Saiba os cuidados com os transtornos mentais que podem piorar durante a quarentena

Carolina Mazzi
·3 minuto de leitura
Transtornos mentais podem aumentar
Transtornos mentais podem aumentar

RIO - Com o avanço da pandemia da Covid-19, doença causada pelo novo coronavírus, o isolamento social, para quem pode, permanece sem data para acabar. A solidão da quarentena tem despertado diferentes sentimentos nas pessoas, segundo especialistas, mas a ansiedade é, de longe, o mais comum deles.

Quem já sofre com transtornos de ansiedade também vê os seus casos agravarem. Segundo a psiquiatra Danielle Herszenhorn Admoni, o momento agora é de atenção aos sintomas e, em caso de piora, buscar ajuda:

- Este é um momento sem precedentes, ainda não há estudos sobre como o isolamento vai afetar nossas saúde física e mental. Não tínhamos passado por isso. É previsível que a falta de contato social desperte angústia e solidão, e o fato de que não sabemos muito sobre a doença, o medo da morte, tudo isso desperta muita ansiedade.

Segundo ela, os casos que mais sofrem no momento são as pessoas que já têm transtorno obsessivo compulsivo (TOC) e síndrome do pânico, ambos dentro do escopo dos transtornos de ansiedade, e depressão. O acompanhamento médico e terapêutico, mesmo que virtual, é essencial para evitar um agravamento dos quadros:

- Estes são os casos em que mais se vê piora. São muitos os gatilhos que podem atrapalhar esses pacientes. Quem tem muitos conflitos em casa, atrapalha ficar próximo demais. Ou quem se sente muito só, quem está deprimido, e precisa ficar ainda mais longe. No caso das pessoas com TOC, o comportamento de alguns é lavar as mãos demais, por exemplo. Pode ter esse gatilho com essa coisa da higienização. É preciso ficar muito atento e observar se há agravamento do quadro e, se sim, buscar ajuda.

Quando procurar ajuda

Sensação de morte, sufocamento e piora nas compulsões são sinais de que é preciso buscar ajuda. Pessoas diagnosticadas com transtornos e que fazem acompanhamento devem buscar seu médico sempre que possível. A telemedicina, segundo o psiquiatra Rodrigo Reitman, pode ser alternativa na psiquiatria.

- Nada substitui a consulta presencial, é claro, mas temos conseguido acompanhar e seguir as consultas durante o período. Não abandonar o tratamento é fundamental para evitar casos mais graves.

Apesar dos serviços de saúde mental no país, dizem especialistas, serem insuficientes, há canais de ajuda, como o Centro de Valorização da Vida (atendimento@cvv.org.br), que oferece apoio por telefone, no 188. Ir ao hospital só deve ser opção em casos muito extremos, já que as emergências podem ter pacientes da Covid-19 e sair de casa aumenta o risco de exposição.

Quem não sofre com nenhum transtorno diagnosticado, mas tem vivido crises de ansiedade, cujos sintomas podem ser falta de ar e taquicardia, também devem ficar atento e buscar ajuda. Psiquiatras e psicólogos têm feito atendimento virtual, inclusive em redes gratuitas, como da plataforma Relações Simplificadas (relacoessimplificadas.com.br/escuta). Psiquiatras alertam: nunca tome remédios sem prescrição médica.

Como ajudar quem precisa

Amigos e familiares devem ajudar. Buscar contato on-line e oferecer companhia e distração são boas formas de amenizar a sensação de solidão. Quem mora junto deve observar mudanças ou pioras no quadro e mostrar apoio na busca por ajuda profissional, se for necessário.

- Uma coisa importante que as pessoas esquecem, porque nesse momento todo mundo quer poder falar, desabafar e contar, é escutar de verdade. É muito importante ouvir, não perder essa troca, essa empatia. Todos nós ficamos angustiados e ansiosos, mas talvez outras pessoas precisem um pouco mais. E, muitas vezes, nos identificamos no relato do outro também - explica Danielle.

Sem estigmas

Na quarentena, até quem tem preconceito com tratamentos psicológicos e psquiatricos está tendo contato com sentimentos novos. Doenças e transtornos mentais ainda são muito estigmatizados na sociedade como um sinal de fracasso e falta de força de vontade. Não é, garantem especialistas.

- Se uma coisa diferente surgiu nesse momento foi que, pelo menos, estamos falando mais sobre o assunto. Tratar a cabeça é como tratar qualquer outro órgão. Pode ser, inclusive, falta de algum hormônio, por exemplo. Não tenha medo em procurar ajuda. Quanto mais cedo, maiores as chances de sucesso.