São Paulo acusa governo de 'burocratizar' sistema e provocar queda artificial no número de mortes por Covid-19

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Men carry boxes to be installed for the coffins at the Sao Pedro municipal cemetery, amid the coronavirus disease (COVID-19) outbreak, in Sao Paulo, Brazil, May 14, 2020.REUTERS/Amanda Perobelli     TPX IMAGES OF THE DAY
Dados que antes não eram pedidos, como CPF, número do cartão nacional do SUS (CNS) e a nacionalidade de pacientes, passaram a ser obrigatórios e provocaram uma queda artificial no número de mortes. (Foto: REUTERS/Amanda Perobelli)

O governo de São Paulo acusou o Ministério da Saúde de "burocratizar" o sistema de registro dos óbitos de Covid-19 após o estado registrar uma queda drástica de 24,3% no número de mortes pela doença em 24 horas entre terça e quarta-feira (24). 

Na terça-feira, São Paulo bateu um novo recorde ao atingir 1.021 óbitos diários em decorrência da doença. Já nesta quarta, o número caiu para 281 mortes, de acordo com os dados passados pela pasta do governo de Jair Bolsonaro (sem partido). 

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Dados que antes não eram pedidos, como CPF, número do cartão nacional do SUS (CNS) e a nacionalidade de pacientes, passaram a ser obrigatórios para que os municípios registrassem o óbito no sistema Sivep Gripe — que contabiliza o número de mortes suspeitas pela Covid-19, segundo explicou o secretário de Saúde, Jean Gorinchteyn.

A alteração foi feita sem aviso prévio e pegou de surpresa os gestores municipais e estaduais, segundo ele, e provocou um represamento dos dados reais das mortes.

"Essa mudança no sistema Sivep Gripe pelo Ministério da Saúde com incremento de registros burocratizou a informação para os municípios. Burocratizar sem avisar fez com que não tivéssemos aportado por grande parte dos municípios o número real de óbitos", explicou Gorinchteyn.

A Secretaria Estadual de Saúde de São Paulo enviou ofício ao ministério questionando a decisão e ainda não recebeu resposta.

Na semana passada, o então recorde era de 679 mortes em um dia, representando na ocasião um óbito a cada dois minutos nas últimas 24h.

Para se ter ideia da dimensão do número de mortes, em 23 de janeiro deste ano, a média móvel de óbitos causados pela Covid-19 em todo Brasil foi de 1.021. Esse tipo de média leva em consideração dados dos últimos sete dias para corrigir distorções provocadas pelas variações nos registros.

Do dia 22 de janeiro para o dia 23 de janeiro, o país havia registrado 1.176 novas mortes, de acordo com o consórcio de veículos de comunicação a partir dos registros das secretarias estaduais de Saúde.

Com as novas mortes, agora, apenas o estado de São Paulo totaliza 68.623 óbitos causados pelo coronavírus e mais de 2.332.043 de pessoas infectadas pela doença.

Leitos de UTI lotados

Nesta segunda-feira (22), a ocupação média de UTIs (Unidades de Terapia Intensiva) chegou a 91,9% no estado de São Paulo. No final de maio do ano passado, o momento que era considerado o mais grade da pandemia, a taxa ficou em 77,2%.

Na Região Metropolitana da capital, o índice foi a 91,6%, muito próximo dos 92,2% de ocupação da fase mais crítica no estado até então, em maio do ano passado, quando a região contabilizou 92,2% dos leitos cheios.

São 29.039 pessoas em leitos de UTI Covid-19 até esta segunda-feira (22). O número é mais do que o dobro de um mês atrás, quando eram 13.606 em no dia 22 de fevereiro. Do total pacientes internados, 16.871 estão em enfermaria e 12.168 em UTIs.

Na terça-feira passada (16), ao menos 15 hospitais particulares da cidade de São Paulo solicitaram ao estado o empréstimo de leitos de UTI do SUS (Sistema Único de Saúde) para tratar pacientes de Covid-19, segundo o secretário municipal de Saúde de São Paulo, Edson Aparecido.

Em entrevista à CBN, o secretário afirmou que estes hospitais da rede privada solicitaram 30 leitos ao estado porque estão sem vagas e há uma fila de pacientes aguardando leitos.

Número de mortos da pandemia poderá mais do que dobrar

O número de mortos da pandemia poderá mais do que dobrar no segundo semestre no Brasil, se a vacinação continuar no ritmo atual. No entanto, se 50% da população brasileira for vacinada contra Covid-19 até junho, 150 mil mortes poderão ser evitadas, assim como uma terceira onda.

Os dados são de uma projeção realizada por meio de um modelo matemático, testado com sucesso na primeira onda em São Paulo e que teve a metodologia publicada na revista Nature Communications, com ampla repercussão.

Desenvolvido pelo grupo do matemático Osmar Pinto Neto, da Universidade Anhembi Morumbi, em São José dos Campos, o modelo projeta cenários de como a pandemia vai evoluir nos próximos meses no país. Ele leva em conta tanto a propagação da variante P1 do Sars-CoV-2, considerada mais transmissível, quanto a vacinação.

50% de vacinas só em 2024

Até agora, apenas 2,6% da população receberam as duas doses da vacina, segundo o MonitoraCovid-19/Fiocruz. Mantida essa velocidade, levará cerca de quatro anos e meio ou 1.732 dias até que toda a população receba as duas doses e seja imunizada.

No ritmo atual de vacinação, os 50% só serão atingidos em 2024 e o coronavírus vai continuar a provocar uma nova matança por dia. De acordo com o estudo, no cenário atual, o país terá uma média móvel de 2.900 mortes diárias no fim de abril. Serão 640 mil brasileiros mortos até o fim do outubro, mantido o ritmo lento.

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