Salles chega à Cúpula do Clima alegando que Brasil emite 3% de gases, mas desmatar Amazônia gera bomba de carbono

Bruno Alfano
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RIO - O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, chega à Cúpula de Líderes sobre o Clima argumentando que o Brasil não é “vilão do planeta” porque é responsável por uma fatia pequena das emissões mundiais de gases do efeito estufa. No entanto, o desmatamento da Amazônia — principal responsável no Brasil por essas emissões — é uma potencial bomba com o avanço do desmatamento e contribui de forma relevante para o aquecimento global, afirmam especialistas.

Segundo os especialistas, a Floresta Amazônica retem nas árvores e no solo uma quantidade equivalente a todo o carbono emitido pelo planeta nos últimos dez anos. No entanto, o avanço do desmatamento, explica Márcio Astrini, secretário-executivo do coletivo de ONGs Observatório do Clima, levará o bioma a um colapso e, assim, ela se tornará uma bomba de emissão de gases estufas.

— Nesse momento, ela liberará sozinha o carbono acumulado. E aí o Brasil passará a emitir 10%, 15%, 20% de todo o carbono mundial. Mas, principalmente, todo o esforço para reter o aquecimento global terá sido em vão — afirma Astrini.

No começo de abril, Salles afirmou que o país espera ajuda para "pagar uma conta que não é nossa".

— A China representa 30% das emissões das emissões mundiais (de gases do efeito estufa). Os Estados Unidos, 15%. A Europa, 14% e a Índia, 7%. Essas quatro regiões do planeta: 66%. O Brasil é (responsável por) 3%. (...) Não somos o grande vilão do planeta. Dos 3%, o desmatamento é metade. Eles estão nos cobrando que a gente enfrente esse 1,5% — disse em entrevista à Rádio Bandeirantes.

Segundo Astrini, o desmatamento brasileiro gira em torno da faixa de 3%. Em alguns anos, chegou a 2%. Em outros, subiu para 8%. Na avaliação dele, a participação brasileira deve crescer em 2020 devido à queda de emissão de outros países do mundo e o crescimento do país.

— Mas esse não é nem o caso. Primeiro que 3% é relevante. Essa história de irrelevância a gente já viu o que aconteceu quando o presidente chamou a Covid-19 de uma gripezinha. O fato é que as emissões do Brasil são extremamente perigosas pois elas são decorrentes da destruição da Amazônia.

Na gestão de Salles, o desmatamento do bioma tem batido recordes históricos. E, segundo Márcio Astrini, pesquisas apontam que o momento do colapso da Amazônia não está muito distante.

— Estudos do professor Carlos Nobre apontam que isso acontecerá quando o desmatamento atingir algum ponto entre 20% e 25%. Atualmente, já foi desmatado 20% do bioma. Ou seja, estamos à beira do precipício — afirma.

Astrini explica que, além da Amazônia, há outros biomas com potencial de serem bombas de gases do efeito estufa no planeta, como os oceanos, onde os corais retém uma enorme parcela do carbono emitido na atmosfera, e as geleiras da Groenlândia.

Paulo Moutinho, cientista sênior e cofundador do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), a taxa de 3% não isenta o Brasil de responsabilidade em relação ao clima. Além disso, ele questiona:

— E daí que somos 3% das emissoõs globais? O maior prejudicado do desmatamento no Brasil são os brasileiros, especialmente o da Amazônia. Ela é o sistema gigante de irrigamento do agronegócio do país, que responde por 20% do PIB nacional. Se o Salles e o governo não se importam com o clima, vamos fazer a redução das emissoes para salvar a nossa galinha de ouro.