra Mundial, aparece um exército dizendo que isso é um absurdo. Durante a CPI da Covid isso aconteceu em diversas ocasiões. Se uma prática era apontada como nazista, senadores governistas bradavam que era um absurdo fazer comparações com essa grande tragédia. Por que é absurdo? Por que a memória do Holocausto é sacralizada dessa forma?

Todo fato histórico é importante de ser relembrado para evitar novas tragédias. Levando para outro fato histórico, a escravidão é essencial para entendermos diversos aspectos da nossa sociedade, como o racismo, e até a tipificação do crime de manter pessoas em “situação análoga à escravidão”. Por que, então, não se pode falar do Holocausto e do nazismo como forma de lembrar que o mundo já viveu grandes crueldades e não há espaço para repeti-las?

Isso pode ser sobre ética médica ou sobre autoritarismo, sobre violência, sobre discursos populistas que pregam o nacionalismo exacerbado. Há muito para se lembrar do Holocausto e aprender. Tornar essa uma memória inacessível no imaginário das pessoas não ajuda ninguém e só corrobora com o silenciamento para absurdos que ainda acontecem.

Comparações entre o governo brasileiro e o nazismo

A capa da revista IstoÉ tornou ainda mais latente esse debate sobre fazer ou não comparações entre o governo brasileiro e o nazismo.

Podemos falar primeiro sobre comparar tragédias. Dia desses, um vídeo de um homem, contrário a esse tipo de prática, chegou no Whatsapp. Ele falava que não admitia que comparassem o Holocausto com o que tem ocorrido no Brasil e citava o sofrimento da família dele na Europa dominada pelo nazismo. Chama atenção a carência de empatia nesse argumento. E vale destacar que há grupos de judeus se opõe a esse tipo de comportamento e condenam a tentativa de cercear as comparações

E as famílias dos 600 mil mortos pela covid-19 no Brasil? Além dos depoimentos tocantes dos familiares na CPI da Covid e de todas as provas de descaso reunidas pela comissão, na última quinta-feira (21), Jair Bolsonaro disse que, caso Fernando Haddad tivesse vencido a eleição em 2018, ele teria feito um lockdown nacional (prática que ajudou muito países a mitigar o número de mortes) e obrigaria toda a população a se vacinar. O presidente admite, assim, que foi negligente – além de ter ignorado uma centena de e-mails enviados pela Pfizer -, permitindo que o número de mortes chegasse ao que é hoje.

O outro ponto é que o nazismo é mais do que o assassinato em massa. O nazismo chegou ao poder em 1933, enquanto a chamada “solução final para a questão judaica” apareceu em 1942. O nazismo é também o autoritarismo, o culto a um líder, o nacionalismo. Nesse quesito, a melhor explicação é do pesquisador Michel Gherman, professor de Sociologia da UFRJ e diretor acadêmico do Instituto Brasil-Israel:

“Uma coisa tem que ficar clara: não é a imprensa ou historiadores que comparam Bolsonaro a Hitler e ao nazismo. É ele. Foi ele que defendeu elogio a Hitler no ENEM, foi ele que citou trecho negacionista, foi ele que inventou avô nazista, ele recebeu apoio de neonazistas, foi ele que se abraçou com sósia de Hitler, foi ele que usava slogan nazista na campanha, ele que chamava afrodescendentes de animais, ele que usava versões do trabalho liberta no governo, o ministro dele que se fantasiou de Goebbels, foi seu assessor que fez símbolo de white power, foi ele que usou táticas eugênicas para lidar com a pandemia, foi seu governo que apoiou a transformação de doentes cobaias humanas, tal qual Mengele, é Bolsonaro que recebe líderes da extrema direita alemã, enfim, havia muito mais.”

Todos os acontecimentos citados não são mera coincidência. Em maio de 2020, já em meio à pandemia, insistindo na ideia de que “a economia não poderia parar”, a Secretaria de Comunicação do governo disse que "o trabalho, a união e a verdade libertarão o Brasil" – mensagem que, obviamente, remete ao que diz no portão de Auschwitz: “O trabalho liberta”.

É o próprio governo Bolsonaro quem dá diversos elementos para que se façam comparações entre o Brasil de 2021 e a Alemanha de 1942. Como forma de defesa, o governo usa o argumento de que “é amigo dos judeus e de Israel”.

É claro que judeus querem preservar a memória do Holocausto, mas preservar não é sacralizar, não é impedir qualquer comparação. Preservar a história é ensina-la às próximas gerações, não deixar com que ela se perca. A consequência da educação e da propagação do conhecimento não é evitar que se façam paralelos, mas poder fazer paralelos adequados.

Infelizmente, parece que o governo está se inspirando na frase errada do campo de concentração nazista mais conhecido da história. Auschwitz, onde morreram mais de um milhão de pessoas, hoje é um museu. Em uma das portas dos pavilhões, há a frase de Edmund Burke: “Um povo que não conhece sua história corre o risco de vive-la de novo”.

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