Salvador discute tirar Carnaval do circuito Barra-Ondina a partir de 2023

SALVADOR, BA (FOLHAPRESS) - A Prefeitura de Salvador e o Conselho Municipal do Carnaval discutem uma possível mudança do principal circuito da festa, que deixaria de acontecer entre a Barra e Ondina, região turística da cidade, e mudaria para outro trecho de orla a cerca dez quilômetros da atual dispersão.

A mudança que está em estudo prevê a criação de um novo circuito entre o bairro da Boca do Rio e a praia de Patamares, em um trecho com cerca de cinco quilômetros. A região da Barra permaneceria com blocos acompanhados de bandas de fanfarra percussão, sem trios elétricos.

A saída do Carnaval da Barra, um dos principais cartões postais da cidade, gerou controvérsias entre moradores, artistas, dirigentes de blocos e empresários. Também há uma discussão sobre se a mudança já seria feita no Carnaval de 2023 ou somente no ano seguinte.

Nesta terça-feira (26), o Conselho do Carnaval se reuniu e decidiu elaborar um relatório com a opinião dos conselheiros transferência do circuito. A decisão final sobre o assunto caberá ao prefeito de Salvador, Bruno Reis (União Brasil).

Entre os conselheiros, há um consenso de que não seria viável a mudança já no Carnaval do próximo ano. Isso porque empresas que atuam na festa já estão com contratos firmados e turistas já têm reserva em hotéis ou alugaram apartamentos no entorno do circuito Barra-Ondina.

A ideia de mudar o circuito partiu da Prefeitura de Salvador, que pretende requalificar a área entre a Boca do Rio e Patamares, com a construção de um novo calçadão e áreas de lazer. A obra ainda está em fase de licitação.

"Com o surgimento deste novo espaço na cidade, o trade do Carnaval se interessou em utilizá-lo como circuito", afirmou Reis em entrevista à imprensa na semana passada.

O empresário Joaquim Nery, presidente do Conselho do Carnaval, defende que o ideal é que qualquer mudança seja realizada apenas depois do fim das obras de requalificação: "Talvez até para 2024 fique apertado".

Ele reiterou que a mudança de circuito é uma demanda da prefeitura e que o Conselho do Carnaval não é um órgão executivo. E destacou que a mudança não estava no radar dos empresários, que chegaram a discutir nos últimos a anos a criação de mais um circuito, sem acabar com o da Barra.

"De fato, a Barra tem alguns problemas estruturais, ficou uma área relativamente pequena para o público que tem. Mas essa mudança não é uma demanda do setor carnavalesco", afirma Nery.

A mudança também gerou reações entre artistas. Dono de blocos de Carnaval em Salvador, o cantor Bell Marques disse considerar precipitada qualquer mudança para 2023, ano em que o Carnaval vai voltar em Salvador depois de um hiato de dois anos sem festa.

"Precisamos saber se vamos levar essa mesma energia porque o público ir é uma coisa, levar a energia e ter liga é outra. Se alguém está pensando que é só botar um trio elétrico e tudo vira Carnaval, está com um pensamento equivocado", afirmou o cantor, que participa da festa há mais de 40 anos.

Ele ainda afirmou não ter sido consultado sobre o projeto, disse que teria contribuições a dar e defendeu que sejam realizados eventos-teste no período de pré-Carnaval antes de qualquer mudança definitiva.

A região da Boca do Rio já abrigou um pré-Carnaval conhecido como Farol Folia no início dos anos 2000. A festa passou a ser organizada após a proibição da participação de trios elétricos na Lavagem do Bonfim. A experiência, contudo, durou apenas um ano.

A cantora Margareth Menezes afirmou nesta segunda-feira (25) em entrevista ao programa Boa Tarde Bahia, da TV Band, que é preciso abrir um novo circuito para o Carnaval de Salvador, mas sem terminar com o Carnaval na Barra.

Entre os moradores dos bairros da Barra e Ondina, há avaliações díspares sobre a saída dos trios elétricos da região.

A Associação de Moradores da Barra defende a saída dos trios elétricos da região há pelo menos cinco anos e argumenta que a festa causa problemas de mobilidade, poluição e violência na região.

Outro grupo de moradores e empresários organizaram o movimento "SOS Carnaval Salvador" para tentar impedir a saída do Carnaval do bairro. Eles fizeram um abaixo-assinado e coletaram cerca de 3.000 assinaturas de pessoas contrárias à mudança.

O deputado estadual Hilton Coelho (PSOL) também destacou que o novo circuito na Boca do Rio passaria pela região do Parque de Pituaçu, uma das mais importantes reservas ecológicas de Salvador.

"Não estão sendo levados em consideração os aspectos históricos, ambientais e sociais envolvidos na questão. O Parque de Pituaçu precisa ser preservado e não atacado como será com a mudança do Carnaval. Animais, em especial as aves, sofrerão com o barulho e luz intensa nas noites da festa", diz.

Além do Barra-Ondina o Carnaval de Salvador ainda tem outros dois circuitos principais: um no Campo Grande e outro no Pelourinho, ambos na região central da cidade.

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