Saiba como a polarização política mudou o flerte em aplicativos de relacionamento

O ano de 2017 foi um caldeirão fervilhante de mudanças na cena política brasileira, assim como no casamento da fotógrafa Patrícia Gouvêa, que havia chegado ao fim após 7 anos. Numa tentativa de curtir a vida de recém-solteira, a carioca, hoje com 48, ouviu os conselhos de uma amiga e se jogou nos aplicativos de relacionamento. O que era para ser só diversão, no entanto, acabou por se tornar um choque ao se ver num abismo que a separava de matches com uma visão de Brasil e sociedade muito diferente da sua. “Entrei no início de 2018 (ano da eleição de Jair Bolsonaro à presidência), e percebi que esse contexto político em que vivemos passou a permear esse lugar de flerte "e envolvimento”, diz.

A experiência nas plataformas de dating virou objeto de pesquisa e páginas de um livro que procura refletir sobre como a polarização política invadiu o campo do amor e dos desejos. Ótima leitura para este domingo de eleição e para quem se pergunta o que será das relações humanas depois dele, a obra intitulada “Do amor” (editora {LP} Press) mergulha nas paqueras virtuais de Patrícia pelos últimos quatro anos. “O livro é uma costura de imagens e diálogos que refletem esse cenário binário. Passei por muitos perfis cujas bios diziam ‘se você apoia o PT, não dê match. Se você é feminista, passe direto pelo meu perfil’”, comenta.

As próprias plataformas de dating já se anteciparam à necessidade dos usuários de sinalizar seu posicionamento político na bio e criaram mecanismos que não deixam margem para surpresas depois do match. O Bumble, por exemplo, desenvolveu um filtro para identificar os perfis. Segundo dados do aplicativo, a ferramenta é a mais utilizada pelas pessoas que buscam por um amor na rede, chegando a uma porcentagem de 14%. “É muito curioso ver o interesse dos usuários brasileiros em política. Cada vez mais notamos o aumento da procura por parceiros que se atraem por este tema e que partilham das mesmas ideologias”, pontua Alice Johnston, gerente de Marketing da Bumble.

Para Elis Monteiro, especialista e consultora de marketing digital, as plataformas utilizam de filtros como estratégia de uso dos canais. “São práticas que facilitam o encontro de pares, pessoas da mesma bolha e nicho”, esclarece.

Relacionar-se com pessoas de sua bolha está longe de ser um problema para a jornalista Camilla Roque, de 25 anos. A jovem, que se posiciona a favor de políticos de esquerda, prega a palavra dos aplicativos de relacionamento desde que terminou seu namoro de 3 anos, há 10 meses. Apesar de já ter ficado com homens de direita, ela ressalta que não conseguiria levar a relação adiante. “Nem sempre perguntava o posicionamento político do cara, mas tentava deduzir de alguma forma. Prestava atenção em falas, no comportamento, entrava em redes sociais para ver se já havia publicado algo sobre determinado candidato”, declara. “Isso é decisivo para que eu mantenha interesse. Não tem como desassociar a opinião política de caráter”, afirma.

A estudante de Economia Clara Albuquerque, mais à direita no espectro político, também afirma que não engataria numa relação séria com um homem de ideais esquerdistas. “Já me envolvi com caras de esquerda, já dei chance. Hoje, posso ser amiga, mas namorar, jamais. Justamente por conta dos princípios, é um jugo desigual. Pode prejudicar áreas importantes de um relacionamento para mim”, avalia a jovem, de 22 anos. “Gosto de trocar ideia, ouvir o outro lado, mas chega um momento em que tentam me convencer de que estou errada, deturpam algumas coisas.”

Gisele Aleluia, psicóloga com experiência "em terapia de casal, ressalta que “todo relacionamento é um ato político, em que são desenvolvidas habilidades de convívio, negociação e respeito a direitos e deveres”, e que essas discordâncias podem se somar a uma série de questões que o casal não consegue equacionar. Ou seja, mesmo sabendo que não é bom vivermos numa bolha, numa relação a dois, sair demais dela pode ser complicado. “A eleição passa, as diferenças mais profundas, não.”