Saiba como a religião e a tradição determinam o guarda roupa dos muçulmanos no Catar

A Copa do Mundo chegou no Oriente Médio e os torcedores do futebol terão maior contato com a religião islâmica, a mais praticada na região. O Catar, país sede do Mundial, é uma nação muçulmana (cerca de 70% da sua população), com leis, costumes e práticas enraizadas no Islã. Assim, a população local segue um código de vestimenta rígido (aos olhos ocidentais) baseado no alcorão, o livro sagrado desta religião, considerado a palavra literal de Deus revelada ao Profeta Muhammad (Maomé), sendo esse o “último profeta enviado por Deus”, segundo a tradição islâmica.

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Basicamente isso significa que os homens precisam cobrir o corpo até os joelhos e as mulheres só podem deixar o rosto e as mãos à mostra. Não é permitido uso de roupas justas e transparentes.

Segundo o Sheikh Ali Abdouni, presidente da Wamy (Assembleia Mundial da Juventude Islâmica), os países do Golfo Pérsico têm costumes semelhantes em relação à vestimenta. Normalmente, os homens vestem thobe, uma camisa branca, de mangas compridas, e que vai até os pés, e calças brancas e largas. Para completar, o ghutra (um lenço, geralmente na cor branca ou xadrez), preso pelo igal (faixa de corda, normalmente preta com duas voltas). O ghutra, aliás, ganhou vida e se tornou o mascote da Copa. Líderes governamentais ou religiosos de alto nível costumam ainda colocar um manto mais elegante sobre o thobe.

Usar a vestimenta religiosa, em respeito aos locais, é bem-visto. Como “fantasia”, não. Mas, parte do comércio em Doha parece não se importar. Versões coloridas, em alusão aos países do Mundial, fazem sucesso entre os turistas. Na loja Ghutra Mundo, o thobe do Brasil, em verde e amarelo, é o mais vendido (R$ 248). A dupla ghutra (lenço com estampa das bandeiras) mais o igal sai R$ 99.

— No Catar, o thobe tem tradicionalmente uma gola reta e mais alta ou como camisa . Também tem punhos e pode ter bolsos. Essas diferenças são mínimas em relação às roupas dos muçulmanos de outros países — explica Ali Abdouni, que lembra ainda que há diferentes maneiras de se colocar o ghutra.

A mais formal é com o igal todo à mostra, como uma coroa. Outro estilo leva as pontas do lenço, tanto do lado esquerdo como do lado direito, à cabeça, presas ao igal.

Ali Abdouni lembra ainda que os homens são rigorosos com a aparência da barba, sempre bem feita.

— A roupa larga é para ser confortável, principalmente para rezar, algo que o muçulmano faz cinco vezes ao dia. Apertada, dificultaria os movimentos — ensina Francirosy Campos Barbosa, antropóloga muçulmana e professora da USP de Ribeirão Preto, que pondera ainda que a cor branca remete ao profeta Maomé, que usava branco, mas também atende ao clima quente do Catar.

Mais que um lenço

Já as mulheres costumam usar abaya (geralmente preta), túnica longa até os pés, além do famoso lenço. Se em alguns lugares, as muçulmanas apenas jogam o véu sobre o cabelo solto, em outros amarram sem deixar pontas aparecendo, ou prendem com alfinetes. São em chifon, malha, algodão, seda, coloridos, bordados, mais simples ou de grife.

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Com o niqab, só os olhos ficam à mostra e são usados por quem quer ser vista como mais religiosa. O hijab, que cobre cabeça, pescoço e ombros, é o mais comum (rosto fica à mostra).

Francirosy explica que o hijab vem do verbo hajaba, “aquilo que separa”, entendido como uma cortina, pois essa pode separar uma pessoa de outra, como sinal de modéstia, simplicidade, respeito a Deus. Ele deve cobrir o corpo e por este motivo os muçulmanos falam em “respeitar o hijab”, referindo-se à lei prevista no livro sagrado.

— O hijab é mais que um lenço é uma conduta que segue questões culturais, de costume, preferência e de entendimento pessoal — explica Francirosy. — Tanto para homens quanto para mulheres, o importante é estar coberto. No caso delas, cobrir da cabeça aos pés. Mas não há definição no alcorão de cor ou estilo da roupa.

Ouro e seda

Francirosy explica que o uso da burca não é uma tradição no Catar. Afirma que é uma vestimenta construída culturalmente em aldeias montanhosas afegãs e paquistanesas. Segundo ela, foi a maneira que as mulheres encontraram para circular sem serem notadas.

— Depois passou a ser usada pelo Talibã como uma forma opressora, de obrigação — observa Francirosy, que cita ainda a shayla, lenço comprido e solto, que deixa o cabelo à mostra. — É mais comum entre paquistanesas e deve ser usado por estrangeiras em visita a determinados locais no Catar, durante o Mundial.

Para os pés, não há regra. Nem para homens, nem para as mulheres. Eles costumam usar sandálias de couro e elas, de tênis a salto alto.

Uma curiosidade: o ouro e a seda são de uso exclusivo das mulheres. É lei e está nas fontes escriturárias islâmicas: “Estes dois elementos são ilícitos para os homens de minha comunidade e lícitos para suas mulheres”.