Sanofi prioriza EUA em vacina contra COVID-19 e gera polêmica

Por Julien DURY y María Elena BUCHELI
Logo da Sanofi

O governo francês disse nesta quinta-feira (14) que seria "inaceitável" que o grupo farmacêutico Sanofi desse prioridade aos Estados Unidos no caso de encontrarem uma vacina contra a COVID-19, como afirmou um funcionário da empresa.

O CEO da Sanofi, Paul Hudson, declarou na quarta-feira que, se a empresa encontrar uma vacina contra a doença, vai entregá-la "primeiro" aos Estados Unidos, já que esse país "compartilha o risco" na busca do tratamento por meio de uma colaboração com a Autoridade de Pesquisa e Desenvolvimento Biomédico Avançado (BARDA).

O governo dos Estados Unidos terá "direito a pedidos maiores", afirmou Hudson, em entrevista à agência Bloomberg, alegando que o país "investiu para tentar proteger sua população".

Seus comentários provocaram a indignação do governo francês.

O primeiro-ministro francês, Edouard Philippe, disse que "o acesso equitativo à vacina para todos não é negociável" e a secretária de Estado da Economia, Agnès Pannier-Runacher, considerou este "acesso privilegiado" como "inaceitável".

O governo francês destacou que entrou em contato com o grupo imediatamente depois dos comentários de Hudson.

"O chefe da divisão francesa da Sanofi me confirmou que uma vacina estaria disponível em todos os países e obviamente também para os franceses porque, entre outras coisas, há capacidade de produção na França", disse Pannier-Runacher.

A Comissão Europeia pediu, por sua vez, que o acesso à vacina do coronavírus seja "universal" e lembrou que, no início do mês, o bloco organizou uma conferência de doações que arrecadou cerca de US$ 8 bilhões, mas que o governo dos Estados Unidos se recusou a participar do evento.

"Para nós, em uma palavra, é muito importante trabalharmos nisso em nível global, já que o vírus é um vírus mundial", enfatizou o porta-voz da Comissão, Stefan de Keersmaecker, em coletiva de imprensa.

- EUA 'é eficaz' -

O diretor da Sanofi na França, Olivier Bogillot, tentou apagar a polêmica e afirmou nesta quinta-feira que "o objetivo é que esta vacina esteja disponível ao mesmo tempo nos Estados Unidos, França e Europa da mesma maneira".

Mas, de fato, isso só será possível "se os europeus trabalharem tão rápido quanto os americanos", acrescentou Bogillot.

"O governo dos EUA se mobilizou financeiramente de maneira forte desde o início", enfatizou, acrescentando que os Estados Unidos já planejavam pagar "várias centenas de milhões de euros".

Mas, completou, "estamos conversando com as autoridades europeias (...) e alguns países da UE, como França e Alemanha, para acelerar as coisas".

"Os americanos são eficazes neste período. A UE também deve estar nos ajudando a disponibilizar esta vacina rapidamente", insistiu.

Em uma nota, a Sanofi disse ainda que "a produção em solo americano seria dedicada principalmente aos Estados Unidos, e o restante de suas (capacidades) de produção seria destinado à Europa, à França e ao resto do mundo".

A empresa também se comprometeu a tornar esta possível vacina "acessível a todos".

Quanto à pesquisa propriamente dita, Bogillot confirmou que o objetivo ainda é desenvolver uma vacina que possa ser usada em um prazo de 18 a 24 meses. Este prazo é extremamente rápido em comparação ao prazo normal de cerca de 10 anos, acrescentou.