Criada por quatro negros, Vale do Dendê busca incluir periferia de Salvador na rota tecnológica do país

Criada por quatro negros, Vale do Dendê busca incluir periferia de Salvador na rota tecnológica do país

Texto / Luca Veloso | Edição / Pedro Borges

O Vale do Silício, nos Estados Unidos, abriga milhares de start-ups e empresas globais de tecnologia. O Facebook, a Apple, e o Google são alguns exemplos. Em Salvador, existe a Vale do Dendê, que, seguindo o exemplo americano, pretende tornar a cidade baiana um polo reconhecido internacionalmente.

A ideia foi criada pelo publicitário Paulo Rogério, a produtora cultural Ítala Herta, o consultor em diversidade, Helio Santos e o jornalista Rosenildo Ferreira. O grupo tinha a angústia de não ver a cidade reconhecida como espaço de tecnologia e inovação.

A empresa é um escritório social, com o objetivo de fomentar projetos na cidade de Salvador. “Quando criamos, o nosso objetivo era posicionar Salvador como a capital mais criativa do país”, afirma Ítala Herta, uma das fundadoras do negócio.

Hoje, a Vale trabalha em três pilares. A Escola oferta cursos, treinamentos, workshops e formações. Na Aceleradora, desenvolvem produtos e soluções tecnológicas de impacto socioeconômico a baixo custo. Já a Consultoria pensa de maneira estratégica em como criar projetos de inovação e criatividade, a partir de áreas da cidade com potencial econômico.

“Nós oferecemos aos jovens e mulheres de Salvador o protagonismo em seu negócios, espaço nem sempre encontrado por essas pessoas”, comenta Ítala. “Queremos mostrar que somos a capital mais criativa do país. Aqui, além de ser um grande celeiro de música, literatura e moda, temos tecnologia”, completa.

Nos dados internos do escritório, desde 2016, mais de trinta mil pessoas acessaram o espaço físico da Vale, foram mais 90 parceiros envolvidos nas ideias e 107 candidatos já foram avaliados no programa de Aceleração.

Segundo dados da Associação Brasileira de Startups (ABStartups), Salvador é a cidade do Norte-Nordeste com maior número de startups em atuação. No país, está na oitava posição. De acordo com números da Receita Federal, de 2015, o estado possui mais de 352 mil microempreendedores individuais (MEI) cadastrados. A partir do levantamento, a Bahia ganha destaque no cenário nordestino com o maior número de registros.

Produzido pela Endeavor Brasil, e lançado em 2016, a terceira edição do Índice das Cidades Empreendedoras (ICE) apontou a cidade de Salvador como a 25ª cidade mais empreendedora no Brasil, entre as 32 avaliadas.

Para Ítala, os números mostram o potencial da cidade em alcançar visibilidade no cenário nacional como referência inovadora, levando em conta que a diversidade é algo diferencial na região.

“A gente olha pra cidade e vê a cultura africana, a diversidade como algo inovador e diferente das demais. Acreditamos que podemos ser uma rota global de inspiração e criação dos projetos bem sucedidos na indústria criativa”, aposta. “Buscamos incorporar essa narrativa e sair da invisibilidade nacional”, emenda.

Negros na tecnologia

Ítala acredita que mesmo com a contribuição histórica dos negros na tecnologia e inovação, falta espaço para colocar em prática suas ideias e serem reconhecidos enquanto produtores de conhecimento à humanidade.

“A presença dos negros na inovação é milenar. Nós somos descendentes de criativos e inovadores. Se for pensar em matemática, a física e as ciências, a gente parte do grande berço, que é a Àfrica, um ecossistema de invenções, mas somos invisibilizados. É cruel”, lamenta.

“As pessoas que estão nas margens são a grande potência. Na periferia há muita potência e tecnologia, mas é escondida por conta do racismo. Sendo assim, não recebe os investimentos necessários para serem realizadas”, aponta. “Não somos referenciados como um berço de tecnologia e inovação”, acrescenta.

Um levantamento do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), em 2016, constatou uma divisão racial do trabalho no país. Na área de engenharia de equipamento em computação, 92% dos trabalhadores são brancos. 90% dos engenheiros mecânicos automotivos são brancos, como 88,4% dos engenheiros aeronáuticos.

Por outro lado, as atividades que demandam maior trabalho braçal ou uma formação menos complexa, os negros são maioria, como os trabalhadores da cultura do dendê - 92,7% e os cultivadores de trepadeiras frutíferas - 84,3%.

O Monitor Global de Empreendedorismo, levantamento conduzido pelo Sebrae e pela Fundação Nacional de Qualidade, 16,8% dos empreendedores negros têm renda de até um salário mínimo. Entre os brancos, o número é de 6,4%.