Saiba quem vai comandar o hospital de campanha do Riocentro; unidade abre nesta sexta

Luiz Ernesto Magalhães

Quando ainda estudava medicina, a cardiologista Valesca Antunes Marques, de 44 anos, tinha um sonho. Ingressar na ONG Médicos Sem Fronteiras e ajudar a tratar pacientes em áreas muito pobres na África. Filha única, enfrentou resistência dos pais para sair do país. Não foi para a África, mas, por dois anos, morou na cidade de Urucurituba (Amazonas) e viveu experiências como tratar pacientes de aldeias ribeirinhas picados por cobras, mordidos por jacaré e fazer partos de adolescentes que aos 14 anos seriam mães pela segunda vez. De volta ao Rio, em 2004, deixando uma rotina que exigia que as vezes passasse cinco dias em um barco para visitar os pacientes, Valesca, workholic assumida, trabalhou em CTis das redes pública e privada. Seu próximo desafio será enfrentar a pandemia da Covid-19, chefiando o hospital de campanha que a prefeitura montou no pavilhão 3 do Riocentro, o maior do Rio para tratamento exclusivo de Covid, que será inagurado nesta sexta-feira.

Com capacidade para 500 pacientes (400 clínicos e 100 de UTI), o hospital vai começar a operar com 20% da capacidade (80 leitos comuns e 20 de CTIs) porque parte dos equipamentos, inclusive 300 respiradores comprados na China, só chega na semana que vem. Mesmo assim, em um cenário marcado por filas de espera por vagas na rede pública, a médica diz que ser um alívio.

— Hoje mesmo o hospital já vai funcionar. A prioridade será receber pacientes que estão internados nas UPAs — contou Valesca.

Quando a unidade estiver com todos os leitos abertos, ela comandará uma equipe de aproximadamente 1,5 mil profissionais entre médicos (muitos ainda em contratação), enfermeiros, fisioterapeutas e pessoal de apoio.

Nos primeiros dias, com capacidade reduzida, a equipe será menor. Serão cerca de 230 pessoas se revezando 24 horas no Riocentro. Como as visitas serão proibidas, os pacientes que estiverem em condições vão manter contato com os parentes por tablets, através de vídeochamadas. No dia a dia, a chefe do hospital de campanha acredita que terá também a companhia de colegas que estão se oferecendo como voluntários.

— Muitos médicos querem atuar nessa pandemia. Um desses colegas que se ofereceu para ser voluntário é um amigo ortopedista que já teve a doença e se propôs a integrar a equipe — disse a médica.

Casada com um psiquiatra e mãe de dois filhos - Cauã de 15 anos e Lucas de 10 anos - doutora Valesca terá sua rotina alterada por conta do trabalho. Em casa, ela vai ficar em um cômodo isolado do restante da família, inclusive da mãe de 74 anos que mora com ela - o pai já é falecido. O afastamento social deve manter Valesca longe da família inclusive em julho, quando ela, o marido e um dos filhos fazem aniversário. Realista, a médica acredita que o hospital de campanha será necessário pelo menos até setembro ou outubro:

— Meu marido me conheceu sabendo que minha rotina era intensa. Meu filho mais velho sabe exatamente qual é a rotina da mãe. Quando era pequeno, me acompanhava em alguns plantões que dei em CTIs e dormia na sala de repouso das equipes — contou.

Valesca se define como uma pessoa bastante espiritualizada (embora não professe qualquer religião) e emotiva. A ponto de chorar com parentes de pacientes que perdeu ao longo da vida.

— É muito difícil. Falam que médico se acostuma a isso. Comigo é diferente. Dói saber que alguém, seja um pai, filho, irmão, mãe vai chorar por quem morreu.