Sagasti toma posse como presidente do Peru e pede perdão por mortos em protestos

Luis Jaime CISNEROS, Francisco JARA
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O centrista Francisco Sagasti em 16 de novembro de 2020, em Lima

Sagasti toma posse como presidente do Peru e pede perdão por mortos em protestos

O centrista Francisco Sagasti em 16 de novembro de 2020, em Lima

O centrista Francisco Sagasti tomou posse nesta terça-feira (17) e imediatamente pediu perdão às famílias de dois jovens mortos em protestos que derrubaram o breve mandato de seu antecessor.

"Juro ao país e a todos os peruanos que exercerei o cargo de presidente", declarou em sessão plenária do Congresso este engenheiro de 76 anos, que deve governar até 28 de julho de 2021.

Em seguida, pediu "perdão em nome do Estado" às famílias dos dois manifestantes mortos no sábado, aparentemente nas mãos da polícia, nos protestos contra o seu antecessor, Manuel Merino. "

Não podemos trazer esses jovens de volta à vida", disse o novo presidente sobre Inti Sotelo, 24, e Jack Pintado, 22, cujos pais estavam presentes na sessão do Congresso.

O novo presidente prometeu que as eleições gerais de 11 de abril de 2021, nas quais será eleito seu sucessor, serão realizadas "sem contratempos" e serão "absolutamente limpas".

Disse, ainda, que fará todo o possível "para reduzir os contágios da pandemia sem afetar a economia", que se encontra em recessão após um confinamento nacional obrigatório de mais de 100 dias.

- Terceiro presidente -

Sagasti foi eleito nesta segunda-feira novo líder do Congresso, em votação na qual foi candidato único, o que o tornou automaticamente o novo presidente do Peru, com o desafio de encerrar a crise política. Ele é o terceiro a ocupar o cargo em oito dias, um reflexo da fragilidade institucional do antigo vice-reinado espanhol.

"É uma escolha muito boa a de Francisco Sagasti como presidente", disse o analista político Augusto Álvarez Rodrich à AFP. "Sua eleição ajuda a construir um momento de estabilidade política e econômica, ele tem boas perspectivas", acrescentou.

A crise foi desencadeada em 9 de novembro pelo próprio Congresso, quando destituiu o popular presidente Martín Vizcarra (centro-direita) num processo relâmpago de impeachment, sob a acusação de suposta corrupção quando o chefe do Executivo era governador em 2014. A denúncia contra Vizcarra é investigada pelo Ministério Público e a Justiça proibiu o ex-presidente de deixar o Peru por 18 meses.

No dia seguinte, o presidente do Congresso, Manuel Merino, também de centro-direita, tomou posse, mas milhares de cidadãos indignados, principalmente jovens, saíram às ruas para protestar contra o que chamaram de "golpe de Estado". Os protestos, que duraram cinco dias, foram reprimidos com violência pela polícia e deixaram dois mortos e mais de 100 feridos.

A bancada do centrista Partido Morado de Sagasti foi a única que votou em bloco contra a destituição de Vizcarra. Isso contribuiu para que ele assumisse a liderança do novo governo de transição até 28 de julho de 2021, dia do bicentenário da independência do Peru.

- Mensagem dos EUA -

Os Estados Unidos estão prontos para trabalhar com Sagasti "e apoiar os peruanos na preparação da transição democrática" nas eleições de 2021, disse o subsecretário de Estado para o Hemisfério Ocidental, Michael Kozak. “Continuamos apoiando a governança democrática, os direitos humanos, a transparência e a prosperidade” do Peru, tuitou Kozak.

O chanceler do Chile, Andrés Allamand, destacou que Sagasti tem um "forte respaldo político" para governar.

A ascensão de Sagasti ao poder foi saudada com alívio por milhares de peruanos que protestaram contra Merino. "Ele é uma pessoa tecnicamente preparada, o que não acontecia com o usurpador anterior. Estou mais aliviado, mas ainda não satisfeito, porque há membros do Parlamento que também deveriam sair", disse à AFP Walter Núñez, ator e palhaço de 30 anos.

"Todos os jovens sentem que alcançaram uma pequena conquista, mas não é suficiente. Este presidente tem que fazer algo para manter a democracia, mas, a partir de abril, das eleições, depende de nós", assinalou Geraldine Aldave, designer de moda de 22 anos.

"Conte com meu apoio", tuitou Vizcarra depois de ter denunciado a falta de "legalidade e legitimidade" de Merino. Abandonado pelo Congresso, Merino renunciou no domingo, cinco dias depois de assumir o cargo, encurralado por protestos e críticas à sua repressão.

A liderança do Congresso ficou a cargo da esquerdista Mirtha Vásquez, que também votou contra a destituição de Vizcarra. "Ter uma presidente de esquerda no Congresso melhorará sua imagem", disse o analista Álvarez Rodrich.

No entanto, é difícil prever o que fará um Congresso fragmentado e dominado por quatro partidos populistas durante o governo de Sagasti, após frequentes confrontos com Vizcarra e com seu antecessor Pedro Pablo Kuczynski (2016-2018).

O Ministério Público abriu uma investigação preliminar contra Merino nesta segunda-feira pela morte dos dois manifestantes, aparentemente nas mãos da polícia. "Essas mortes ou homicídios não ficarão impunes", prometeu a procuradora nacional, Zoraida Ávalos.

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