Samba do Trabalhador celebra 15 anos em novo disco

Sérgio Luz

Durante quase seis décadas, a tamarineira do Cacique de Ramos abençoou gerações de grandes nomes do samba, de Beth Carvalho a Jorge Aragão e Arlindo Cruz. Mas foi à sombra de uma caramboleira que floresceu o Samba do Trabalhador, no Clube Renascença, no Andaraí, há 15 anos. Com cerca de 2 mil pessoas a cada edição, sempre às segundas-feiras, o projeto capitaneado por Moacyr Luz gravou discos, DVDs, ganhou prêmios e se tornou um verdadeiro patrimônio cultural carioca.

Para celebrar a ocasião, que será comemorada no dia 30 de maio, a roda debutante lança nesta sexta-feira o disco “Fazendo samba” (Biscoito Fino). O álbum sai com 12 faixas inéditas entre as 16 do repertório, além de participações especiais de Roberta Sá, Leci Brandão e João Bosco.

— O Toninho Geraes foi quem me alertou de que temos cinco cantores e quatro compositores atuantes em nossa mesa. Pensei em dividir o trabalho com os garotos, por isso o álbum ficou grande — diz Moacyr, que escreveu 11 das 12 músicas do disco comemorativo de uma década da roda . — A gente quis mostrar as canções da roda. Sempre há essa associação do Samba do Trabalhador com o Fundo de Quintal. Acho essa comparação um exagero, mas copiamos a sombra da tamarineira deles.

E os garotos mencionados por Moa, já nem tão rapazes assim, são Gabriel Cavalcante (voz e cavaquinho), Nego Álvaro (voz e percussão), Mingo Silva (voz e percussão) e Alexandre Marmita (voz e cavaquinho). Os outros integrantes do grupo são os percussionistas Luiz Augusto Guimarães, Nilson Visual, Junior de Oliveira e Daniel Neves.

— Queria que pelo menos dois cantassem em cada música, ou todos juntos, como nos coros. O Nego e o Gabriel já lançaram discos solo, por exemplo. Acho que é importante ter essa autonomia. Fico orgulhoso deles — comenta Moacyr.

O repertório abre com “Loucos de inspiração”, de Wanderley Carvalho e Moacyr, que assinou canções com outros cinco parceiros: Toninho Geraes (“A cara do Brasil”), Aldir Blanc (“Camunga”), Xande de Pilares (“Das bandas de lá” e “Fora de moda”), Sereno (“Eu sou batuqueiro” e “ Canta sabiá”) e Zeca Pagodinho, na faixa que dá título ao trabalho.

— Eu queria chamar de “Samba do Trabalhador Volume 5”, mas acabamos com “Fazendo samba”, homenagem à minha parceria com o Zeca. A maioria do que eu canto lá no Rena [o Clube Renascença] ficou conhecida pela insistência, não tocava nas rádios. Tanto que falam que somos o samba da resistência. O andamento desse disco é mais cadenciado, tem minha cara — garante o compositor. — Sem pretensão, vamos mostrando músicas inéditas, é uma marca nossa. Tentamos trabalhar entre o popular e o mais dissonante e elegante, sem ser banal e sem ser arrogante.

Participações especiais

O viés sofisticado do disco pode ser ouvido na versão de “O ronco da cuíca”, clássico de Aldir Blanc e João Bosco, que canta e toca violão na gravação.

— A participação do João foi uma questão passional, sempre tive os dois como referência, pela grandeza de ambos enquanto artistas e compositores. Queria que ele estivesse com a gente nessa comemoração — diz Moacyr, que convidou Leci Brandão para cantar em “Sorriso negro” (Adilson Barbado/Jair/Jorge Portela). — A Leci representa a cantora negra brasileira. A música que foi consagrada pela Dona Ivone Lara não pode mais ser cantada por ela, só se descer numa entidade. Depois dela, acho que a Leci é a nossa baluarte do samba.

A outra convidada é Roberta Sá, que participa no samba “A cara do Brasil”, de versos como “Já vivi de ocasião / já mudei de opinião / já fui pedra, fui vidraça / mas com raça não fiquei no chão”.

— Assim como já convidei a Teresa Cristina e a Leila Pinheiro, a Roberta vem de amizade e admiração. O Toninho já gravou essa, mas tem uma dinâmica bacana, e a letra passa uma mensagem boa.

'Deu no New York Times'

As amizades e parcerias do disco são um resumo das tardes de segunda-feira no Renascença, com amigos, músicos e plateia em comunhão, “Fazendo samba”.

— Esses 15 anos são importantes porque a maioria das rodas é mensal, mas a nossa é toda semana. A importância do clube é fundamental, agregou energia, fiquei viciado em ir pra lá. Tem aquela marca da cultura negra carioca, afro-religiosa, e isso tudo me fascina no Rena, é cercado de referências. Nunca imaginei que seria esse sucesso todo. É o samba, é a paquera, é a comida, a cerveja, a liberdade. O cara encurta a semana dele pelo início, é uma segunda com cara de fim de semana. Vem gente de todo mundo, sempre tem gringo. Até o Anderson Cooper (âncora da CNN) passou por aqui. Deu no "New York Times", o Samba do trabalhador é um sucesso.

Serviço

Moacyr Luz e Samba do Trabalhador

Onde: Clube Renascença. Rua Baração de São Francisco 54, Andaraí (3253-2322). Quando: Seg, às 16h30. Quanto: R$ 40. Classificação: 18 anos.