Salgueiro cria projeto Carteiro Comunitário para entregar cartas nas casas dos moradores

Regiane Jesus
Projeto Carteiro Comunitário no Salgueiro promove entrega de cartas nas casas dos moradores

RIO - No Salgueiro, uma visita tradicionalmente assídua e indesejada é muito bem-vinda. Por incrível que pareça, receber boletos virou motivo de comemoração para moradores da comunidade tijucana desde que o projeto Carteiro Comunitário, idealizado pela associação de moradores, foi implantado. Os jovens que batem à porta das casas uniformizados e cheios de envelopes nas mãos, desde o início deste mês, são recebidos com sorrisos. O motivo de tanta alegria ao se deparar, na maioria das vezes, com correspondências de cobrança é a carência do serviço nas ruas locais, já que por lá os Correios não fazem entregas de porta em porta, como acontece rotineiramente no asfalto, por se tratar de uma área considerada de risco. A novidade facilita a vida de quem tem dificuldade de buscar suas mensagens impressas na sede do órgão que atende quem vive no morro. Devido ao avanço do coronavírus, durante o período de quarentena haverá uma redução do serviço, mas ele não será interrompido para evitar que idosos precisem sair de casa.

Nascido no Salgueiro há 18 anos, João Vítor Santos é um dos quatro carteiros comunitários que estão à frente da iniciativa, que paga uma bolsa aos participantes.

— Boleto é notícia ruim para muita gente, mas por aqui os moradores agradecem por recebê-los e, consequentemente, poderem pagar suas contas em dia. Mas é claro que também recebem outros tipos de correspondências, como cartões de crédito. Eu sinto orgulho, ao fazer esse trabalho, de ajudar a comunidade, principalmente idosos e pessoas com deficiência. Cumpro o meu expediente feliz, independentemente das dificuldades do dia a dia — garante o jovem, que cursa o 1º ano do ensino médio.

Fácil a atividade de carteiro comunitário não é. Além do sobe e desce constante pelas ladeiras do Salgueiro, um outro desafio se faz presente, como conta Stfani Faria Serra, de 22 anos.

— Um das maiores dificuldades desse trabalho é procurar as pessoas pelos seus nomes verdadeiros, já que muita gente na comunidade só é conhecida pelo apelido — diz ela sobre a prova de fogo que já virou rotina: — Às vezes, viro investigadora para localizar o destinatário (risos). Mas nunca fui mordida por cachorro.

A jovem, estudante de design de sobrancelhas, afirma que as pessoas são muito gentis:

— O rapaz do açougue sempre me dá uma garrafa d’água.

Moradora da comunidade, Stfani, que já trabalhou em lanchonetes e entregando quentinhas, faz questão de ressaltar os pontos positivos do novo trabalho:

— Eu me sinto útil para quem sofria por não poder receber as correspondências em casa e ainda conheço melhor o lugar onde moro.

Idealizador do Carteiro Comunitário, Walter Rodrigues, presidente da Associação de Moradores do Salgueiro, já planeja ampliar o projeto:

— No futuro, queremos fazer entrega das encomendas que os moradores compram pela internet. Eu tenho 55 anos de idade e de Salgueiro, então tenho vasto conhecimento dos problemas da comunidade, e um deles é essa questão das correspondências.

Criar oportunidade de trabalho dentro da própria comunidade é outra preocupação de Rodrigues:

— É preciso ocupar esses jovens e gerar renda.

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