Trabalho para desacreditar acusadores é em vão. Não tem santo nesse baile

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Brazilian Federal Deputy Luis Miranda adjusts his protective face mask during a meeting of the Parliamentary Inquiry Committee (CPI) to investigate government actions and management during the coronavirus disease (COVID-19) pandemic, at the Federal Senate in Brasilia, Brazil June 25, 2021. REUTERS/Adriano Machado
O deputado Luis Miranda fala à CPI da Pandemia. Foto: Adriano Machado/Reuters

Marqueteiros que enriqueceram na política. Líder de partido investigado que se sentiu abandonado e entregou os ex-aliados. Empreiteiros que sempre aceitaram o jogo até fazer delação.

Na história política recente, o que não falta é gente com as mãos sujas a apontar, com o dedo igualmente sujo, o caminho de supostos desvios. O resto é com a polícia.

Em comum, ninguém ali saiu do mosteiro.

Os mais recentes escândalos brasileiros foram destampados e protagonizados justamente por quem tem trajetória no mínimo estranha.

Antes de sair por aí posando de paladino na luta anticorrupção, o hoje deputado Luis Miranda (DEM-DF) era um empresário e youtuber processado por ex-sócios e investigado por gerenciar um suposto esquema de pirâmide.

Hoje ele acusa o presidente Jair Bolsonaro de dormir em cima do seu alerta de que havia algo de podre no reino do Palácio Central. Mais especificamente no Ministério da Saúde.

Como resultado, Miranda passou a ser coagido pelo governo, atacado nas redes e pediu proteção policial.

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Quase ao mesmo tempo apareceu das sombras uma figura obscura que trabalhava como PM em Alfenas e nas horas vagas negociava vacinas com o governo. Coisa pouca, cerca de 400 milhões de doses, o suficiente para aplicar duas doses do imunizante em praticamente todos os habitantes de um país de dimensões continentais. Parabéns aos envolvidos.

Luiz Paulo Dominghetti e companhia mostraram que com um pouco de lábia e muito de esperteza qualquer um pode empreender e vencer na vida vendendo terreno na lua. É só se esforçar e acreditar na própria capacidade.

Esse policial e vendedor nas horas vagas acusa gente do Ministério da Saúde de cobrar US$ 1 de propina por dose adquirida. Só não se sabe de onde ele e os sócios tirariam as doses. A fabricante AstraZeneca não tinha atravessador no negócio —e isso poderia ser confirmado com um único telefonema.

Com uma busca pela internet, os engambelados saberiam que a sede da empresa atravessadora, nos EUA, vendia material de construção até outro dia. Capitalismo faz milagres mas tem limites.

Como acontece em casos assim, os personagens expostos tentam agora se proteger atacando quem os ataca. A ideia é minar a credibilidade de quem acusa.

A personagem mais recente a ameaçar os alicerces da República é a ex-cunhada do próprio presidente. Quem assiste ao espetáculo pode sentar e pegar a pipoca: os gabinetes de todos os ódios já devem estar a postos para encontrar e espalhar todo tipo de histórias envolvendo a acusadora.

Jair Bolsonaro costuma dizer que não leva a sério o trabalho de uma CPI que tem “sete vagabundos” entre seus integrantes. Aposta alto na percepção do próprio público de que nenhum dos senadores munidos de lupa contra ele seriam recebidos para o chá de tarde com São Pedro. Ah, vá.

Tem sido assim desde pelo menos a CPI do PC Farias.

De lá pra cá, Pedro Collor, Roberto Jefferson, Duda Mendonça e grande elenco sempre foram ouvidos com atenção sem que tivessem as credenciais para a beatitude em análise.

Miranda, Dominghetti, Andrea Valle e outros personagens de tramas mais recentes não estavam no mosteiro enquanto ouviam proposta indecorosa. Estavam no olho das negociações dessas propostas, do embolso de salário a compra suspeita de vacinas.

Os ingênuos que me perdoem. Mas de negócios e negociatas brasilienses Madre Teresa não teria nada a dizer.

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