Saiba a história da Confeitaria Kurt, que faz 80 anos nas mãos de família alemã no Rio

A vida do alemão Kurt Deichmann, que aportou no Rio em 1939 fugindo dos nazistas, daria um filme. Aliás, já deu, feito pela sobrinha Evelyn, que sempre esteve ao lado do tio, falecido em 2000, aos 93 anos. A história de Kurt se confunde com a história do Leblon, bairro onde viveu e abriu seu primeiro negócio, uma lojinha cheia de produtos pelas prateleiras, na então pacata Ataulfo de Paiva. Era a Casa de Frios, uma delicatessen bem abastecida de produtos, que ficava onde hoje está o Talho. Aos sábados, Kurt resolveu fazer algumas tortas com receitas da família. Abafou. Diante das filas que dobravam o quarteirão, sua trajetória na cidade tomou outros rumos. E lá se vão oito décadas.

O sucesso das tortas acabou “engolindo” a delicatessen, que se transformou em uma doceria de clássicos alemães. Em 1989, já instalado em um imóvel bem mais espaçoso, no numero 117 da Rua General Urquiza, nascia a Confeitaria Kurt. É o CEP atual.

Algumas novidades hoje reforçam as 30 versões de tortas e os mais de 25 tipos de biscoitos, todos saídos dos mesmos fornos que assam as octogenárias Floresta Negra, Sacher, Picada de Abelha... Não faz muito tempo, lançaram um tipo de macaron gigante. Embora nome e design “falem” francês, o conteúdo é bem alemão: pouco açúcar e azedinho. “Tivemos que nos modernizar para não desaparecermos”, conta Alan Geller, irmão de Dani, ambos sobrinhos-netos de Kurt, os filhos de Evelyn.

Uma filial Kurt nunca esteve nos planos da família Deichmann. Nem grandes mudanças. “Só tenho dois olhos”, pondera Evelyn, responsável pela vinda do tio para o Rio. Seus pais (o pai era irmão do Kurt) já viviam no Leblon, daí, não havia destino melhor para ele, que perdeu da família durante a Segunda Guerra Mundial. “Ele sofreu anos, só foi reencontrar a filha Marion décadas depois, ela já adulta. Foi um momento lindo, talvez o maior da vida deles”, conta Evelyn.

Segredo de longevidade? Creme chantili caseiro, leite condensado idem, nada artificial e fornadas diárias. Acabou a Picada? Paciência, só voltando amanhã. Para beber, água, mate e café. Nada de refrigerantes ou álcool. E no salão e na calçada, só se ouve Mozart, Vivaldi, Bach e Strauss. Como sempre foi, segue sendo e assim será.