Saiba como escapar das armadilhas de crédito fácil estampadas nas propagandas

Luciana Casemiro
Pesquisa mostra que 40,8% das publicidades sobre crédito têm asteriscos ou letras pequenas que dificultam a leitura

RIO - “Rápido, fácil e sem burocracia”: é assim que boa parte de bancos, financeiras, correspondentes bancários e fintechs apresentam a oferta de crédito em sua publicidade. Em análise de 125 peças — de panfletos a postagens de empresas em redes sociais —, 47% foram identificadas como abusivas pelo Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec).

Não só a publicidade banaliza a concessão do crédito, num país em que 64% das famílias estão endividadas, como também omite informações básicas como taxa de juros e custo total da operação, em descumprimento do Código de Defesa do Consumidor (CDC) e da regulamentação do setor.

— As propagandas mais agressivas são de financeiras. Mas, apesar de adotarem um discurso alternativo, as fintechs também lançam mão de letras miúdas. O fato é que, de forma geral, as publicidades trazem a mensagem subliminar de que não há risco — diz Ione Amorim, economista do Idec.

A economista chama atenção para o fato de que 40,8% das publicidades tinham asteriscos e/ou letras pequenas que dificultam a leitura. Esse recurso foi usado em mais de um terço das ofertas de crédito consignado.

— A pesquisa é o retrato do que vemos no dia a dia. Não adianta a instituição dizer que tem programa de educação financeira e manter uma oferta agressiva em grau máximo como a do consignado — pondera Patrícia Cardoso, coordenadora do Núcleo de Defesa do Consumidor da Defensoria do Rio, relatando alta de 30% no atendimento a superendividados neste ano.

Cartão de crédito e consignado

O levantamento do Idec se concentrou na oferta de linhas de empréstimo via cartão de crédito, consignado e crédito pessoal, além daquelas direcionadas a negativados e à renegociação de dívidas. E aponta que em apenas um terço das ofertas em que há simulação de crédito, nas quais é obrigatória a informação do custo total da operação, esse dado aparece.

— As instituições não se importam com a capacidade de pagamento porque ganham mais com a dívida do que com o pagamento — diz Claudia Lima Marques, diretora do Observatório do Crédito e Superendividamento da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Para o Idec, a pesquisa reforça a urgência da aprovação do projeto de lei 3.515/2015 (o PL do Superendividamento) em trâmite na Câmara. O texto acrescenta um capítulo sobre concessão de crédito ao CDC, no qual proíbe uso de expressões como “sem juros” e “gratuito” na publicidade.

Segundo Amaury Oliva, diretor de Autorregulação e Relações com Clientes da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), desde 2008 a autorregulação trata de publicidade clara e transparente. E o índice de cumprimento é de 95%.

— É um assunto de extrema importância para nós.

Para Rafael Pereira, presidente da Associação Brasileira de Crédito Digital, que representa fintechs, a leitura feita pelo Idec é equivocada:

— É propaganda, não há como fazer todos os alertas. Na concessão do crédito, tudo é feito de forma responsável.

A especialista em psicologia econômica, Vera Rita de Mello, questiona os estímulos usados nesse mercado:

— Ele usa o conhecimento de psicologia para seduzir o consumidor e evitar a reflexão. Lógico, essa estratégia tem um efeito sobre o endividamento. O mercado precisa mudar esses estímulos.

Reflita. Empréstimo não deve ser feito para pagamento de despesas corriqueiras. Só se deve contratar crédito em ocasiões excepcionais. Um crédito de emergência pode comprometer seu orçamento por 96 meses, isto é, cinco anos.

Confira as orientações de especialistas

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