Saiba quem são Ben-Gvir e Smotrich, radicais que formarão governo com Netanyahu em Israel

TEL AVIV, ISRAEL (FOLHAPRESS) - Quando o então primeiro-ministro israelense Yitzhak Rabin foi assassinado, em 4 de novembro de 1995, o jovem Itamar Ben-Gvir, com seus 19 anos, comemorou. Ele fazia parte --assim como o assassino, Yigal Amir-- de um grupo de radicais de extrema direita que odiava a ideia de acordos de paz com os palestinos, a exemplo dos de Oslo, que Rabin havia assinado três anos antes.

Exatos 27 anos depois, Ben-Gvir, hoje com 46, comemora novamente. Ele foi o fenômeno do pleito parlamentar de Israel desta semana junto com seu parceiro de coligação, Bezalel Smotrich. A união ultranacionalista terá 14 cadeiras das 120 do Knesset, depois de ser escolhida por 10,8% dos eleitores israelenses (516 mil votos), tornando-se a terceira maior bancada.

A coligação adotou oficialmente o nome de Sionismo Religioso, partido de Smotrich que se aliou ao Otzmá Yehudit (Força Judaica) de Ben-Gvir.

A surpresa maior se deu porque até bem pouco tempo atrás, ambos eram considerados radicais demais, marginalizados pelo mainstream político. Suas ideias e discursos xenófobos e racistas chocavam, mas não eram levados muito a sério. Agora, porém, essa retórica parece ser deglutida por cada vez mais eleitores israelenses, principalmente mais jovens, religiosos e abertos a estratégias violentas --e a comparação a líderes de ultradireita em outros países não é mera coincidência.

Outra explicação para a ascensão de Ben-Gvir e Smotrich é o xadrez jogado pelo político mais habilidoso do país, o ex-primeiro-ministro (e provavelmente futuro) Binyamin Netanyahu. Foi ele que apadrinhou a união dos dois, que viviam às turras em meio à disputa de egos e firulas ideológicas, para essas eleições. Motivo: o ex-premiê sabia que só conseguiria formar um governo caso fortalecesse a direita --incluindo partidos religiosos e ultranacionalistas--, já que havia brigado com quase todos os líderes de centro e de esquerda. Foi um xeque-mate.

Separados, Ben-Gvir e Smotrich talvez não chegassem a 14 cadeiras. Mas, unidos, formaram um impulso que atraiu até eleitores do Likud de Netanyahu. A força da coalizão deve levar Netanyahu a conceder a eles espaços importantes na gestão, como os ministérios da Defesa e da Segurança Interna, num pesadelo para o centro, a esquerda e ativistas palestinos; nesta quinta, sirenes soaram em Israel depois do relato de disparos na Faixa de Gaza.

Itamar Ben-Gvir é um advogado que se especializou em defender ativistas judeus radicais, principalmente em casos ligados a confrontos com árabes-israelenses e palestinos. Ele mesmo foi indiciado várias vezes por incitação ao racismo.

O político nasceu em Mevasseret Zion, subúrbio de Jerusalém, em uma família secular. Mas, quando adolescente, aderiu a grupos religiosos de ultradireita em meio à Primeira Intifada (1987-1990), uma violenta revolta popular palestina. Nessa época, passou a seguir as ideias do rabino Meir Kahana, ultranacionalista acusado de terrorismo nos EUA e em Israel que chegou a ser eleito para o Knesset em 1984, mas foi boicotado e banido do Parlamento. Seu partido, o Kach, no qual Ben-Gvir militou, foi declarado ilegal.

O rabino, que acabou assassinado em Nova York em 1990 por um egípcio-americano, apoiava o uso da violência contra o que via como inimigos do povo judeu. Mas se na década de 1980 seu "kahanismo" era uma aberração, 2022 mostra que ele se tornou mais palatável. "Kahana estava certo" é uma pichação visível em muros, viadutos e prédios pelo país.

Nesse contexto, Ben-Gvir --que tinha em casa uma foto de Baruch Goldstein, que assassinou 29 muçulmanos numa mesquita na Cisjordânia em 1994-- experimentou uma ascensão que agora se transforma em meteórica. Suas ideias como que modernizaram o "kahanismo". Entre elas, a de que é necessário expulsar do país cidadãos árabes que não jurem lealdade à bandeira nacional de Israel.

Sua intenção sempre foi a de ingressar no Knesset, o que tentou várias vezes pelo Força Judaica desde 2019. Ele conseguiu um assento no pleito de 2021, em uma coligação de religiosos de ultradireita que obteve seis cadeiras. Em dois anos, sua popularidade só aumentou, principalmente quando passou a usar com mais habilidade as redes sociais para veicular suas ideias e a aparecer na mídia em protestos e manifestações contra palestinos e a minoria árabe.

Na Sionismo Religioso, coligação formada agora, porém, o número um será Bezalel Smotrich, 42, advogado de extrema direita que chegou a fazer parte do partido Yamina, do ex-premiê Naftali Bennett. Um pouco menos controverso --e menos carismático-- que Ben-Gvir, ele também nutre ideias ultranacionalistas e anti-LGBTQIA+.

Smotrich nasceu nas Colinas de Golã, território anexado por Israel após a Guerra dos Seis Dias (1967). Mas cresceu em Beit El, colônia judaica na Cisjordânia, em uma família ultraortodoxa. Em 2005, aos 25 anos, foi detido ao protestar contra a retirada israelense da Faixa de Gaza promovida pelo então premiê Ariel Sharon. No ano seguinte, participou de protestos contra a Parada do Orgulho Gay em Jerusalém, que chamou de abominável.

Sua trajetória política começou em 2015, quando foi eleito parlamentar pela coligação Casa Judaica. Uma de suas plataformas é a adoção do Velho Testamento como fonte para o sistema jurídico. Ele também já deu declarações preconceituosas, defendendo que construtoras não deveriam vender apartamentos para árabes e, dizendo-se contra o casamento homoafetivo, referiu-se aos LGBT como anormais.

Netanyahu deve se apoiar neles para formar seu próximo governo, o mais direitista da história de Israel.

Nesta quinta, o atual premiê, Yair Lapid reconheceu a derrota na eleição. Os números finais da apuração indicam que o bloco de forças ligadas a Netanyahu terá 64 cadeiras no Knesset --32 do Likud, 18 para os ultraortodoxos Shas e Judaísmo da Torá e 14 do Sionismo Religioso. Lapid e aliados terão 51 assentos, e independentes árabes, 5.