São Paulo sofre com aumento de mosquitos no calor: entenda o porquê desse problema

João de Mari
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Testes com dois barcos coletores de resíduos flutuantes, os chamados Ecoboats, no rio Pinheiros, em São Pauo.
Testes com dois barcos coletores de resíduos flutuantes, os chamados Ecoboats, no rio Pinheiros, em São Paulo (Foto: Agência Brasil)

A cidade de São Paulo está infestada de mosquitos. No último final de semana, quando os termômetros se aproximaram dos 35ºC na capital, houve um aumento da aparição destes insetos em casas e apartamentos, sobretudo nas regiões próximas ao rio Pinheiros, na zona oeste da cidade. Nas redes sociais, o fenômeno foi chamado de “invasão de mosquitos” e parte desse problema foi atribuído às águas poluídas do rio.

Segundo especialistas, o calor acelera o metabolismo e o ciclo de vida dos mosquitos aumentando a proliferação desses insetos. No entanto, para o biólogo e educador ambiental da Fundação SOS Mata Atlântica, Cesar Pegoraro, deve-se tomar cuidado ao associar os mosquitos às águas do rio. Isso porque, segundo ele, parte desses insetos não consegue se reproduzir em águas poluídas.

“Os mosquitos precisam de água limpa e parada e a gente ouve isso até na própria campanha contra a dengue. E qual é o conteúdo de água limpa que a gente tem nesses rios? São os nossos lixos. Os criadouros desses pernilongos, que a gente associa aos rios, estão nas embalagens que guardam água desde a última chuva”, afirma Pegoraro.

O educador, que mora a cerca de quatro quilômetros de distância de um trecho do rio, diz que também sentiu o aumento de mosquitos em sua casa. Ele chama atenção aos riscos para a saúde.

“É comum em dias mais quentes as pessoas terem dores de cabeça, náuseas, irritação nas vias respiratórias, no olhos, indisposição. Esses sintomas são desdobramentos desta poluição que está presente no rio. É uma situação bastante desagradável”, conta.

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A avaliação de Pegoraro vai ao encontro de uma das preocupações das mais de 26 mil pessoas que assinaram um abaixo-assinado elaborado por moradores da região afetada com o objetivo de cobrar melhorias contra o “descaso da prefeitura” que está “causando uma infestação de pernilongos e outros insetos” na zona oeste da cidade.

Segundo os moradores, o número elevado de insetos afeta a população mais vulnerável, sobretudo em um momento de pandemia do novo coronavírus. “A não realização desse controle está fazendo com que a população fique vulnerável a doenças graves e colocando em risco a saúde dos cidadãos”, diz trecho do documento.

De acordo com a administração municipal, o Portal de Atendimento da Prefeitura de São Paulo já recebeu 526 reclamações sobre mosquito apenas nas duas primeiras semanas de setembro, contra 221 em todo o mês de agosto. Em julho foram realizadas 331 solicitações.

Para parte da população que vive na região oeste da cidade, próxima ao rio Pinheiros, reclamar não resolveu o problema. “Reclamar no telefone 156 não adianta, nenhuma medida é tomada, sem uma atuação eficaz o Centro de zoonose está perdido com seu trabalho burocrático e sua inércia”.

Novo Rio Pinheiros

O rio Pinheiros tem 25 quilômetros de extensão, cortando parte da zona oeste de São Paulo, e nasce do encontro do rio Guarapiranga com o rio Grande, desaguando no rio Tietê. As transformações na paisagem do rio acompanharam o crescimento da cidade. Houve perda da mata ciliar, implantação de linhas de transmissão de energia, oleodutos, gasodutos, instalação da Linha 9 da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM) e, principalmente, porque passou a receber esgotos domésticos e efluentes de industrias.

“As pessoas se desagradam com o rio, mas ele está contando que o cheiro e esse aspecto ruim é nosso, que a poluição é nossa. Por isso, temos que chamar atenção das pessoas no geral. Temos também que admitir que o afastamento do governo com a população traz soluções equivocadas, como canalizações, tamponamentos, que tiram a sensação de sujeira, mas o rio continua ali embaixo, sujo, só não está na nossa frente”, destaca Pegoraro.

Desde 2019, o programa do governo do estado Novo Rio Pinheiros, com o objetivo de revitalizar as águas por meio da união dos órgãos públicos e da sociedade, está em curso. De acordo com o governo, a meta é reduzir o esgoto lançado em seus afluentes, melhorar a qualidade de suas águas e integrá-lo à cidade.

Na manhã desta segunda (14), o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), afirmou que os trabalhos de despoluição do rio Pinheiros seguem “a todo vapor” e ainda reiterou a promessa de que o rio estará limpo até 2022.

“Bom dia, pessoal. O trabalho de despoluição do Rio Pinheiros segue a todo vapor. Não houve interrupção das obras durante a pandemia e mais de 4 mil empregos estão sendo gerados. Vamos entregá-lo limpo aos brasileiros de SP até 31 de dezembro de 2022”, escreveu em sua conta do Twitter.

Espelhos da sociedade

Na visão do educador ambiental Cesar Pegoraro é necessário uma aproximação do governo, em todas as esferas, com a população para se chegar a conclusões eficientes e não as que ele chamou de “paliativas”, como por exemplo a dedetização das margens do rio, que, para ele, causam “nova infestação depois de alguns dias, pois os ovos e larvas que estão nos lixos não são retirados”.

“Os rios são um espelho da sociedade. É preciso para de negligenciar e culpabilizar a natureza. Por que o mosquito é um problema, mas o lixo que eu joguei na rua que virou um criadouro não é? O problema de verdade é a deseducação e a ausência de politicas que envolvam as pessoas nas respostas. Caso contrário, vamos viver com alternativas paliativas caras, como se estivéssemos enxugando gelo”, avalia.

De acordo com o R7, hoje (14), após reclamações, caminhões da Empresa Metropolitana de Águas e Energia (Emae) do Governo de São Paulo, realizaram processo de pulverizaração da margem leste do rio Pinheiros contra a infestação de pernilongos e mosquitos.

A reportagem procurou a prefeitura questionando o valor gasto nesta ação, além de perguntar quais são as medidas tomadas no combate aos mosquitos e ao controle do lixo no rio. Porém, até a publicação desta matéria não obteve resposta.

Em nota à imprensa, a Prefeitura afirmou que realiza diariamente ações de monitoramento e controle dos mosquitos e que a aplicação de inseticida por meio de termonebulização vem ocorrendo desde início de agosto e continuará nas próximas semanas.

"A Unidade de Vigilância em Saúde Lapa/Pinheiros tem realizado ações de fumacê para o combate aos mosquitos, por meio de Ultra Volume Baixo veicular em toda a região", disse.