Salário anual de Vera Magalhães na TV Cultura não é de R$ 500 mil; é de quase metade desse valor

O salário da jornalista Vera Magalhães, âncora do programa Roda Viva da TV Cultura, não equivale a R$ 500 mil ao ano, como garantem usuários nas redes sociais em publicações compartilhadas mais de 4 mil vezes desde 29 de agosto de 2022. Uma consulta pública a um pedido solicitado via Lei de Acesso à Informação (LAI) pelo Portal do Cidadão de São Paulo mostra que o valor firmado em contrato é de R$ 22 mil mensais, ou R$ 264 mil anuais. À AFP, a jornalista e a TV Cultura confirmaram que a remuneração corresponde a esse valor.

“VERA MAGALHÃES ! A jornalista que ganha 500 mil por ano da fundação sustentada pelo governo de SP. Entendeu ? Doria começou a bancar a jornalista que ataca o presidente em todo o tempo. VAMOS PARAR COM O MI MI MI QUE BOLSONARO É CONTRA AS MULHERES ! A casa caiu Vera !”, escreveu o pastor Silas Malafaia no Twitter. A mesma mensagem circulou também no Facebook (1, 2, 3).

Captura de tela feita em 31 de agosto de 2022 de uma publicação no Twitter ( . / )

A mensagem, que já tinha circulado em 2020, voltou a ser compartilhada após a jornalista ser atacada pelo presidente Jair Bolsonaro (PL) no primeiro debate das eleições de 2022 em 28 de agosto deste ano.

Ao formular uma pergunta sobre a cobertura vacinal no país ao candidato Ciro Gomes com comentário do mandatário, Magalhães disse: “Queria saber em que medida a desinformação sobre vacinas, difundida inclusive pelo presidente da República, pode ter contribuído [para a baixa cobertura vacinal], além de agravar a pandemia de covid-19 (...) também para desacreditar a população enquanto eficácia das vacinas em geral?”.

Na hora de comentar, Bolsonaro respondeu: “Eu não podia esperar outra coisa de você. Eu acho que você dorme pensando em mim. Você tem alguma paixão por mim. Você não pode tomar partido em um debate como esse. Fazer acusações mentirosas ao meu respeito, você é uma vergonha para o jornalismo brasileiro”.

Desde então, publicações afirmando que seriam de R$ 500 mil anuais os vencimentos recebidos pela jornalista em seu contrato com a Fundação Padre Anchieta, mantenedora da TV Cultura – canal que veicula o programa Roda Viva, apresentado por ela – foram difundidas nas redes sociais.

Em resposta, a jornalista republicou uma imagem de seu contrato que havia compartilhado em seu perfil no Twitter em 2020, quando desinformação semelhante circulou.

O documento mostra que a remuneração da jornalista é de 22 mil mensais, ou seja, R$ 264 mil ao ano, pouco mais da metade do valor informado na publicação viral.

Em 30 de agosto de 2022, a jornalista informou ao Checamos que o valor de seu salário não foi alterado com relação a 2020, já que o contrato foi firmado naquele ano com duração de 3 anos, e termina em dezembro de 2022.

O mesmo valor para a remuneração da jornalista havia sido informado pela TV Cultura em resposta a um pedido via Lei de Acesso à Informação (LAI) do jornalista Luiz Fernando Toledo, feito em 2 de março de 2020. A solicitação pode ser consultada no Sistema Integrado de Informações ao Cidadão (SIC) de São Paulo sob o protocolo 78435204544.

Captura de tela feita em 30 de agosto de 2022 da resposta publicada no Sistema Integrado de Informações ao Cidadão (SIC) sobre os salários dos apresentadores do Roda Viva ( . / )

Em resposta à AFP em 31 de agosto de 2022, a TV Cultura afirmou que o contrato da jornalista ainda é o mesmo previamente revelado e acrescentou que a remuneração de Vera Magalhães não é paga “com os repasses de fundos públicos, previstos na Constituição de São Paulo, mas com recursos de venda de publicidade”.

A TV Cultura é mantida pela Fundação Padre Anchieta (FPA), uma instituição pública que recebe recursos do governo do Estado de São Paulo. A entidade tem autonomia administrativa e financeira, com “plena gestão dos seus bens e recursos”, conforme previsto em seu estatuto social. Ainda, de acordo com a FPA, “a instituição é custeada por dotações orçamentárias e por recursos próprios”.

Verificação semelhante foi feita por Agência Lupa e Estadão Verifica.