Em Salvador, fiéis celebram canonização de Irmã Dulce

Por Eugenia LOGIURATTO
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Religiosas fazem fila para entrar na cerimônia de canonização de Santa Dulce, "Mãe dos pobres", no estádio Fonte Nova Arena na cidade de Salvador, estado da Bahia, em 20 de outubro de 2019

Longe da pompa do Vaticano, próximo ao mar da Bahia, milhares de devotos de Santa Dulce dos Pobres celebraram neste domingo uma semana desde a su canonização, convencidos de que a primeira santa do país continua fazendo milagres.

Cerca 50.000 pessoas participaram das comemorações no estádio Arena Fonte Nova, em uma maratona de shows musicais, teatrais e uma Missa de Ação de Graças organizada pela Arquidiocese de Salvador.

Um exército de atores e dançarinos - incluindo vários beneficiários de seu trabalho social - encarnaram em um grande palco as principais passagens na vida da religiosa, intercaladas com coreografias animadas ao ritmo da música brasileira.

Em um dos momentos mais emocionantes da cerimônia, os protagonistas dos dois milagres que o Vaticano reconheceu à Irmã Dulce saudaram o público: uma mulher cujo sangramento grave após o parto cessou inexplicavelmente e um homem que se recuperou visão após 14 anos de cegueira devido ao glaucoma. O público aplaudiu os dois de pé.

- Santa 'de carne e osso' -

Entre os milhares de fiéis que viajaram a Salvador para participar da festa, também era possível encontrar aqueles que atribuem milagres não oficiais.

É o caso de Ronaldo Dos Santos Nascimento, um jovem que viajou de uma pequena cidade do interior da Bahia para celebrar a canonização e agradecer seu "milagre" pessoal: a misteriosa dissolução de uma pedra nos rins que exigia cirurgia.

"Os médicos falaram que foi uma graça. Hoje eu não sinto mais nada", afirma o jovem, que reitera emocionado: "para nós ela era santa há muito tempo".

Independentemente da ação milagrosa, todos concordam que Maria Rita Lopes Pontes era a "santa dos pobres" muito antes de ser canonizada, por sua ação social.

Irmã Dulce entregou sua vida à ajuda aos necessitados e, com um notável instinto empreendedor, desenvolveu uma obra social na Bahia, onde nasceu e fundou vários hospitais de caridade e uma rede de apoio social que dirigiu até a sua morte em 1992, aos 77 anos.

"Estamos muito orgulhosos. Ela é uma pessoa de carne e osso, a quem muitos aqui conhecemos pessoalmente ", disse à AFP Eduardo Santos Lopes Pontes, sobrinho-neto da santa.

"Sempre pensamos em um santo como algo inatingível. Com ela, percebemos que qualquer um pode ser, desde que seja uma pessoa dedicada e que realmente pratique o cristianismo", acrescentou Eduardo, médico de Goiânia.

O presidente Jair Bolsonaro, que não compareceu ao Vaticano, tampouco participou das comemorações em Salvador em razão de sua viagem oficial à Ásia.

- Seu rosto até no panetone -

Nos pontos turísticos da cidade - incluindo seu santuário -, seu rosto aparece estampado em letreiros, camisetas, guarda-chuvas, terços, copos, e até em papéis de panetone. Fitas coloridas de Nosso Senhor do Bonfim também são vendidas agora com o nome da "Santa Dulce dos Pobres".

Desde que foi canonizada, em 13 de outubro, os visitantes se multiplicaram no local de homenagens. Fiéis de todo Brasil chegam para fazer orações onde Irmã Dulce rezava, para tirar fotos do hábito branco e azul ou para "conversar" com ela no salão onde foi sepultada, sob una réplica de cerâmica de seu pequeno corpo descansando sob uma proteção de vidro.

As famosas fitas coloridas de Nosso Senhor do Bonfim são vendidas agora com o nome da "Santa Dulce dos Pobres".

Aqueles que continuam seu legado esperam que a canonização ajude a disseminar ainda mais o projeto e sua filosofia de trabalho.

"Agora, não se trata apenas de (continuar administrando) pacientes ambulatoriais, mas também temos de dar as boas-vindas a todos que desejam conhecer a história da Irmã Dulce", disse sua sobrinha, Maria Rita Pontes, à frente da organização.

"O Brasil e o mundo estão sedentos de amor. Precisamos amar, ter compaixão, olhar para os outros", concluiu.