Saiba o que está em jogo na reunião em Moscou sobre o Afeganistão

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Apesar das negociações de paz, a violência aumentou recentemente no Afeganistão

A Rússia tentará se tornar um mediador importante do frágil processo de paz no Afeganistão ao reunir nesta quinta-feira, em Moscou, delegados do talibã e representantes governamentais do alto escalão, bem como enviados americanos, paquistaneses e chineses.

O presidente americano, Joe Biden, deveria confirmar a retirada total de suas tropas do Afeganistão até 1º de maio, como estipula o acordo assinado em Doha em fevereiro de 2020 com os rebeldes, que, em troca, comprometeram-se a participar de negociações de paz com o governo afegão, que começaram em setembro no Catar, mas que ainda não resultaram em avanços.

Washington, que gerencia há semanas a retomada dessas negociações antes do prazo, propôs recentemente aos beligerantes criar um governo de transição que inclua o talibã, solução apoiada pela Rússia. Mas o presidente afegão, rechaçou a proposta, argumentando que uma transferência de poder só pode ser feita por meio de eleições.

- Objetivo da conferência -

Para o analista Sayed Naser Mosawi, de Cabul, a reunião de Moscou serviria, principalmente, para preparar outro encontro, maior, programado para abril na Turquia e cujo formato ainda não foi definido. Em Doha, americanos e o taliba pareciam "ditar as regras do jogo conforme lhes convinha", mas deslocalizar o processo poderia torná-lo mais produtivo, indicou. A conferência de Moscou "será uma nova oportunidade para que o talibã e o governo expressem e, quem sabe, reavaliem suas posições sobre alguns temas delicados."

O embaixador afegão nos Emirados, Javid Ahmad, manifestou recentemente que o talibã se encontra em uma posição muito cômoda no Catar, onde tem seu escritório político, e que seria benéfico para as negociações que elas acontecessem em lugares diferentes. "Desejamos que o talibã saia da sua zona de conforto."

- Quem participa -

As delegações do governo e do talibã incluem alguns dos negociadores de Doha e outras personalidades. Os rebeldes serão liderados pelo mulá Abdul Ghani Baradar, um dos fundadores do movimento. Abdulah Abdulah, presidente do Conselho Superior para a Reconciliação Nacional, órgão do governo que supervisiona o processo de paz no Catar, dirige a equipe de Cabul.

O Paquistão, país com maior influência sobre o talibã, será representado pelo diplomata aposentado Mohamed Sadiq. O enviado americano para o Afeganistão, Zalmay Khalilzad, também participará.

- Situação atual -

Apesar das negociações, a violência aumentou recentemente no Afeganistão. Multiplicaram-se os assassinatos seletivos de jornalistas, juízes, médicos, figuras políticas, religiosas e defensores dos direitos humanos, o que tem espalhado o terror e levou membros da sociedade civil a se esconder ou exilar.

O grupo Estado Islâmico reivindicou a autoria de alguns desses ataques, mas o governo afegão e os Estados Unidos culpam o talibã, embora estes neguem. A chegada da primavera boreal é a ocasião tradicional para que o talibã, o qual desafia a autoridade de Cabul em metade do território afegão, lance ofensivas em zonas rurais.

- Retirada dos Estados Unidos -

Assim como seu antecessor, Donald Trump, Biden apoia a partida das tropas americanas, mas alguns funcionários de Washington temem que uma retirada precipitada mergulhe o Afeganistão no caos.

O governo Biden acusa o talibã de não respeitar o acordo de Doha, além de responsabilizá-lo pelo aumento da violência e por não cortar laços com organizações terroristas, como a Al-Qaeda. Mas o talibã acredita ter honrado seus compromissos ao não atacar tropas estrangeiras, e mantém o prazo de 1º de maio.

Analistas acreditam em alguma forma de compromisso, com Washington retirando tropas, mas também com especialistas encarregados de assessorar os afegãos, que ficariam bastante enfraquecidos sem o apoio aéreo americano.

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