Saia da redoma e venha ver as pessoas agonizando nos leitos, diz Doria a Bolsonaro

ARTUR RODRIGUES E DANIEL CARVALHO
***FOTO DE ARQUIVO*** São Paulo, SP, Brasil, 21-04-2020 - Governador João Doria em entrevista por teleconferência com o diretor de redação da Folha de S.Paulo Sérgio Dávila, acompanhado por Patricia Ellen da Silva (secretária de desenvolvimento econômico) e José Henrique Germann (secretário de saúde). (foto Gabriel Cabral/Folhapress) ORG XMIT: AGEN2004211738962479

SÃO PAULO, SP, E BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - O governador de São Paulo, João Doria (PSDB), fez um discurso nesta quarta-feira (29) com fortes críticas ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido), em que pediu para que ele saísse de sua bolha e viesse ver pessoas agonizando nos hospitais no estado.

Doria reagiu a citação do presidente a ele. Um dia depois de reagir com um "e daí" ao número recorde de mortos pelo novo coronavírus no Brasil, o presidente reuniu sua tropa de choque e, em uma tumultuada entrevista na porta do Palácio do Alvorada, passou para os governadores e prefeitos o aumento da crise no país, incluindo Doria.

O governador paulista fez duro discurso durante a entrevista coletiva que faz diariamente no Palácio dos Bandeirantes, no Morumbi (zona oeste de SP), para tratar de medicas contra o coronavírus. "Saia da sua bolha, saia da sua fábula" , disse, dirigindo-se a Bolsonaro.

"Convido o senhor, presidente Jair Bolsonaro, venha a São Paulo. Saia dessa sua redoma de Brasília e venha visitar o Hospital das Clínicas, o Hospital do M'Boi Mirim, os hospitais de campanha. Venha ver as pessoas agonizando nos leitos e a preocupação dos profissionais de saúde de São Paulo. E se não quiser visitar São Paulo, por medo ou qualquer outra razão, vá ver o colapso da saúde em Manaus", disse.

Doria pediu que Bolsonaro respeite o luto das famílias de mais de 5.000 mil mortos. "Respeite médicos, enfermeiros e profissionais de saúde, que ao contrário do senhor, que vai praticar tiro em estande de tiro, essas pessoas estão protegendo pessoas. Pare com essa política da perversidade. Pare de fazer política em meio a um país que chora mortes e infectados. E agora, presidente? Diante de mais de 5.000 mortos, o senhor continua afirmando que é uma gripezinha?"

Após a coletiva, Doria ainda mandou outra mensagem a Bolsonaro: "Ao invés de treinar tiros em horário de expediente de trabalho, treine compaixão".

Bolsonaro reuniu 25 deputados dos PSL nesta quarta-feira para um café da manhã. Ao sair do Alvorada, trouxe junto parte dos parlamentares e passou, com ajuda deles, a criticar as notícias que relatam sua entrevista na noite anterior, quando, questionado sobre as 5.017 mortes registradas pelo Ministério da Saúde na terça-feira (28), reagiu dizendo: "E daí? Lamento. Quer que eu faça o quê? Eu sou Messias, mas não faço milagre".

"As medidas restritivas são a cargo dos governadores e prefeitos. A imprensa tem que perguntar para o Doria porque tem mais gente perdendo a vida em São Paulo. Perguntar para ele que tomou todas as medidas restritivas que ele achava que devia tomar", disse Bolsonaro em menção ao governador de São Paulo, João Doria (PSDB), seu virtual adversário em 2022.

"Não adianta a imprensa querer botar na minha conta estas questões que não cabem a mim. Não adianta a Folha de S.Paulo, O Globo, que fez uma manchete mentirosa, tendenciosa", continuou Bolsonaro.

Indagado pelos jornalistas se não havia dito a frase do "e daí?", Bolsonaro demonstrou impaciência."Você não botou o complemento! Você não botou o complemento!", afirmou.

Os jornalistas perguntaram qual seria o complemento. "A Globo não tem moral. Vocês não têm moral. Você é um mentiroso, a Globo é mentirosa", reagiu o presidente.

Os repórteres insistiram na pergunta.

"O complemento é que que eu lamento. Está lá. Falei aqui. Perguntei, tinha pelo menos duas TVs ao vivo. Mesmo ao vivo... A Globo tem que se definir. Eu não vou pagar para vocês falarem a verdade nem bem de mim. Não vou pagar para a Globo escrever a verdade ou falar bem de mim. Perguntem para o Doria a questão de óbitos que estão acontecendo", disse Bolsonaro.