Saiba quem é o brasileiro que ficou entre os 50 melhores estudantes do mundo

Um drone para identificar focos de incêndios na Amazônia e um aplicativo que auxilia no processo de reciclagem do lixo eletrônico. Esses são alguns dos projetos de Lucas Tejedor, o jovem de 18 anos que ficou entre os 50 melhores estudantes do mundo, seleção promovida pela Global Student Prize. Aluno do último ano letivo do Centro Federal de Educação Tecnológica (Cefet-RJ), ele acredita na importância do investimento na educação e reconhece que a desigualdade no ensino reduz as oportunidades de outros talentos no Brasil.

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Único brasileiro entre os selecionados pela organização, que avaliou cerca de sete mil inscritos de 150 países, o morador de Bangu, na Zona Oeste do Rio, é filho de pais militares e sonha em gerenciar políticas públicas. A competição, que ainda está em andamento, escolherá os 10 melhores estudantes do planeta e, ao primeiro lugar, será destinado o prêmio de 100 mil dólares (R$ 526 mil) — valor que, caso o carioca receba, será investido nos projetos que desenvolve e guardado em uma “aplicação financeira simples”.

Em conversa com o GLOBO, Tejedor falou sobre desenvolvimento pessoal, a trajetória que teve na educação e comentou sobre a falta de recursos para fazer pesquisa no país. Confira:

1) De onde veio o seu interesse pelos estudos?

Desde que me lembro, eu sempre tive vontade de fazer acontecer. Quando aprendia algo novo na escola, por exemplo, ainda criança, eu buscava compartilhar o meu conhecimento com outras pessoas. Isso fazia, inclusive, com que eu aprendesse ainda mais — com os meus próprios erros e ajudando os outros.

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Mas, na escola em que eu estudava, o ensino era extremamente engessado. O negócio era passar no vestibular e, se você estivesse destoando, aquele não era o lugar para você. Foi quando eu entrei para o Cefet-RJ, que mudou a minha vida, porque era o ambiente perfeito para produzir. Fiz alguns projetos e, com o auxílio da chefe da divisão de sustentabilidade, fui inspirado a usar meu conhecimento para fazer a diferença na área ambiental. Sempre achei tudo muito interessante.

2) Teve alguém na sua família que te incentivou?

No início, minha família não apoiava muito as minhas ideias. Isso porque eles são militares, então, havia a expectativa de que eu seguisse a mesma carreira, mas eu sabia que não queria fazer isso. Ao mesmo tempo, eles sempre incentivaram muito a leitura — e foram justamente esses livros que me tiraram do caminho da carreira militar. Conforme fui fazendo projetos premiados, eles viram que estava funcionando e passaram a me apoiar. Hoje, estão no barco comigo.

3) E qual o seu sonho?

Gosto de pensar em fazer coisas que trarão impactos positivos, porque eu gosto de todas as áreas. Foi quando pensei no governo, por mais surpreendente que possa ser. Quero cursar direito pois penso que a entidade que mais impacta a sociedade, hoje, é o governo. Meu sonho, nesse sentido, é avaliar e auxiliar na criação de políticas públicas.

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Além de permitir o engajamento em áreas diferentes, porque vou poder pensar em tecnologia e meio ambiente, por exemplo, isso também ajudará muita gente. Gostaria de fazer isso em uma escala mundial, mas, claro, se não der, tentarei nacionalmente, no estado ou na cidade.

4) Você foi o único brasileiro selecionado entre os 50 melhores estudantes. Considerando que esta não é a realidade para a maior parte da população do país, o que você acha que deveria ser feito para que as pessoas tenham a mesma oportunidade?

Na educação, eu acredito que um orçamento superior seja necessário, porque ela é o fundamento que libera as oportunidades para a vida das pessoas. Também acredito que seja preciso identificar quais pontos estratégicos poderíamos melhorar, de modo que os recursos sejam direcionados para lugares que trarão mais resultados positivos.

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Mesmo o Cefet, por exemplo, que é um dos principais polos de tecnologia do Rio de Janeiro, já quase fechou por falta de investimento. E, se não fosse este colégio, eu não estaria onde estou hoje. Então, acredito na importância de dois componentes. Claro, é preciso colocar dinheiro, mas também é preciso ter eficiência na administração. Hoje, imagino que este seja um dos principais pontos críticos no nosso país.

5) Durante a pandemia, o seu colégio chegou a interromper um ano letivo. Você acha que isso impactou o seu desempenho?

A minha resposta é diferente da média porque, para mim, a pandemia ajudou. Não que eu não goste de ir para a escola, mas eu moro em Bangu, uma região que não é privilegiada na cidade. Então, eu passava mais de três horas em transportes públicos para ir às aulas. Claro que, no início da crise sanitária, eu perdi completamente a minha rotina e foi um desastre. Mas, depois, eu comecei a recuperar o foco e a estudar sozinho. Por outro lado, também acredito que o Brasil seja um país extremamente desigual, e essa foi uma chance que muita gente não teve. Poucas pessoas tiveram acesso às coisas, enquanto a maioria nem conseguiu acompanhar as aulas. O problema é que as oportunidades não são bem distribuídas.

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6) E você já chegou a passar por alguma dificuldade?

A principal foi o transporte público. Eu pego trem todos os dias, lotado, no ramal Santa Cruz, que é completamente instável. Toda hora tem algum problema, cortam o cabo e eu fico horas parado. No total, eu passo uma jornada de cerca de 2h30 para ir e o mesmo para voltar. Isso é algo que me prejudica muito. Não lido bem com essas questões, é desanimador. Fico ansioso ali dentro e, muitas vezes, chego na escola exausto. Costumo acordar às 4 da manhã e busco, com a minha disciplina, correr 5km perto de casa diariamente. Mas, ainda assim, me sinto exausto e não consigo trabalhar quando volto das aulas.

7) Em quais projetos você trabalha atualmente?

Tem o drone da Amazônia, que estou desenvolvendo para detectar pequenos focos de incêndio. O objetivo é que ele percorra a floresta e identifique esses pontos porque, hoje, esse é um dos problemas centrais do Brasil. Além disso, também participo do projeto Ubuntu, uma página que conecta ONGs virtualmente. Em parceria com a Casa Social de Cáritas e com o Cefet-RJ, percebi que as organizações não coordenam as ações entre si. Então, a ideia é conseguir sincronizar projetos que investem em objetivos comuns, como o combate à fome, por exemplo.

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8) Seu nome e esforço estão sendo reconhecidos. Considerando as realidades distintas do país, qual mensagem você gostaria de deixar?

Eu diria para as pessoas darem o seu máximo, dentro do possível. Muita gente está em uma condição de pobreza absurda, sem ter o que comer. Então, meu recado vai para quem tem o privilégio de ter acesso à educação. Falaria para que essas pessoas lutassem, também, para que todas as pessoas tenham as mesmas oportunidades. É assim que eu penso, pelo menos.

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