Salles atuou de forma explícita a favor de madeireiros, diz delegado da PF afastado

Leandro Prazeres
·6 minuto de leitura

BRASÍLIA - Após 11 anos trabalhando na Amazônia, a última semanado delegado da Polícia Federal Alexandre Saraiva foi, sem dúvidas,uma das mais tumultuadas. Na terça-feira (14), ele enviou umanotícia-crime contra o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, eo senador Telmário Mota (PROS-RR) por favorecimento a madeireiros.No dia seguinte, a PF anunciou sua substituição no cargo desuperintendente do órgão no Amazonas.

Em entrevista aoGLOBO, Saraiva reforça que denunciou Salles por entender que eleestaria atuando a favor de madeireiros e diz que nunca haviapresenciado algo assim durante seus quase 18 anos na PolíciaFederal.

— Ele estaria atuando e favorecendo os madeireiros e issofoi feito de uma forma muito explícita. Tem vídeo dele apontando para a placa de uma empresainvestigada que segundo ele 'estava tudo certinho' e que, naverdade, em relação a esta empresa, já existia até laudo pericialapontando as ilegalidades cometidas — disse.

A ação de Sallesteria ocorrido após a PF ter realizado a maior apreensão de madeirada história na Amazônia, na divisa do Pará com o Amazonas, durantea operação Handroanthus, no início do ano. Salles foi à áreaonde a madeira está apreendida e chegou a fazer críticas àoperação.

Na semana passada,Alexandre Saraiva enviou uma notícia-crime contra Salles e Telmárioafirmando que os dois estariam praticando advocacia administrativa emfavor dos madeireiros e tentando atrapalhar a atuação da PF. Sallese Telmário negam as acusações.

Na entrevista,Saraiva ainda classificou como “desnecessária” a proposta deSalles de criaruma espécie de “patrulha armada” para realizaroperações de combate ao desmatamento. — Essa proposta édesnecessária pra dizer o mínimo. Nós já temos a PF, Ibama eICMBio para fazer isso— afirmou.

O senhor foisurpreendido pela sua substituição?

Toda vez que muda odiretor-geral, há uma expectativa sobre quem vai ficar e quem vaisair. Mas, como eu sou um dos mais atua nessa parte de meio ambientee como tem uma situação grave e urgente, eu imaginei que fosseficar.

O senhor avaliaque sua substituição foi uma punição pelo fato de o senhor terdenunciado o ministro do Meio Ambiente?

Não posso e nãoirei fazer especulações sobre isso. O colega que me substituiu nocargo (Leandro Almada) é um ótimo delegado.

Como o senhor viua atuação do ministro Ricardo Salles na área onde foramapreendidas? Foi uma postura condizente com a de um ministro do MeioAmbiente?

Em relação a isso,a conduta dele a gente descreveu na notícia-crime que enviamos aoSTF. Num primeiro momento, ele colocou em dúvida o trabalho da PF.Em um segundo momento, foi uma conduta que patrocinava justamente aação dos criminosos. Nos pareceu que a conduta toda favorecia oscriminosos. Quando recebemos os documentos dos madeireiros eanalisamos, verificamos ainda mais fraudes. Foi quando nós começamosa redigir o documento pro STF. Isso não era uma opção pra mim. Éum poder-dever. Era uma obrigação. Se fosse uma pessoa sem foro,instauraríamos o inquérito. Como tinha foro privilegiado,comunicamos ao Supremo.

O senhor podedescrever de forma detalhada qual foi a atuação do ministro no episódio?

Comunicamos aprática de obstar ou dificultar a ação fiscalizadora do PoderPúblico, o embaraço a investigação de organização criminosa e a advocaciaadministrativa. Em todos esses tipos (penais), ele estaria atuando efavorecendo os madeireiros e isso foi feito de uma forma muitoexplícita. Tem vídeo dele apontando para a placa de uma empresainvestigada que segundo ele “estava tudo certinho” e que, naverdade, em relação a esta empresa, já existia até laudo pericialapontando as ilegalidades cometidas.

Que sinal a suasubstituição logo após o envio da notícia-crime passa?

Olha...eu espero quetenha o trabalho de combate aos crimes ambientais tenha continuidade.O delegado que foi anunciado pro meu lugar é um excelente delegado.A PF é uma estrutura que independe das pessoas, mas qualquermovimentação na PF ganha amplitude e interpretações diversas. Épreciso ter cuidado com essas coisas.

O Brasil vaiparticipar da Cúpula de Líderes sobre o clima nos próximos dias.Na sua avaliação, a condução do ministro Ricardo Salles, à luzdos últimos eventos, gera confiança na comunidade internacional?

Eu vou falar sobre oâmbito do Ministério da Justiça. Nos últimos anos, tanto nagestão do ministro Sergio Moro quanto na gestão do ex-ministroAndré Mendonça, nós tivemos um apoio incondicional no combate acrimes ambientias. Não podemos falar ainda do novo diretor-geral(Paulo Maiurino) porque ele assumiu há muito pouco tempo. Nesseaspecto, em janeiro e fevereiro, o desmatamento deu uma arrefecida,mas se outras pastas não têm um discurso alinhado, é um remandopra frente e outro remando pra trás.

Nos últimosmeses, o ministro Ricardo Salles vem cobrando recursos estrangeirospara financiar ações de combate ao desmatamento. Como o senhoravalia esse argumento?

O combate aodesmatamento é muito mais uma questão de foco e estratégia do quede recursos.

Uma das propostasde Salles para o combate ao desmatamento na Amazônia seria a criaçãode uma patrulha que substituiria o Ibama, ICMBio e PF nas ações decombate ao desmatamento. Essa nova força seria, de fato, necessária?

Essa proposta édesnecessária pra dizer o mínimo. Nós já temos a PF, Ibama eICMBio para fazer isso. São instituições que tem uma amplaexperiência e não haveria necessidade de mais uma força pararealizar esse trabalho"

O senhor atua naAmazônia desde 2011. Em algum momento algum outro ministro do MeioAmbiente fez ingerência ou criticou o seu trabalho da forma comoaconteceu agora?

Não. Nenhum outroministro fez o que foi feito agora. Veja… o braço do MMA é oIbama e ICMBio. Nas operações da PF, a gente prefere fazê-lasjunto com o Ibama porque as ações administrativas e punitivas doIbama complementavam o trabalho nosso. E, nos últimos anos, issodeixou de acontecer. E faz muita falta não ter o Ibama em campo.

Quando o senhorfala que isso deixou de acontecer, o senhor está se referindo aosúltimos dois anos?

Sim. Nos últimosdois anos. Não foi de uma hora pra outra. Gradualmente, foi deixandode acontecer. E na operação Handrohantus, não tinha mais o Ibama.Apesar de o órgão ter sido instado várias vezes, o Ibama nãoentrou em campo.

Sob qualalegação?

Não tinha alegaçãoalguma. A coisa simplesmente não rodava.

Como delegado, osenhor já deve ter tido seu trabalho criticado por políticos ououtros agentes públicos. A pressão que o senhor recebeu nesseúltimo episódio foi ponto fora da curva?

Foi, sim. E essapressão toda mostra a importância de se dar autonomia pra PolíciaFederal e para os cargos todos. É preciso fortalecer um arcabouçonormativo da PF pra que esse tipo de pressão não surta efeito. Nãoestou falando novidade. É lógico que esses criminosos do meioambiente encontram parlamentares simpáticos a eles. Não é segredoalgum. Precisamos de mandato pra diretor-geral pra PF, mandato prasuperintendente, garantias para os policiais. A gente tem autonomiaem alguma medida, mas é muito mais uma cultura de autonomia e nósprecisamos mais do que isso.

Pelo fato de osenhor ter sido especulado como ministro do MeioAmbiente, há críticas de que a notícia-crime contra Salles foi umaforma que o senhor encontrou para atingí-lo e, eventualmente,substituí-lo. Como o senhor responde a essas críticas?

É a ilação maisridícula possível. Eu tive apenas duas conversas com o presidenteJair Bolsonaro. Conversamos sobre temas ambientais. Quando eu vim praAmazônia em 2011, não havia nem sonho disso (indicação). Eu nãotenho controle algum sobre o que as pessoas pensam, mas eu tenho aminha história a meu favor. São 18 anos na polícia e nunca meenvolvi com política ou com qualquer tipo de irregularidade. Sempreme envolvi com o meio ambiente. Esse tipo de crítica tem que seravaliada do ponto de vista do criticado, mas também a partir de quemme critica. Olha o perfil de quem me critica. Basta olhar perfil dequem diz esse tipo de coisa e olhar o meu. O meu perfil profissionalé impecável.

À luz danotícia-crime que o senhor enviou ao STF, o senhor acha que RicardoSalles deveria continuar no cargo?

Não me cabe fazeresse juízo de valor. Isso cabe ao STF.