Saiba como lidar com a monotonia dos dias que parecem se repetir, depois de mais de um ano de isolamento social

·4 minuto de leitura

Você pode até não ter se dado conta, mas as duas primeiras semanas de maio — mês cinco do nosso calendário de 12 meses — já se foram. Logo, em 15 dias, estaremos praticamente no meio de 2021, que, diga-se de passagem, nem parece ter começado.

Se essa constatação lhe trouxe espanto ou angústia, aqui vai um alento: você não está só. Após mais de um ano de pandemia, relatos quanto à sensação de estarmos perdidos no tempo se tornaram frequentes entre as pessoas que podem cumprir as recomendações de isolamento. A queixa, inclusive, é plenamente reconhecida pelos profissionais da saúde. “Fomos submetidos a um regime de privação em relação a praia, viagens e férias, que são marcadores culturais muito importantes”, reconhece Christian Dunker, psicanalista e professor da Universidade de São Paulo, que acaba lançar o livro “Uma biografia da depressão”, pelo selo Paidós. “E um dos fatores depressivos da Covid-19 é que ela fez o tempo passar mais devagar, com menos alterações na nossa forma de vida. As novidades foram se achatando.”

Sabe aquela máxima de que ano só começa depois do carnaval? O produtor cultural Phil Baptiste estava acostumado a senti-la na prática, já que a folia era um ponto de referência para o lançamento de seus projetos, entre janeiro e fevereiro. Este ano, porém, não foi igual àquele que passou. “A gente se programava para lançar tudo até duas semanas antes ou depois do carnaval. Como não o tivemos, fiquei meio perdido. Quando vi, já estávamos em abril, e eu pensava que ainda era o começo de 2021”, conta.

A confusão com o tempo, no caso de Phil, se dá até mesmo dentro do intervalo de 24 horas. Trabalhando de casa, sem uma agenda formal de compromissos, não foram raras as ocasiões em que ele se perdeu em meio ao correr dos minutos. “Houve dias em que acordei mais tarde e me embananei todo. De repente, já tinha escurecido e isso trazia uma melancolia.”

O sentimento demonstrado pelo produtor cultural tem a ver com o aspecto de que os seres humanos precisam de oscilações, como menciona Dunker. “Se a curva de acumulação de prazer e desprazer vai se achatando, mudamos o patamar de ânimo geral e temos um humor mais rebaixado. Isso é uma característica de depressão, embora nem toda pessoa com o humor rebaixado a tenha”, ressalva, citando que os sentimentos de tristeza e melancolia, portanto, não devem ser confundidos com o quadro clínico.

Para fugir disso, Phil aumentou, em alguns momentos, o número de sessões de análise, fazendo duas por semana, e passou a correr no Aterro do Flamengo aos fins das tardes. Ver o anoitecer, ele diz, o ajudou a retomar a compreensão do passar do dia. A estratégia tangencia a investigação por trás de uma série de telas pintadas pela artista plástica Mary Dutra. De tanto refletir sobre rotina na pandemia, ela estabeleceu novas divisões para os dias, ao categorizá-los conforme o clima. “Percebi que, quando o céu estava branco, até a cor da minha casa mudava. Então, pintava uma tela naquele contexto e era como se obra pertencesse a ele”, descreve.

Parte desses trabalhos está na individual “Se foi, tempo”, no Centro Cultural Correios, no Rio, pelo projeto Arte Contemporânea Feminina, com curadoria da Tartaglia Arte de Roma. Mas, além do resultado visual, a experiência serviu, segundo a artista, para conectá-la ao presente a partir de uma nova perspectiva. “Passei a ter uma reflexão mais profunda sobre as coisas para as quais vou doar o meu tempo.”

A habilidade com os pincéis, por sua vez, não é pré-requisito para esse tipo de elaboração. Luciano Sewaybricker, doutor em Psicologia pela USP com a tese “Felicidade: utopia, pluralidade e política”, lembra que, num momento como este, retomar práticas ritualísticas pode ser um bom caminho antimonotonia. Fazer uma comida em vez de pedir por aplicativo, sugere, é uma alternativa, assim como jamais negligenciar datas importantes. “Praticar o que estiver mais próximo de uma comemoração no nosso aniversário serve para criarmos marcos ao longo no ano”, ilustra. “Quando fazemos isso, acessamos também uma característica fundamental da existência humana, que é a perenidade. Assim, nos percebemos envelhecendo, diante da urgência da vida.”

Deparar-se com a passagem do tempo dessa maneira, por sua vez, também pode trazer alguma angústia. Mas, se isso acontece, está tudo bem. “Significa que estamos vivendo a nossa vida de modo autêntico. E é basicamente isso que importa numa hora dessas”, avisa Luciano.

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos