Saiba quem é o pai desaparecido do presidente da OAB

Fernando tinha apenas 26 anos quando desapareceu. Foto: Reprodução/Facebook

Nesta segunda-feira (29), o presidente Jair Bolsonaro (PSL) quis provocar o presidente da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), Felipe Santa Cruz, citando o pai dele, que está entre os desaparecidos da ditadura militar no Brasil.

O presidente, que já se mostrou diversas vezes favorável à ditadura e que já afirmou que tem um torturador como ídolo, disse: “Um dia, se o presidente da OAB quiser saber como é que o pai dele desapareceu no período militar, conto pra ele. Ele não vai querer ouvir a verdade”.

Após a declaração de Bolsonaro, Santa Cruz respondeu dizendo que o presidente mostrava ter traços de caráter graves, como crueldade e falta de empatia. Em nota, ele relembrou um pouco sobre seu pai e disse que ele tinha um compromisso com a democracia.

Leia também:

Porém, quem é o pai de Santa Cruz e por qual motivo ele ainda incomoda tanto Bolsonaro? O presidente da OAB é filho de Fernando Augusto de Santa Cruz Oliveira. Ele era militante de esquerda e tinha apenas 26 anos quando desapareceu. Na época, o seu filho, tinha apenas dois anos.

Segundo o acervo Memórias da Ditadura, Fernando nasceu em 20 de fevereiro de 1948, em Recife, Pernambuco, e desapareceu em 23 de fevereiro de 1974, no Rio de Janeiro. Ele foi visto pela família pela última vez quando ele deixou a casa do irmão.

Ele fez parte das organizações Ação Popular e Ação Popular Marxista Leninista. Mas, de acordo com o relatório da Comissão da Verdade, não existe nenhum registro de que Fernando tenha participado de luta armada.

De acordo com o acervo de mortos e desaparecidos políticos da ditadura, da Secretaria de Direitos Humanos, Fernando tinha sido preso antes de desaparecer, em 1966, por ter participado de uma passeata contra o acordo MEC-Usaid (que mudaria o ensino brasileiro para os moldes dos Estados Unidos).

Quando a situação da ditadura foi ficando cada vez mais grave, ele parou de militar e saiu de Recife. Ele foi aprovado no vestibular para cursar direito na Universidade Federal Fluminense e se matriculou na instituição em 1972.

Lá, ele voltou a militar dentro do diretório acadêmico e no diretório central dos estudantes. Porém, em setembro de 1973, ele se mudou para São Paulo, onde foi funcionário do Departamento de Águas e Energia Elétrica de São Paulo.

Ele vivia a vida legalmente e, em 1974, ele decide ir para o Rio de Janeiro para passar o Carnaval com a família. Durante o sábado daquela semana, ele decidiu se encontrar com o amigo de infância Eduardo Collier Filho.

Por saber que o amigo sofria processo na Justiça Militar, Fernando alertou a família para uma possível prisão. Ele disse que, se não voltasse até 18h daquele dia, ele teria sido preso. Chegou o horário e ele não voltou.

A família, desesperada, buscou o paradeiro de Fernando durante muito tempo. Porém, só recebiam informações desencontradas das autoridades. Os familiares chegaram a procurar até órgãos internacionais para tentar achar o parente desaparecido.

A principal hipótese para o desaparecimento de Fernando e Eduardo é a de que eles foram presos juntos e mortos na Casa da Morte, em Petrópolis. Seus corpos, então, teriam sido levados para serem incinerados em uma usina de açúcar.

Esta é a principal hipótese, principalmente, por conta do depoimento de Claudio Guerra à Comissão Nacional da Verdade. Ele era delegado do DOPS (Departamento de Ordem Política e Social), órgão da repressão da ditadura militar.

Guerra reconheceu, em depoimento, uma foto de Fernando e o apontou como uma das vítimas que ele teria recolhido da Casa da Morte para levar para a Usina Cambahyba, em Campos dos Goytacazes, no Rio de Janeiro. Ele afirmou, então, que os corpos dos dois foram incinerados no local.

A Comissão Nacional da Verdade chegou à conclusão de que Fernando foi preso e morto por agentes do Estado brasileiro. E que, por não ter tido seus restos mortais entregues à família, permaneceria como um desaparecido.