Samuel de Assis: 'Demonstrar a fragilidade masculina é ser muito mais galã'

Samuel de Assis é Ben, seu primeiro protagonista em “Vai na fé”, novela das 19h que estreia nesta segunda-feira, na TV Globo. O personagem, adianta, é uma pessoa negra criada num mundo de brancos e que descobre o real significado do que é ser negro no Brasil durante a trama. “Acho que terá fácil identificação com o público”, aposta.

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Temos, então, um novo galã na área? “Os tempos mudaram. Demonstrar a fragilidade da nossa masculinidade hoje é ser muito mais galã do que exalar aquela masculinidade antiquada de outras épocas”, conta, na entrevista a seguir.

O GLOBO - O que você destacaria de mais importante na trajetória de Ben? Com qual aspecto do personagem o publico mais vai se identificar?

SAMUEL DE ASSIS - Ele é um cara que, por ser uma ilha, um homem preto criado no mundo de brancos para brancos, e sem muita noção do que é ser preto no Brasil, tem em sua trajetória a importância desse novo olhar para a vida e para o país em que vive. Traz essa descoberta de se perceber um homem negro no Brasil e resgatar o desejo de ajudar as pessoas com as facilidades e oportunidades que a vida lhe deu. Isso é o que o torna mais precioso para mim. Esse aspecto vai fazer dele uma personagem de fácil identificação com o público. Muita gente vai se reconhecer nesse lugar, seja com essa transformação, seja por entender porque ele não se via nesse lugar. Ele é muito real e muito parecido comigo, inclusive.

Como tem encarado o fato de ser o seu primeiro protagonista?

Como qualquer outro personagem. Há um volume maior de cenas, mas artisticamente não tem muita diferença. Meu trabalho é chegar lá e executar da melhor forma possível. No dia a dia, porém, as responsabilidades são maiores, você contracena com muito mais gente. É mais exaustivo o trabalho e exige preparação. Por outro lado, quando você é negro no Brasil, carrega o fardo de estar iniciando isso. Faz muito pouco tempo que começamos a ver protagonistas pretos no país. É uma abertura de caminhos que a gente tenta desbravar para que venham outros, para que a gente assuma um lugar que é nosso por direito. Isso é muito mais importante do que o título de protagonista.

Qual é, na sua opinião, o papel de um "galã" hoje em dia?

Os tempos mudaram. Já tivemos, no Brasil, um tempo em que ser galã era, além de ser bonito, exalar um tipo de masculinidade que hoje em dia não é mais cabível nem sinônimo de nada. Nós homens temos questões muito maiores para nos preocuparmos e não temos mais a obrigatoriedade que a sociedade nos dá de impor essa masculinidade. Ela nem cabe mais entre nós. O homem mudou e, se não mudou, espero que esteja a caminho disso, assim como a masculinidade.

Esse termo ainda significa algo para você?

Hoje em dia, para mim, um galã é um home bonito. É apenas um adjetivo, como foi "pão", na época da minha avó. A masculinidade está muito mais aberta e fluida. Demonstrar a fragilidade da nossa masculinidade hoje é ser muito mais galã do que exalar aquela masculinidade antiquada de outras épocas.

Seu personagem sonha em tirar um ano sabático. Certo?

Ele tem esse desejo no começo. Mas, depois, entende que o sonho dele é muito maior. As vontades dele se tornam outras.

Você já fez isso?

Era tudo o que queria, até porque, graças a Deus, estou trabalhando muito. Eu bem queria um ano sabático logo depois, mas acho que isso não vai ser possível (risos).