Saiba quem consertou o telescópio James Webb quando tudo parecia perdido

Em 2018, o Telescópio Espacial James Webb, o projeto conturbado para construir um instrumento que pudesse olhar para as primeiras estrelas do universo, parecia estar saindo dos trilhos mais uma vez.

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As peças do telescópio e seus instrumentos estavam completos, mas precisavam ser montados e testadas. A data de lançamento era jogada ainda mais para futuro, e os custos, que já se aproximavam de US$ 8 bilhões, estavam aumentando novamente. O Congresso, que havia fornecido várias injeções de dinheiro ao longo dos anos, estava descontente com o fato de a Nasa estar pedindo ainda mais dinheiro.

Foi aí que Gregory Robinson foi convidado para assumir como diretor de programa do Webb. Na época, ele era o diretor associado de programas na Nasa, o que tornava responsável por avaliar o desempenho de mais de 100 missões científicas. Mas ele recusou o convite.

— Eu estava gostando do emprego que tinha naquela época — disse ele.

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Tomas Zurbuchen, o administrador da Nasa para a Ciência, perguntou novamente.

— Ele tinha a união de duas habilidades — disse Zurbuchen sobre Robinson. — A primeira é que ele tinha visto muitos projetos, incluindo projetos que tiveram problemas. E a segunda é que ele tem essa habilitadade interpessoal de ganhar confiança. Ele pode entrar em uma sala, sentar em um refeitório, e quando sai de lá, conhece metade das pessoas.

Robinson cedeu e, em 2018, assumiu a tarefa de pôr o telescópio de volta nos trilhos e lançá-lo no espaço, afirmando que Zurbuchen “torceu meus dois braços” para que aceitasse a missão. Seu caminho até lá, contudo, era improvável.

Robinson, de 62 anos, é uma figura rara na Nasa: um homem negro em posição de chefia. Ele reconhece que “certamente as pessoas me veem neste cargo como uma inspiração” e “um reconhecimento de que também podem chegar lá”.

Ele diz que há muitos engenheiros negros trabalhando na Nasa agora, mas “certamente não tantos quanto deveria haver” e a maioria não tem cargos que demandam exposição pública como, por exemplo, participar de coletivas de imprensa como a que Robinson participou após o lançamento do Webb.

Assumiu o Webb em meio à uma maré de publicidade ruim para o projeto. A data prevista para o lançamento havia sido novamente adiada de maio de 2019 para maio de 2020. A Nasa criou um conselho de especialistas independentes para dar conselhos sobre o que precisava ser feito para pôr o Webb no céu.

Um mês após Robinson assumir a chefia, um teste que deu errado foi uma ilustração vívida de quanto precisava ser consertado.

As naves espaciais precisam aguentar as vibrações vigorosas do lançamento, então os engenheiros as testam sacudindo-as. Quando o Webb foi sacudido, contudo, os parafusos que seguravam a tampa do grande e frágil escudo solar se soltaram.

— Isso nos fez regredir meses, cerca de 10 meses. Só aquilo — disse Robinson.

A data de lançamento foi adiada para março de 2021, e o custo aumentou mais US$ 800 milhões. O incidente parecia uma repetição dos problemas anteriores que o projeto havia enfrentado.

Quando o telescópio foi nomeado Webb, em 2002, ele tinha uma previsão de orçamento de US$ 1 bilhão a US$ 3,5 bilhões. A data de lançamento inicial era oito anos depois, em 2010.

Quando a primeira década do século terminou, contudo, a data de lançamento mudou para 2014, e os custos estimados para o telescópio aumentaram para US$ 5,1 bilhões. Depois que análises descobriram que o orçamento e o cronograma eram inviáveis, em 2011, a Nasa reelaborou o programa com um orçamento muito maior, mas que não deveria passar de US$ 8 bilhões, e lançamento previsto para outubro de 2018.

Por vários anos depois de 2011, tudo parecia bem e o projeto atingia suas metas. Mas, como disse Robinson, “lá acontecem coisas que a gente não vê” e os “fantasmas sempre te alcançam”.

No que diz respeito aos parafusos que se soltaram durante o teste de vibração, descobriu-se que os desenhos de engenharia não especificavam quanto torque precisava ser aplicado. Coube à empreiteira, a Northrop Grumman, decidir. E eles não eram rígidos o suficiente.

— Era necessário haver uma especificação para garantir que tudo estaria certo — disse Robinson.

A comissão independente divulgou seu relatório, observando uma série de problemas, e fez 32 recomendações. A Nasa seguiu todos elas, disse Robinson, incluindo realizar uma auditoria de toda a espaçonave para identificar erros que ocorreram sem que ninguém percebesse.

Os engenheiros verificaram os desenhos e especificações. Eles analisaram os pedidos de compra para garantir que o que foi solicitado correspondia às especificações e que os fornecedores entregaram os itens corretos.

— Várias equipes foram organizadas, lideradas pelas pessoas mais experientes — disse Robinson. — Eles mergulharam de verdade na papelada.

No geral, o hardware realmente correspondia ao que foi originalmente projetado. Algumas coisas não combinavam, mas Robinson disse que nenhuma delas causaria uma falha catastrófica. Foram, ainda assim, consertadas.

Quando Robinson assumiu o cargo de diretor do programa, a eficiência do cronograma de Webb – uma medida de como o ritmo de trabalho em comparação com o que havia sido planejado – era de aproximadamente 55%, disse Zurbuchen. Isso, em grande parte, foi resultado de erros humanos evitáveis.

Zurbuchen disse que a equipe do Webb estava cheia de pessoas inteligentes e habilidosas, mas que hesitavam em receber críticas. Ele credita a Robinson a mudança do clima. Em poucos meses, a eficiência foi para 95%, com melhores comunicações e gerentes mais dispostos a compartilhar possíveis más notícias.

Uma série de novos problemas, no entanto, causaram atrasos adicionais e a necessidade de mais dinheiro. Alguns, como a pandemia e um problema com o compartimento de carga do foguete Ariane 5, de fabricação europeia, estavam fora do controle de Robinson.

Erros humanos também ocorreram, contudo, como em novembro passado, quando uma braçadeira prendendo o telescópio ao suporte de lançamento quebrou, sacudindo o equipamento, mas sem causar danos. Quando o Webb foi lançado no Natal, contudo, tudo deu certo.

Com o telescópio entrando em fase de observação, não haverá mais a necessidade de um diretor de programa. Robinson diz, com orgulho, que trabalhou para que não tivesse mais um emprego.

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