Sambódromo pode virar abrigo para acolher moradores de rua durante a pandemia

Rafael Galdo
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Moradores de rua esperam por distribuição de comida na Lapa

RIO - No radinho de pilha que seu Genival Cesário do Nascimento, de 55 anos, usa para acompanhar as notícias sobre o coronavírus, a toda hora ele ouve o apelo para que a população permaneça em casa. Mas um lar não faz parte da realidade dele nem de outros cerca de 14 mil moradores de rua do Rio. Para proteger esse grupo, em meio à pandemia, a prefeitura estuda usar o Sambódromo, palco dos desfiles de escola de samba, como ponto de acolhimento. Secretária municipal de Assistência Social e Direitos Humanos, Jucélia Oliveira Freitas, a Tia Ju, visitou também a Santa Casa, no Centro, para analisar a adaptação de parte do prédio. A ideia é instalar pias e chuveiros para permitir a higiene pessoal de quem hoje dorme sob marquises.

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A partir da semana que vem, as equipes de abordagem distribuirão quatro mil kits com sabonete líquido, lenço umedecido e papel higiênico, junto com panfleto informativo sobre como proceder a higienização. Também está prevista, junto com o governo do estado, a distribuição de 400 vagas em quartos de hotéis para idosas, gestantes e mães com crianças em situação de rua da cidade.

O medo de seu Genival, no entanto, não é ficar sem acolhimento. Com a pandemia instalada, a vida dele nas calçadas, que já é dura, tem novos fantasmas, como o agravamento da fome. As doações de comida já começaram a rarear. As pessoas também têm sido desestimuladas a usar dinheiro vivo, o que acarretará queda nos donativos.

— Nos dois últimos dias (quarta e quinta-feira), já não distribuíram o café da manhã que costumávamos receber na Lapa — dizia Genival nesta quinta-feira à tarde, prestes a entrar numa fila para conseguir uma quentinha que salvaria o almoço. — Até para comer, não sei como vai ser amanhã. Está complicado demais. O lugar em Santa Teresa onde eu pegava água para beber fechou. E com as ruas vazias, não sei se vou conseguir o papelão que cato para vender.

Idosa desconhece vírus

Há um ano vivendo nas ruas depois de ficar desempregado, é com o dinheiro desse material que o ex-porteiro, ex-faxineiro e ex-vigia compra, por exemplo, o pão com mortadela com o qual “forra o estômago” à noite. Quando sobra algum trocado, ele gasta na farmácia, com produtos de higiene pessoal. Nesta quinta-feira, numa sacola plástica, ele guardava uma única barra de sabonete, e fazia um apelo por doações de itens do tipo, tão fundamentais para prevenir a contaminação.

Na fila por comida em que Genival entrou, em frente aos Arcos da Lapa, se aglomeravam centenas de pessoal, todas muito próximas uma das outras. No Largo do Machado, menos movimentado do que o normal, moradores de rua ocupavam os bancos da praça. Na Glória, um grupo perambulava nas imediações do monumento ao Marechal Deodoro da Fonseca.

Sob o Elevado Paulo de Frontin, no Rio Comprido, um homem esquálido, vestindo apenas um short, comia uma quentinha sentado no chão. E no Estácio, na Rua João Paulo I, local onde foi assassinada a vereadora Marielle Franco, uma senhora, aparentando mais de 60 anos, passava a tarde quase imóvel na calçada. Ela sequer sabia o que era o coronavírus.

— Não lembro meu nome, minha idade, nada. Sei que estou com fome e queria beber um refrigerante. Fico aqui na esperança de me darem um dinheirinho. Mas não tem passado ninguém — lamentava.

Lotação temerária

Médico da UFF, André Ricardo Araújo da Silva lembra que essa população já vive em condições sociais deploráveis, muitos com doenças preexistentes e são dependentes químicos, o que os torna ainda mais vulneráveis. E ressalta que, neste momento, levá-los para abrigos superlotados, com espaços comuns, pode ser temerário. Antes mesmo da Covid-19, os próprios moradores de rua relatavam que esses espaços eram sujos e superlotados, inclusive com portadores de doenças contagiosas como tuberculose.

— Acabaríamos expondo essas moradores de rua à situação que queremos evitar. Como solução, uma ideia é adaptar prédios abandonados para oferecer estadia temporária. Sugiro também a ampliação do número de consultórios de rua, com equipes médicas que os acompanhe não só em relação ao coronavírus, mas também a outras enfermidades — diz o pesquisador.

Para tratar de medidas para essa população com necessidades tão urgentes, nesta sexta-feira a Secretaria de Desenvolvimento Social e Direitos Humanos do Estado também fará uma reunião com outros órgãos do governo para discutir detalhes de como viabilizar um plano de enfrentamento à questão.

"A Secretaria solicitou ao município (do Rio) um diagnóstico da população em situação de rua para o Estado analisar como viabilizar esse apoio neste momento emergencial, de forma complementar ao município, que é responsável por acolher esse público", afirma a pasta.