Salles quer novo fundo para a Amazônia envolvendo o setor privado

DIOGO BERCITO
***ARQUIVO***BRASÍLIA, DF, 01.08.2019: Ministro Ricardo Salles (Meio Ambiente) durante coletiva de imprensa para falar sobre os dados de monitoramento de desmatamento do país, no Palácio do Planalto, em Brasília. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)

WASHINGTON, EUA (FOLHAPRESS) - O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, anunciou nesta quinta-feira (19) em Washington os planos do governo brasileiro de estruturar um novo fundo para a Amazônia. Ele acabava de sair de uma reunião com Luis Alberto Moreno, presidente do BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento), órgão que deve auxiliar na criação do fundo.

Salles, no entanto, não apresentou detalhes de sua proposta, que ainda não tem forma sólida. Falando à imprensa brasileira à porta do banco, ele não disse quais países farão parte do fundo, qual será o valor, nem como as verbas serão distribuídas na Amazônia. Procurado pela reportagem, o BID tampouco ofereceu dados concretos.

O ministro disse que o fundo deve unir países da região amazônica e o setor privado. "Tende a ser um instrumento para desenvolver a oportunidade da bioeconomia na Amazônia", ele afirmou. "Daqui para a frente, é transformar em documentação, em realidade, essa excelente ideia em que vínhamos trabalhando." A ideia pode ser discutida em um fórum em São Paulo em outubro e em um encontro na Amazônia em novembro.

Enquanto Salles negocia um novo mecanismo para a região florestal, no entanto, o existente Fundo Amazônia segue suspenso devido a conflitos entre o Brasil e Noruega e Alemanha, os países doadores do fundo. 

O fundo teve suas ações paralisadas após decreto do presidente Jair Bolsonaro (PSL) ter extinto os conselhos que o compunham. Os comitês não foram refeitos e Salles passou a tentar promover mudanças nas regras do Fundo Amazônia, as quais os países doadores não concordam. Um dos pontos centrais de discussão é a composição do Cofa (Comitê Orientador do Fundo Amazônia). Salles pretende reduzir os assentos do conselho e aumentar o poder de decisão do governo federal --ação semelhante foi tomada quanto ao Conama (Conselho Nacional do Meio Ambiente). 

No ínterim, segundo dados do Deter, do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), o desmatamento na Amazônia aumentou 222% em agosto deste ano em comparação com o mesmo período em 2018. As queimadas, somadas às de outros países na região, fizeram São Paulo anoitecer às 15h. O discurso de Bolsonaro quanto à fiscalização ambiental e a aproximação de parte de sua equipe, incluindo o ministro Salles, a setores interessados em explorar a Amazônia foram vistos como um maior incentivo a queimadas.

Salles começou a visita oficial aos EUA na manhã de quinta-feira com uma passagem pelo jornal Wall Street Journal e um almoço com investidores na Câmara de Comércio dos EUA. O ministro foi recebido por manifestantes com gritos de "terrorista" e "traidor".

Sua agenda tem duas prioridades. A primeira linha são as reuniões de investimento, como aquela na câmara e no BID. Em segundo lugar, há uma série de entrevistas com meios estrangeiros na quinta e na sexta-feira. O ministro segue a Nova York no sábado e se une à comitiva brasileira na Assembleia-Geral da ONU, com início na terça-feira (24).

O cronograma é, no entanto, bastante opaco. Apesar de ser uma visita oficial, a assessoria do ministro divulgou os compromissos de Salles apenas durante a tarde - quando parte deles já tinha ocorrido. O governo também não informou à imprensa onde o ministro está hospedado, sugerindo que tal pedido seja feito via lei de acesso à informação. Jornalistas não puderam acompanhar nenhum dos encontros do ministro.

Salles não deve se reunir com nenhuma autoridade política americana durante sua passagem pela capital. Há diversos legisladores com discurso crítico à política ambiental brasileira, entre eles o deputado Peter DeFazio e o senador Bob Menendez, ambos democratas. DeFazio, por exemplo, pede um boicote americano a produtos brasileiros.