Sanofi prioriza EUA em vacina contra COVID-19 e gera polêmica

Por María Elena BUCHELI
Logo da Sanofi

O governo francês protestou nesta quinta-feira (14) contra o anúncio do grupo farmacêutico Sanofi de que dará prioridade aos Estados Unidos no caso de encontrarem uma vacina contra a COVID-19 e o presidente Emmanuel Macron estimou que a vacina contra este vírus, que já deixou cerca de 300.000 mortos no planeta, deve ser "um bem público mundial".

"Os esforços realizados nos últimos meses mostram a necessidade de que esta vacina seja um bem público mundial, fora das leis do mercado", afirmou Macron depois que a Sanofi disse que poderia enviar as primeiras vacinas contra o coronavírus para os EUA, já que as autoridades deste país investiram em seu desenvolvimento.

O governo dos Estados Unidos terá "direito a pedidos maiores", afirmou Paul Hudson, CEO da Sanofi, em entrevista à agência Bloomberg, alegando que o país "investiu para tentar proteger sua população".

O britânico, que assumiu o cargo no ano passado, pediu nesta quinta-feira à Europa que "compartilhe os riscos" para fabricar uma vacina.

Seus comentários provocaram a indignação do governo francês e especialistas em saúde, que enfatizaram as dezenas de milhões de euros que a Sanofi recebeu para pesquisa por parte do Estado francês.

O primeiro-ministro francês, Edouard Philippe, disse que "o acesso igualitário à vacina para todos não é negociável" e a secretária de Estado da Economia, Agnès Pannier-Runacher, considerou este "acesso privilegiado" como "inaceitável".

A presidência francesa anunciou que manterá conversas com os executivos da Sanofi no Palácio do Eliseu no início da próxima semana.

- 'Os americanos foram eficazes' -

O diretor da Sanofi na França, Olivier Bogillot, tentou apagar a polêmica e afirmou nesta quinta-feira que "o objetivo é que esta vacina esteja disponível ao mesmo tempo nos Estados Unidos, França e Europa da mesma maneira".

Mas, de fato, isso só será possível "se os europeus trabalharem tão rápido quanto os americanos", acrescentou Bogillot.

"O governo dos EUA se mobilizou financeiramente de maneira forte desde o início", enfatizou, acrescentando que os Estados Unidos já planejavam pagar "várias centenas de milhões de euros".

"Os americanos foram eficazes neste período. A UE também deve estar nos ajudando a disponibilizar esta vacina rapidamente", insistiu.

Em uma nota, a Sanofi disse ainda que "a produção em solo americano seria dedicada principalmente aos Estados Unidos, e o restante de suas (capacidades) de produção seria destinado à Europa, à França e ao resto do mundo".

A empresa também se comprometeu a tornar esta possível vacina "acessível a todos".

Em uma carta aberta, mais de 140 personalidades, entre elas o presidente sul-africano Cyril Ramaphosa e o primeiro-ministro do Paquistão Imran Khan, pediram que as futuras vacinas ou tratamentos contra o coronavírus sejam distribuídas "gratuitamente a todos".

Sanofi, uma das especialistas em vacinas mais poderosas do mundo, começou a busca de uma vacina em fevereiro e assinou um acordo de cooperação com a Autoridade de Pesquisa e Desenvolvimento Biomédico Avançado (BARDA), que depende do ministério da saúde dos EUA.

Quanto à pesquisa propriamente dita, Bogillot confirmou que o objetivo ainda é desenvolver uma vacina que possa ser usada em um prazo de 18 a 24 meses. Este prazo é extremamente rápido em comparação ao prazo normal de cerca de 10 anos, acrescentou.

A Agência Europeia de Medicamentos (EMA) afirmou que algumas vacinas podem estar "prontas para serem aprovadas daqui a um ano", mas acrescentou que este prazo é "otimista".

Atualmente, existem mais de cem projetos de vacinas em desenvolvimento contra a COVID-19 em todo o mundo, dos quais oito já se encontram em ensaios clínicos nos Estados Unidos, China e Europa, segundo o Instituto Jacques Delors.