Saiba como 'Pra frente Brasil' virou símbolo da ditadura

Compacto de "Pra frente Brasil"

RIO - O nascimento de “Pra frente Brasil”, marchinha cantada por Regina Duarte em sua entrevista à CNN na quinta-feira ("Não era bom quando a gente cantava isso?", perguntou ela), foi o mesmo de muitas músicas de sucesso do Brasil: uma composição feita por encomenda. Os patrocinadores da transmissão televisiva brasileira dos jogos da Copa do Mundo de 1970, no México, promoveram um concurso em que seria escolhido o “hino da Copa”.

A Seleção comandada pelo técnico Zagallo e encabeçada por Pelé, Rivelino e Tostão vinha embalada para conquistar o tri-campeonato. E o governo militar, do presidente Emílio Garrastazu Médici, buscava amplificar o clima de euforia nacional em um período de ações desenvolvimentistas e crescimento econômico (o chamado “Milagre Brasileiro”) com slogans e campanhas publicitárias ufanistas.

Entra em cena então Miguel Gustavo, jornalista e tarimbado compositor de jingles, que se notabilizara por seus sambas de breque gravados por Moreira da Silva. Ele reuniu imagens como as dos “setenta milhões em ação” (a população do Brasil, que foi corrigida na letra, com informações do Censo, para 90 milhões) e do “de repente é aquela corrente pra frente / parece eu todo o Brasil deu a mão” em uma canção com melodia do trombonista Raul de Souza.

Vencedora do concurso, a marchinha embalou a vitoriosa campanha futebolística brasileira, que chegou a sofrer uma interferência de Médici (antes da Copa, o presidente tentou impor ao técnico João Saldanha a escalação do centroavante Dario; Saldanha se rebelou e foi substituído por Zagallo; Dario foi escalado mas não entrou em campo).

Empolgante e muito fácil de se memorizar, “Pra frente Brasil” seguiu sendo cantada pelas outras Copas (até pela falta de outra composição que conquistasse a torcida) e foi até mesmo regravada pelo grupo Jota Quest, em 2008. Mas pela sua origem, pela letra que exaltava um Brasil grande e sem dissidências, a marchinha ficou associada aos governos da ditadura e a sua política de sufocamento das divergências e da ocultação de informações que não favoreciam o regime.

Em 1982, ela deu título ao longa-metragem do diretor Roberto Farias sobre um taxista (Jofre, interpretado por Reginaldo Faria) que é confundido com um militante de esquerda e torturado pelos militares. No fim do filme, Jofre morre ao som dos gols do Brasil sobre a Itália na final da Copa de 70... e de “Pra frente Brasil”.