Saiba detalhes dos abusos na Arte de Viver: ‘Me pediu para não contar para ninguém’, diz vítima sobre mentor espiritual

Duas das vítimas que denunciaram ter sofrido assédio e importunação sexual pelo ex-mentor indiano da ONG Arte de Viver na América Latina, conhecido como Swami Paramtej, relataram ao GLOBO, em anonimato, como ocorreram os supostos crimes. De acordo com a devota que foi vítima em São Paulo, em 2017, o suspeito, de nome de batismo Pankaj Gupta, colocou a mão em partes do meu corpo e “relacionou o ato a uma lição sobre febrilidade”. Ele também pediu para que ela não contasse o ocorrido para ninguém. A polícia abriu um inquérito sigiloso para apurar o caso.

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"Lição de febrilidade"

C., que não será identificada na reportagem por segurança, conta que a atitude "inadmissível" do swami aconteceu às vésperas de uma aula de meditação, quando ficou encarregada, à época, de preparar o dhoti (vestimenta típica) do líder religioso e de servi-lo o chá — práticas, csegundo ela, comuns entre os voluntários da ADV. Hospedados na mesma casa, ela conta que ele a convidou para assistir a um filme e, ao chegar ao quarto, foi convidada a se sentar ao lado dele na cama, quando, de acordo com a seguidora, teve o corpo tocado. Segundo C., o Swami relacionou o ato a uma “lição sobre febrilidade” - estado de quem está febril, mas que neste caso teria a conotação de ímpeto humano - e disse que “não se tratava de um ato libidinoso, e sim de um ensinamento”.

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"Foi algo inapropriado e inadmissível"

— Na véspera do curso, depois que a pessoa anfitriã foi dormir, recebi uma mensagem do Swami. Ele me convidou para ir ao seu quarto assistir um filme. Eu lembro que ao abrir a porta do quarto eu olhei pra cama onde ele estava sentado com o notebook aberto, pensei “onde eu vou ficar?”. O quarto onde ele dormia era limpo, cuidado, era como um templo. Ele me chamou para sentar na cama ao seu lado, o que foi um choque, eu juro que pensei que ficaria no chão. Essa proximidade com um Swami é algo inimaginável. E foi nessa ocasião, aconteceu algo que hoje eu vejo como inapropriado e inadmissível. Não houve relação sexual, mas ele colocou a mão em partes do meu corpo. Em seguida, me pediu para não contar isso para ninguém — detalha a vítima, que formalizou a denúncia em abril.

Swami é um título dado a discípulos que vivem em celibato para espalhar o conhecimento e a “graça do mestre”. Ele era um dos homens de confiança do guru indiano Ravi Shankar, uma referência na Índia, fundador da entidade que está presente em 156 países. Shankar não foi denunciado por conduta inapropriada. Procurado, Paramtej disse ter sido expulso da organização e que a ação tem causado "muito sofrimento em todos". Ele não quis comentar sobre as acusações.

Perguntas sobre desejo sexual durante aconselhamento

Ao GLOBO, C. relatou ainda que tinha proximidade com Paramtej, que tem livros sobre espiritualidade publicados, porque ele era uma liderança espiritual respeitada. Em conversas privadas, ela pedia conselhos sobre relacionamento, momentos em que o guru fazia perguntas sobre o desejo sexual dela e sobre masturbação.

— Eu me sentia especial demais, era próxima de um dos soldadinhos que era por sua vez muito próximo do Ravi. Ravi para mim era o deus na Terra. Depois do ocorrido, eu continuei fazendo voluntariado na presença dele por mais dois anos, como se nada tivesse acontecido. Fui me afastando da ADV gradualmente — diz C.

C. conta que chegou a ter uma reunião com Ravi Shankar porque ele estaria ouvindo as vítimas, mas diz ter ficado decepcionada ao ouvir dele que não deveria levar a denúncia adiante para que Paramtej não atentasse contra a própria vida. Procurada, a ADV negou a alegação.

— Nessa reunião, alguns trataram de humanizar o Swami, atribuindo o erro dele ao seu caráter humano Antes disso, porém, nos explicavam o voto celibatário dele como um acontecimento, não uma escolha. Hoje, tudo isso me soa muito contraditório. Se ele é um humano como qualquer outro, capaz de cometer os abusos que cometeu, por que os devotos foram convencidos de que ele era especial? Se ele é tão sábio porque cometeria suicídio? — questiona a vítima.

"Carmas positivos" e filme de sexo explícito

A uruguaia K., de 32 anos, também diz ter sido vítima de Swami Paramtej em 2012, quando ele esteve em seu país para encontros de ioga e meditação. Numa noite, por volta de 1h da manhã, o religioso pediu que ela fizesse uma massagem nele. Apesar de ter achado estranho, ela diz que se sentia lisonjeada em servir a um mestre que a apresentava o conhecimento para obter “carmas positivos”. Na ocasião, ele tentou colocar um filme de sexo explícito na TV, tendo sido impedido por ela.

— Bati na porta antes de entrar na sala e quando entrei estava sentado de pernas cruzadas no chão com o computador. Eu perguntei a ele onde queria massagens, e ele me falou que em seus ombros. Eu fiquei ajoelhada atrás dele e comecei a massagear seus ombros, enquanto ele estava no computador. Nesse momento vejo que ele entra no youtube e pesquisa cenas de sexo do filme que vimos anteriormente. Eu congelei, lembro claramente da sensação que desceu pela minha espinha. Então ele me perguntou se ele devia apertar enter. E eu respondi imediatamente que não, dei boa noite e fui rapidamente para o meu quarto — relata K.

Passados anos de incompreensão sobre o que havia lhe acontecido, só em março ela enviou o relato para a direção da ONG, após ter descoberto por meio da terapia ter sofrido uma violência sexual.

— A única vez que comecei a tomar consciência da seriedade do fato de que alguém com poder e hierarquia espiritual pudesse fazer algo assim comigo foi quando comecei terapia há três meses. Especialmente porque, depois daquele episódio, Swami ficou mil vezes em minha casa ao longo de 10 anos, cozinhei para ele e cuidei dele durante todo esse tempo. Ele agia como se nada tivesse acontecido e eu também — conta a vítima.

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Ambas as vítimas disseram ter levado as denúncias à ADV. Procurada, a ONG informou que o as atividades do Departamento de Ética, criado em abril para apurar os casos, se desenvolvem sob sigilo, exceto as referentes à "promoção de oficinas para despertar a consciência do corpo de voluntários para temas urgentes dos direitos humanos, como questões de gênero, racismo, patriarcado, entre outros".

Na última quinta-feira, a coordenadora internacional na América Latina da Arte de Viver, Beatriz Goyoaga, afirmou que a ONG recebeu apenas quatro queixas em toda América Latina e que não houve denúncia criminal. Segundo ela, o suspeito foi afastado e não têm mais nenhum tipo de vínculo com a instituição. Também informou que prestam apoio e suporte psicológico aos “afetados” e que, até o momento, não houve manifestação de vontade por parte de denunciante para levar os respectivos casos às esferas policial e judicial.

— As queixas são de comportamento impróprio — afirmou a coordenadora.

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