Samuel de Assis, o Ben de 'Vai na fé', fala do desejo de ser pai, assim como seu personagem: 'Único sonho que não realizei'

Samuel de Assis é capaz de fazer uma lista com as coincidências entre ele e seu primeiro protagonista da carreira, o Benjamin de “Vai na fé”. Para citar algumas: ser um homem preto bem-sucedido, criado num reduto de brancos e que deseja muito a paternidade.

— Na ficção, Ben sonha ter filhos, mas sua mulher não quer ser mãe. Na minha vida, acho que esse é o único sonho que ainda não realizei. Quero muito ser pai, desde adolescente. Tenho vários afilhados, eles me suprem um pouco porque ajudo na criação, não sou só o dindo que leva pra passear. Mas o meu desejo de ser pai permanece forte — conta o ator de 40 anos, nascido em Aracaju, capital de Sergipe, e criado em Salvador, na Bahia.

Atualmente solteiro e num relacionamento sério com o trabalho, Samuel conta que já formou na vida pessoal um casal inter-racial, assim como seu personagem. Na trama escrita por Rosane Svartman e com direção artística de Paulo Silvestrini, Benjamin é casado com Lumiar (Carolina Dieckmann), com quem também mantém uma parceria profissional.

— Eles têm um casamento muito sólido e feliz, se aceitaram e se entenderam em suas diferenças, formam uma dupla brilhante de advogados no trabalho, se amam de verdade — analisa o ator, adiantando que Ben ficará num dilema quando reencontrar Sol (Sheron Menezzes), uma antiga paixão: — Esse triângulo amoroso será uma indecisão. Vêm as dúvidas: será que se eu voltar com Sol, nós vamos recuperar esse amor que se perdeu? Será que se eu ficar com Lumiar, essa mulher que tanto amo, eu vou morrer sem conseguir ser pai e me dedicando a esse trabalho que não quero mais? Ben se cansa de defender bandido do colarinho branco. O sonho dele era ser defensor público, tirar o maior número possível de pretos, presos sem julgamento, da cadeia.

O reencontro com o passado vai acontecer quando Benjamin sobreviver a um grave acidente de trânsito, segundo está descrito na sinopse na novela das sete da Globo. A partir daí, ele passará a questionar sua visão de mundo, buscando respostas na ciência e na espiritualidade.

— Benjamin começa a ajudar os parentes das pessoas que morreram nesse acidente. É aí que reencontra Sol, um grande amor que se foi. E ele passa a questionar o que lhe aconteceu. Ben fala para Lumiar: “Eu me sinto mais perto de algo maior, de uma energia. Não sei o que é, mas tem que ter alguma explicação para eu ter sobrevivido milagrosamente” — pontua Samuel, que é adepto do Candomblé.

Até nesse aspecto mais dramático, o ator vê semelhanças com seu personagem:

— Eu nunca sofri um acidente de carro, graças a Deus, mas minha mãe (Adelma, de 68 anos) já. Nessa ocasião, ela foi dada como morta, mas alguém da equipe de resgate resolveu levantar o plástico que a cobria e percebeu que ela ainda estava respirando — relembra o sergipano, que na época do ocorrido tinha 6 anos de idade: — Minha mãe estava com dois amigos na hora do acidente, eu não estava junto. Mas me recordo muito bem da longa fase de recuperação dela, de toda a mudança que isso trouxe para a sua vida. Eu cuidei muito dela, que ficou passando por cirurgias sérias por anos. Acompanhei o processo de mudança do olhar da minha mãe para a vida, ao receber uma nova chance.

“Vai na fé” é a primeira novela inteira de Samuel, que até então só havia feito participações em obras do tipo. No ano passado, o trabalho do ator na série “Rensga Hits!”, do Globoplay, ganhou bastante projeção. Na história, ele é Kevin Costa, segurança do cantor sertanejo Deivid Cafajeste (Alejandro Claveaux), com quem se envolve amorosamente.

— Foi um sucesso que, sinceramente, nem eu esperava. O personagem era muito legal, com uma mensagem linda, mas o papel era secundário e razoavelmente pequeno. Acabou que o público se identificou por ser um homem bem resolvido com os seus desejos. A história dos dois viralizou. A verdade é que a gente está muito carente, necessitado de amor — observa Samuel, contando que, além das cenas quentes de beijo com Alejandro que causaram burburinho, gravou outras de sexo que não foram exibidas: — Uma pena... Infelizmente, ainda há resistência.

Depois de gravar a segunda e a terceira temporadas da série “As Five”, também do Globoplay, o ator celebra o protagonismo na TV aberta em “Vai na fé”.

— Eu amo o nome dessa novela, que tem 70% do elenco preto e não fala sobre escravidão. É sobre esse povo batalhador que tem o seu trabalho diário e segue em busca dos seus sonhos. A mensagem é que, sem otimismo, a gente não vive. Porque o olhar que o mundo tem pra mim, homem preto, é de “você tem que morrer”. Se eu não tivesse fé em mim mesmo, não estaria aqui agora. Também por isso esse trabalho é tão importante pra mim.