‘Salvam a vida de quem?’: Vítima de arma de fogo usa ativismo para conscientizar sobre o impacto da flexibilização de armas

Anita Efraim
·12 minuto de leitura
Vitória Bernardes é ativista e está conselheira nacional de Saúde (Foto: Acervo Pessoal)
Vitória Bernardes é ativista e está conselheira nacional de Saúde (Foto: Acervo Pessoal)

Eu sou Vitória Bernardes, tenho 35 anos, sou psicóloga de formação e atualmente estou como conselheira nacional de saúde. Faço parte também do Coletivo Feminista Helen Keller de Mulheres com Deficiência, da Rede Desarma Brasil e da União Brasileira de Mulheres. Na área da psicologia, estou compondo as Comissões de Direitos Humanos do Conselho Regional de Psicologia do Rio Grande do Sul e do Conselho Federal de Psicologia.

Minha aproximação com o ativismo e os lugares que ocupo são atravessados diretamente pelo o que aconteceu comigo aos 16 anos de idade, quando me tornei uma pessoa com deficiência em decorrência de uma bala perdida.

Por mais que minha vida tenha seguido, esse episódio mudou completamente minha trajetória e forma de pensar e entender o mundo. Por exemplo, mesmo eu sendo natural de São Leopoldo, cidade do interior do Rio Grande do Sul onde está a empresa Taurus - que tem o monopólio na fabricação de armas no país -, eu nunca havia pensado sobre a importância de uma política de controle de armas para prevenção de suicídios, feminicídios e demais crimes.

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É curioso pensar que a arma que me atingiu foi fabricada a poucos quilômetros de onde eu estava. Ou ainda, que a falta de controle das armas fabricadas em minha cidade natal contribuiria para que a minha vida mudasse permanentemente.

O ano do meu “acidente” foi 2001, ou seja, antes da aprovação do Estatuto do Desarmamento, que é um dos principais pilares para a construção de uma política nacional de controle de armas no Brasil.

O DIA 31 DE DEZEMBRO DE 2001

Era de tarde e eu estava na casa da minha vó, em um bairro de Novo Hamburgo que faz divisa com São Leopoldo. Fui usar o orelhão que ficava do outro lado da rua, em um armazém. Chegando lá, vi o dono do armazém e um adolescente no que parecia ser um abraço. Não entendi bem o que estava acontecendo. Ouvi um disparo, caí no chão e comecei a sentir sangue em minha boca.

Eu tinha a referência de filme, em que, quando começa a sair sangue da boca de um personagem, ele rapidamente morre. Me apavorei. Então, não era um abraço, teve o barulho, foi um disparo... Fui remontando o que tinha acontecido quando eu já estava caída.

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O tiro pegou no meu pescoço, mas não foi mirado para mim. Era um espaço fechado, o dono do armazém reagiu ao assalto, a arma disparou, bateu na parede e veio em minha direção.

Minha mãe e minha tia estavam na varanda da casa da minha avó, do outro lado da rua, quando ouviram o disparo. A minha tia falou “isso foi um tiro”. A primeira coisa que minha mãe pensou foi “minha filha”, e saiu correndo para lá. Ela chegou a ver o guri saindo do armazém, guardando a arma, mas, obviamente, fez a coisa mais sábia que podia fazer naquele momento, que era procurar por mim.

Minha voz já não saia, pois tinha rompido esôfago e traqueia, mesmo assim, quando vi minha mãe, lhe disse: “eu não quero morrer”. Minha mãe é uma mulher muito forte e, de forma segura, me respondeu: “Tu não vai morrer, e pronto”. Ela entendeu rapidamente a gravidade da situação e que não havia tempo para chamar ambulância. Sendo assim, chamou o marido da minha tia, disse para pegar o carro e me levaram ao hospital mais próximo, que era em São Leopoldo.

Depois disso, eu apagava e voltava, só lembro de partes. Quando cheguei ao hospital, disseram “essa aí já era”, e essa foi a última lembrança que tenho sobre esse dia.

Lá, recebi apenas os primeiros socorros e, devido à complexidade do ferimento, fui levada imediatamente a Porto Alegre, cidade em que morava e onde permaneci por 3 meses na UTI.

A MUDANÇA DE VIDA

A bala disparada pela arma de fogo atingiu, além do esôfago e a traqueia, a 5ª e 6ª vertebra da coluna cervical e a medula, o que me tornou tetraplégica. Mexo parcialmente os braços, mas nas mãos não tenho nenhum movimento. Por mais que eu entendesse desde o hospital a restrição de movimentos, eu achava que seria algo passageiro, que iria voltar a andar rapidamente.

Depois que saí da UTI fui direto para um hospital de reabilitação em Brasília. Lá, ao ver muitos cadeirantes, fui entendendo que se eles não estavam andando, provavelmente não era algo tão simples.

Assimilar as informações nesse início foi complicado, já que temos uma visão negativa em relação à deficiência. A gente vê a deficiência ligada a um corpo incompleto, indesejado e sem perspectivas. Foi quase como se eu tivesse morrido em vida, já que a lamentação dos outros pela minha nova condição era frequente.

Com certeza meu maior desafio com a deficiência foi ter que lidar com a ideia construída sobre o que é ter deficiência. Romper com a ideia de incapacidade imposta aos nossos corpos é um processo que precisa ser feito por todos, já que há vida, contribuições e possibilidades também nessa vivencia.

Em 2003, quando foi aprovado o Estatuto do Desarmamento, eu ainda não tinha noção do quanto políticas públicas afetam nossas vidas e quanto o entendimento de gênero e raça, por exemplo, operam nas desigualdades impostas a maior parte da população brasileira. Mesmo que eu não entendesse a razão para o espanto dos outros sobre o que aconteceu comigo, já que notícias sobre balas perdidas não eram raras em noticiários, com o tempo percebi que o espanto não era com a bala perdida, mas sim com a ideia de uma pessoa branca ser vítima dela.

No imaginário de muitos há uma ideia que o descontrole de armas é um problema de regiões periféricas ou da violência (sobretudo do estado) no Rio de Janeiro. Pessoas com a minha cor, gênero, classe social e idade, por exemplo, sofrem acidente de carro e não “acham” balas pelas ruas, é o que acreditam. Entretanto, pessoas com a minha cor são as que mais defendem o uso de armas de fogo. Como a ideia de “defesa do patrimônio” se sobrepõe a ideia da gravidade de provocar dor e lesões em outros corpos? O que está por trás desse discurso que valorize objetos em detrimento de vidas?

Essas reflexões e questionamentos me fizeram repensar inclusive o investimento das equipes de saúde na minha sobrevivência. E quem não tem minha cor, receberia/recebe o mesmo atendimento?

Em 2005, quando teve o referendo sobre a proibição da comercialização de armas de fogo e munições, percebi que era urgente falar sobre esse tema, já que ele afetou minha vida e afeta uma importante parcela da população brasileira. Muito mais do que a questão de ter sido a arma de fogo que me tornou uma mulher com deficiência, ela é a responsável por interromper sonhos, histórias e destruir vidas... E isso precisa ser evidenciado por todas e todos, já que a dor do outro não pode seguir recebendo nossa indiferença.

Vitória em 2005, no dia em que houve o referendo sobre o desarmamento (Foto: Acervo Pessoal)
Vitória em 2005, no dia em que houve o referendo sobre o desarmamento (Foto: Acervo Pessoal)

FLEXIBILIZAÇÃO DAS ARMAS

Armas salvam a vida de quem? A resposta a essa pergunta é muito dolorosa, pois são raros os casos de legitima defesa e muitos os casos em que armas protagonizam violência doméstica, acidentes e cerceamento de vidas tão importantes como a minha e a tua.

Não é possível ignorar que o atual presidente foi eleito também pela promessa de flexibilizar o acesso a armas de fogo no Brasil, e quanto essa promessa está associada ao seu discurso de ódio. Quando ele pegou uma criança no colo, ainda durante a campanha, e, gargalhando, a ensinou fazer arminha com a mão, ele feriu mães e pais que tiveram a vida de seus filhos arrancadas, seja por acidentes domésticos, violência policial ou balas perdidas.

Recentemente teve o caso de um menino de Minas Gerais que, com 16 anos de idade, foi morto por um policial que alegou legítima defesa, sendo que ele atirou pelas suas costas. Josué Nogueira foi morto com a mesma idade que eu tinha quando fui ferida. Os familiares de Josué, assim como tantos outros familiares, além de terem de lidar com a dor da perda de uma pessoa tão amada, ainda precisam de forças para lutar por justiça e o reconhecimento que foi o Estado que, ao invés de protegê-lo, tirou sua vida.

Diante de casos que exigem a nossa revolta, a manutenção de discursos que autorizam e incentivam esse tipo de ação seguem presentes no posicionamento do governo federal. Por mais que a arma represente um instrumento fálico, necessário para sustentar a masculinidade frágil do presidente e parte de seus eleitores, é necessário evidenciar que por trás desse discurso há uma indústria que ganha com o meu sangue, com o sangue de crianças, jovens, mulheres e de tantas outras pessoas.

O desprezo de Bolsonaro não se limita a vida de “minorias”, que juntas representam a maior parte da população brasileira (mulheres, negras e negros, indígenas, quilombolas, pessoas com deficiência, LGBTs e todos que não correspondam ao seu ideal normativo), mas também atinge pessoas que ele diz defender. Por exemplo, o descontrole de armas prejudica ainda mais o trabalho de agentes de segurança pública, já que o aumento de circulação de armas aumenta desvios, roubos e riscos aos profissionais de segurança. Lembrando que ele mesmo, Jair Bolsonaro, já teve uma arma roubada.

Se não bastasse sermos a polícia que mais mata e a polícia que mais morre, ele não apresenta nenhuma política que garanta qualidade de vida desses trabalhadores, já que o número de suicídios ultrapassa o número de agentes mortos em confrontos em serviço.

É urgente compreendermos que o descontrole de armas não serve a quem busca civilidade. Diante uma pandemia que já matou mais de 90.000 brasileiros e brasileiras, a indiferença do poder executivo reforça que todo seu empenho para a flexibilização de armas e munições, para além de uma política, genocida, corresponde aos interesses de mercado da indústria bélica.

Durante a eleição eu já alertava sobre o impacto de seu discurso na nossa insegurança e utilizava a minha própria trajetória para exemplificar os impactos da flexibilização no acesso às armas. Em vão, já que muitos alegavam que minha história era “diferente”. Não é diferente. As pessoas falam que só “cidadão de bem” vai comprar arma. Quem já viu bandido indo comprar legalmente arma de fogo? Como vocês acham que as armas que mais matam, que são as armas de mão vendidas legalmente em nosso país, vão parar nas ruas?

A falta de controle das vendas nas armas fabricadas pela Taurus contribuiu para que a minha vida mudasse plenamente e não pode seguir sendo responsável pela mudança e perda de outras vidas, mesmo quase 20 anos depois. A responsabilidade por ser uma sobrevivente, já que tantas e tantas vidas foram arrancadas sem ter essa possibilidade, segue presente, mas ao mesmo tempo ela precisa e deve ser compartilhada por todas e todos, afinal o descontrole afeta a todos nós.

RACISMO

Eu nunca tive que parar para pensar minha cor, assim como antes de ter deficiência eu nunca parei para pensar como era ter um corpo sem deficiência. Essa constatação traz a urgência: por que eu nunca parei para pensar sobre isso? Por que muitos seguem sem se perguntar isso?

É através da tentativa de responder essa pergunta que constatamos a hierarquização de corpos e a importância de enfrentar as estruturas que mantem essa hierarquia.

Por que a morte de pessoas negras é seguida de “justificativas” que tentam esvaziar sua humanidade, associando seus corpos ao crime? Minha mãe não teve que despender tempo para provar minha inocência quando fui ferida por uma arma de fogo. Por que muitas mães negras são impedidas de viverem seu luto para honrar o nome de seus filhos? Essa relativização da vida tem nome: RACISMO.

A gente tem dados que comprovam que as maiores vítimas (de arma de fogo) são os jovens negros. O número de mortes de mulheres brancas vítimas de violência diminui quase 10% desde a implementação do Estatuto do Desarmamento, mas o número de mulheres negras vítimas de violência aumentou 54% no mesmo período. Não tem como ignorar que mais de 70% das mortes violentas são cometidas por arma de fogo e os principais alvos são pessoas negras. Ou seja, liberar armas é também uma forma de acentuar o genocídio dessa população.

Enquanto mulher com deficiência, preciso de aliados sem deficiência que questionam os lugares que ocupam que não são acessíveis. Enquanto mulher branca, preciso identificar o racismo em mim e evidenciar práticas racistas nos lugares que ocupo. Enquanto pessoas brancas, é preciso dar nome às exclusões perpetuadas e escancaradas em nossa cara que tanto nos privilegiam. Precisamos reconhecer o racismo praticado diariamente por todos nós, incluindo em nossas escolhas eleitorais.

PARA QUE SERVE UMA ARMA?

Arma é um instrumento de ataque. Pode sim ser útil, mas apenas para quem é treinado e possui compreensão da responsabilidade que é usar um instrumento letal, capaz de ceifar vidas de forma covarde, sem chance de defesa.

Não sou contra agentes de segurança pública utilizem armas, mas desde que se esgotem outras possibilidades e instrumentos, assim como sejam permanentemente capacitados a esse uso. É preciso que todos compreendam que agentes da segurança não são foras da lei, ao contrário, são profissionais que zelam por elas e, caso cometam um crime, seus crimes são cometidos enquanto representantes do Estado.

Tem uma pesquisa do Daniel Cerqueira (pesquisador do Ipea e conselheiro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública) que mostra que a cada 1% mais de armas nas ruas, são 2% a mais de mortes.

Em 2005 defendi a proibição da venda de armas de fogo porque não acredito que cidadãos sem capacitação possam comprar um objeto que pode ser usado de forma irresponsável e perversa. Se tu compra uma arma e é roubado, não há responsabilidade moral sobre o uso que será dado a ela? Precisamos pensar nisso também.

Não espere ser a próxima vítima para reconhecer os impactos permanentes ocasionados a partir da nossa indiferença!