Saiba quem era o paranaense que matou a esposa a tiros, se tornou serial killer nos EUA e morreu em acidente aéreo

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RIO - Na madrugada do dia 18 de novembro de 1996, vizinhos de um prédio na Rua Piauí, 61, em Londrina (PR), ouviram gritos e o barulho de objetos arremessados, por volta de 1h30. Em seguida, escutaram o som de pelo menos seis disparos.

O piloto Roberto Wagner Fernandes, à época com 31 anos, havia matado a esposa, a professora Danyelle Bouças Fernandes, de 27 anos, com dois tiros de uma pistola Taurus semiautomática. Em seguida, fugiu de carro com a filha do casal, de 5 anos, nos braços.

Começava ali a história de um homem que, por ter se livrado no Brasil de uma acusação de feminicídio alegando legítima defesa, e mesmo acusado de ter tentado matar outra mulher, teve condições de assassinar outras três na Flórida. Morto em 2005, é investigado como serial killer nos Estados Unidos.

O anúncio foi feito anteontem pela polícia do condado de Broward, na Flórida. Ao fim de uma investigação que durou mais de 20 anos, Fernandes, depois da exumação do corpo feita entre o fim do ano passado e o início deste ano, que permitiu a coleta de seu DNA, foi confirmado como autor dos assassinatos de três mulheres no início dos anos 2000: Kimberly Dietz-Livesey, de 35 anos, Sia Demas, de 21 anos, e Jessica Good, de 24 anos. Duas delas foram espancadas até a morte. Jessica foi esfaqueada.

O padrão dos crimes é típico de um assassino em série. Todas eram prostitutas com um histórico de dependência de drogas.

— Eram vítimas oportunas para ele — comentou o inspetor Zack Scott, da polícia de Broward. — Tinham problemas com drogas, e se prostituíam na mesma área de Miami.

É esse perfil que conecta o fim da carreira de crimes de Fernandes ao seu início. Há 25 anos, acusado pela morte da mulher, o paranaense não só alegou legítima defesa, como disse que Danyelle teria ameaçado matá-lo com um revólver após ter atendido um telefonema de uma garota de programa com quem ele havia tido um caso. Poucos dias após o crime, a prostituta foi à Delegacia de Polícia Civil do município e, segundo depoimento reproduzido pelo jornal Folha de Londrina à época, contou que Fernandes a agrediu e tentou afogá-la em uma banheira de hidromassagem de um motel.

“Ele cheirou muita cocaína, tomou uísque e me deu garrafadas na cabeça, socos e pontapés”, contou à polícia a garota de programa, na época com 24 anos. Ela relatou que estava na hidromassagem quando Fernandes a atingiu com a garrafa e tentou afogá-la, segurando-a pelo pescoço. “Nem sei explicar como saí de dentro daquela hidromassagem”, disse em seu depoimento.

A garota de programa acrescentou que se defendeu com beliscões e que o então piloto só parou quando ela conseguiu abrir a porta do apartamento. “Ele se acalmou, pediu para que eu vestisse a roupa nele e saímos calmamente do motel. Eu nem quis fazer reclamação na portaria, com medo de ser agredida novamente”, admitiu.

A testemunha explicou que ligou para a casa de Fernandes porque ficou desconfiada da autenticidade do cheque com que ele pagou o encontro, da companhia aérea em que na época o assassino trabalhava.

Levado à Justiça pelo assassinato da mulher, Fernandes alegou “falta de provas” e de testemunhas que fossem contra sua tese de legítima defesa e acrescentou que Danyelle estava descontrolada, bêbada, sob efeito de remédios e agindo injustificadamente. Além de inculpar a vítima do homicídio, a defesa também procurou desqualificar o depoimento da prostituta, dizendo que a ligação que provocou a briga do casal foi para pedir mais dinheiro pelo programa.

À Justiça, Roberto sustentou que ele é quem foi agredido com a garrafa no motel, porque ela queria um pagamento maior do que o combinado. Apesar do atendimento que a prostituta recebeu em um hospital na noite do encontro, em que foram atestados ferimentos no corpo e ela recebeu pontos nas nádegas.

O piloto acabou absolvido, o que revoltou a família de Danyelle. Segundo os investigadores, o resultado nos tribunais teria inclusive motivado os parentes a contratarem um pistoleiro para executar Roberto.

Sob ameaça, e com a intenção de deixar o passado para trás, Fernandes decidiu ir para os Estados Unidos, depois de várias viagens entre os dois países entre 1996 e 1999. Na Flórida, começou a trabalhar como motorista para uma empresa de turismo e, também, como comissário de bordo no Aeroporto Internacional de Miami. Foi num curto período, entre 1999 e 2001, que a polícia americana afirma que o brasileiro violentou e matou as três mulheres. No dia 1º de setembro de 2001, quase que imediatamente após assassinar a última das vítimas, ele fugiu de novo para o Brasil. Um companheiro de Jessica Good contou a policiais que, na noite em que ela desapareceu, havia dito que iria se encontrar com um “homem branco hispânico”. A informação provavelmente foi o motivo da saída do assassino dos EUA.

O material genético encontrado nas três só seria combinado anos depois. O DNA de Roberto não constava de bancos de dados nos Estados Unidos, nem suas impressões digitais. Mas em 2011, digitais colhidas de Fernandes nas investigações do assassinato de sua mulher ajudaram a finalmente chegar ao piloto. Os investigadores foram ao Brasil, mas descobriram que Fernandes havia morrido seis anos antes quando pilotava um avião rumo ao Paraguai.

Em 13 de dezembro de 2005, Roberto estava no comando de um bimotor Cessna 310 da Argentina mas perdeu o controle do aparelho, que caiu em um grande pantanal em Misiones, município 300 quilômetros ao sul de Assunção. Ele morreu aos 40 anos. Entre os destroços brancos e vermelhos do avião, a polícia encontrou 15 galões de gasolina, de 40 litros cada um, uma indicação de Fernandes tinha a intenção de continuar se deslocando.

Para os investigadores americanos, o assassino fugia de novas acusações que acumulara no Brasil, assim como de seu passado com a mulher.

— Em 2003, ele foi identificado como suspeito de estupro, e talvez tenha sido o que fez com que ele tentasse fugir para o Paraguai. Além disso, há varias outras citações ao nome dele por violência contra mulheres no Brasil neste período — relatou Zack Scott na entrevista que anunciou a identificação de Fernandes , sem entrar em detalhes.

À época, a morte de Fernandes teve pouco ou nenhum destaque no noticiário. Ele morreu sem nunca ter respondido pelas mortes de Kimberly, Sia e Jessica. Para Scott, a conclusão da autoria do brasileiro nos crimes praticados em Miami é ainda mais relevante porque o fato de que ele tinha licença para pilotar aviões abre um leque de possibilidades para que o criminoso tenha feito mais vítimas em outros lugares dos Estados Unidos e ao redor do mundo.

— No Brasil ele tinha uma licença para pilotar, então ele poderia viajar para outros países, e esse é um dos motivos pelo qual estamos fazendo este anúncio publicamente: alguém que age com esse tipo de violência contra as vítimas e com esse desprezo pela vida, acho que difícil que se limite apenas a estas três vítimas. Não acho que ele tenha parado ali, e isso faz parte da investigação. Não há limite de onde ele possa ter estado — acrescentou o detetive, que também não descartou o envolvimento de Fernandes em mais crimes na época na região do Aeroporto Internacional de Miami.

Roberto Wagner Fernandes mata a mulher, a professora Danyelle Bouças Fernandes, de 27 anos, com dois tiros, no apartamento de ambos em Londrina (PR). É absolvido por legítima defesa.

A prostituta que foi o pivô da discussão do casal conta à polícia que telefonou para a casa de Fernandes e Danyelle. Ela conta que em um encontro, Fernandes a espancou e tentou afogá-la.

Fernandes realiza viagens para os EUA e em seguida começa a trabalhar em Miami como motorista de turismo e comissário de bordo.

Kimberly Dietz-Livesey, de 35 anos, é encontrada em uma mala em Cooper City, na Flórida. Ela foi espancada até a morte.

Sia Demas, de 21 anos, é encontrada morta em uma mochila em Dania Beach. Demas também foi espancada.

Jessica Good, de 24 anos, é achada na Baía de Biscayne, morta a facadas.

Roberto foge para o Brasil. Na noite em que foi morta, Jessica Good contou a um companheiro que iria se encontrar com um "homem branco hispânico".

Fernandes passa a responder por estupro e outros casos de agressão contra mulheres no Brasil.

Fernandes morre na queda de um avião que pilotava no Paraguai, perto da fronteira com a Argentina.

O corpo de Fernandes é exumado e o DNA combina com o de amostras colhidas com as três mulheres mortas na Flórida.

Policiais de Broward, na Flórida, anunciam o fim das investigações das mortes de três jovens mas alertam que Roberto pode ter assassinado outras pessoas.

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