Sambódromo ainda depende de alvará definitivo dos Bombeiros para receber eventos; entenda

Luiz Ernesto Magalhães
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RIO — Ainda que não houvesse pandemia e o carnaval de 2021 não tivesse sido cancelado, o Sambódromo só poderia ter recebido público com alvará provisório do Corpo de Bombeiros. A reforma, anunciada pelo governo passado, para que a Marquês de Sapucaí recebesse a certificação definitiva não foi concluída. As melhorias se limitaram à revisão emergencial da parte elétrica para os desfiles de 2020. E os R$ 8 milhões destinados às obras pelo Ministério do Turismo ainda não foram usados.

Agora, o novo vice-presidente da Riotur, Bruno Mattos, informa que está preparando a licitação para executar os serviços previstos no convênio com o Ministério do Turismo. O principal será a reforma do sistema de prevenção a incêndios. A prefeitura também vai refazer parte dos degraus intermediários das arquibancadas, feitos a toque de caixa para que o Corpo de Bombeiros concedesse a licença para 2020. Parte deles não tem as dimensões exigidas.

Há ainda outros detalhes: aumentar a altura dos guarda-corpos das arquibancadas, bem como sinalizar as saídas de emergência das arquibancadas. A expectativa é concluir os trabalhos até o fim do primeiro semestre. Sem essas intervenções, explica Mattos, não será possível ter o alvará definitivo, o que impede, por exemplo, o aluguel da Sapucaí para eventos, assim que a pandemia acabar. As diárias cobradas pela prefeitura podem variar de R$ 500 mil, para um show na Apoteose, a mais de R$ 1 milhão, se todo o complexo for arrendado.

Luz: maior despesa

Com 700 metros de pista, a Passarela, inaugurada em 1984, não recebe público desde a madrugada de 1º de março de 2020, quando a Viradouro fechou o Desfile das Campeãs.

— Só tenho uma palavra para resumir o que sinto: Tristeza. Desde os anos 1990, virei noites e até dormi na Sapucaí acompanhando detalhes dos preparativos para o carnaval — diz o gerente do Sambódromo, Roosevelt Moreira Dias.

Cerca de 60 funcionários terceirizados e mais de 50 guardas municipais (que se revezam) trabalham na manutenção da Sapucaí. Manter essa estrutura, onde há cerca de seis mil lâmpadas, custa R$ 7,4 milhões por ano, com ou sem desfiles, estima Mattos:

— A despesa maior é com a conta de luz: R$ 2 milhões por ano.

Nos últimos meses, os principais usuários do Sambódromo têm sido moradores de rua, que ocupam três abrigos montados pela prefeitura em salas de aula de um Ciep e de uma creche que funcionam no local. As 52 pessoas que hoje vivem ali devem ser remanejadas para outras unidades na semana que vem, quando está previsto o retorno das aulas presenciais no município.

A despeito das dificuldades, a presidente da Riotur, Daniela Maia, se mostra otimista e diz que, no momento, o foco é 2022:

— No ano que vem, cariocas e turistas do Brasil e do mundo terão o maior espetáculo já visto na Sapucaí.

A principal usuária do Sambódromo nos últimos meses tem sido a Secretaria municipal de Desenvolvimento Social, que, em abril, montou três abrigos nos setores 11 e 13 com capacidade para acolher simultaneamente até 170 moradores de rua. Hoje, são apenas 52. Parte deles será transferida para cinco hotéis alugados pela prefeitura no Centro do Rio; outros se preparam para voltar a morar com a família. O abrigo ocupa salas de aula de um Ciep e de creches do município, que serão devolvidas até o dia 20 à Secretaria de Educação para o retorno das aulas presenciais.

Desde abril, cerca de 5 mil pessoas passaram pelos abrigos. Nem todas tinham o perfil de morador de rua, como conta a coordenadora do complexo Maria Célia Vasconcellos, de 54 anos.

— No início da pandemia, acolhemos muitos ambulantes e pessoas que perderam emprego e renda com a pandemia. Sem ter como se sustentar, não tinham como pagar aluguel. Parte delas saiu depois de arrumar empregos, inclusive de entregadores para bares e restaurantes — conta ela.

Nem mesmo nos abrigos é possível deixar de lembrar do carnaval. Entre os acolhidos, estavam seis sul-americanos (três argentinos, um chileno, um uruguaio e um colombiano) que tinham vindo para o Rio, no ano passado, tentar vender peças de artesanato entre outros objetos durante a folia. Com a pandemia, tiveram dificuldades para retornar aos seus países, seja por causa do fechamento de fronteiras ou porque perderam os documentos. Parte deles retornou aos locais de origem. Antes disso, matavam saudades da família em conversas de vídeo pelo celular, usando pacote de dados cedidos pelos funcionários.

No caso da pedagoga Karen Ariano, de 44 anos, que integra a equipe, a lembrança do carnaval é permanente por causa da filha. Com a pandemia, a filha Clara, de 14 anos, não pôde desfilar na Sapucaí, na terça-feira, pela escola de samba mirim Miúda da Cabuçu. Há cinco anos, ela é segunda porta-bandeira da agremiação. A adolescente não se conforma.

— Vou ficar em casa para reduzir o risco de contágio, mas vou pegar a fantasia do ano passado e passar o dia dançando — diz Clara.