SP: Xepa da vacina tem regras ignoradas, mas segue sendo fonte de esperança e evitando desperdício de doses

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Com mais de 500 mil mortos pela Covid-19, Brasil sofre com a escassez de vacinas disponíveis - Foto: Mario Tama/Getty Images
Com mais de 500 mil mortos pela Covid-19, Brasil sofre com a escassez de vacinas disponíveis - Foto: Mario Tama/Getty Images
  • Ampliação da 'xepa' gerou alta demanda de jovens em alguns postos da capital paulista

  • Sistema possui regras estipuladas pela prefeitura que nem sempre são seguidas

  • Ainda assim, especialista vê medida como ação positiva contra o desperdício de doses em um país que possui um ritmo irregular de vacinação contra a Covid-19

Ainda no início da vacinação contra a Covid-19 no Brasil, o fenômeno conhecido como 'xepa', que é a destinação de doses que sobraram nos fracos ao final do dia — e que teriam que ser descartadas devido aos protocolos de segurança — chamou a atenção de muitos brasileiros em diversos estados.

Com o ritmo lento e truncado da imunização do país, a 'xepa' foi ganhando muita aderência e chegou a ser regularizada em muitos municípios. Na última sexta-feira (18), a capital paulista autorizou que maiores de 18 anos sem comorbidades se tornassem elegíveis para as eventuais doses que sobrarem ao final dos dias, o que gerou grandes filas em alguns postos da cidade.

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José Geraldo Ribeiro Leite, epidemiologista do Grupo Pardini e especialista em vacinação, vê a medida como "uma boa alternativa para não se jogar vacina fora", mas alerta que é preciso coordenação para que não haja uma sobra "proposital", o que configuraria uma irregularidade.

"Na prática, todos os municípios estão tentando fazer o melhor diante da falta de vacinas. É extremamente difícil fazer campanha sem previsão adequada de doses de vacina", afirma o epidemiologista. Em nota enviada ao Yahoo!, a prefeitura de São Paulo diz que têm aplicado, em média, " 2 mil remanescentes por dia" na capital.

Nessa semana, o Brasil recebeu um lote com 1,5 milhão de vacinas da Janssen. A notícia é positiva, mas ilustra a ponderação de José Geraldo: inicialmente, a previsão do Ministério da Saúde era receber uma leva de 3 milhões de imunizantes e em uma data anterior.

Em SP, 'xepa' tem regras que nem sempre são cumpridas

Para que tentar frear uma intensa corrida aos postos de saúde, fato que é visto como sanitariamente temerário na atual situação da pandemia no país, a capital paulista estipulou regras aos interessados na 'xepa'.

"Para organização, o equipamento [unidade de saúde] deverá manter a lista com os usuários elegíveis em seu território, com telefones para convocação deste público", diz a gestão municipal. Assim, as inscrições na xepa estariam restritas a um posto específico ligado ao endereço do interessado.

Mariana Saad, moradora da capital, relata que foi até a UBS do Cambuci, na região central de SP, pois era a unidade mais próxima de sua casa [cerca de 3km]. No entanto, chegando lá, ela não conseguiu se inscrever na 'xepa' e foi direcionada a uma unidade mais distante, no bairro Planalto Paulista [cerca de 7,5km].

"É uma unidade bem mais distante, em outro bairro, não imaginei que fosse lá". Ainda assim, Mariana foi ao posto indicado e conseguiu fazer a inscrição, que consiste em deixar seus dados [endereço, número do RG e telefone] para um eventual contato.

"Ouvi de uma funcionária de lá que há dias em que sobram 1 ou 2 doses, mas que pode ser que o expediente acabe sem nenhuma sobra também", contou ao Yahoo!

A reportagem do Yahoo! ouviu, no entanto, relatos que mostram que nem sempre a regra da xepa é aplicada com rigidez. Há registros de moradores que conseguiram se cadastrar em postos diferentes tanto em bairros centrais como na região leste da capital.

A importância da 'xepa'

Capital paulista espera imunizar todos os adultos com ao menos uma dose até o mês de setembro - Foto: Rodrigo Paiva/Getty Images
Capital paulista espera imunizar todos os adultos com ao menos uma dose até o mês de setembro - Foto: Rodrigo Paiva/Getty Images

Assim como outras capitais do país, São Paulo têm anunciado diversas antecipações no calendário vacinal da população, o que gerou muita expectativa e até uma 'batalha' bem humorada de gestores nas redes sociais.

No entanto, a semana começou com a notícia de que a aplicação de 1ª doses na capital estaria suspensa por falta de imunizantes disponíveis. Houve um 'bate cabeça' entre as gestões municipal e estadual e a campanha foi retomada no dia seguinte.

"Acredito que o tempo todo haverá esse stress na campanha de vacinação, exatamente pela imprevisibilidade da entrega de doses pelo Programa Nacional de Imunizações (PNI). Você tenta marcar antes, aí vacina atrasa, enfim, é muito difícil. Por isso, não crítico município nenhum nesse aspecto", pontua José Geraldo.

Diante de toda essa incerteza, a 'xepa' pode trazer muita felicidade e também alívio. Foi o caso da jornalista Ana Cláudia Costa, que sofre com asma crônica desde a primeira infância e conseguiu ser beneficiada por uma dose remanescente, ainda quando as inscrições estavam restritas aos maiores de idade com alguma comorbidade.

"Ao saber que havia essa possibilidade, eu fui na UBS mais próxima da minha casa [unidade da Vila Jacuí, no bairro de São Miguel Paulista] e me cadastrei. Confesso, no entanto, que achei que não fosse um processo criterioso, pois entreguei poucos dados e havia uma lista de quatro páginas de cadastrados na minha frente", diz a jornalista ao Yahoo!.

"Uma semana depois eu fui surpreendida. Eles me ligaram à noite, por volta das 18h30, dizendo que havia uma dose disponível de CoronaVac e perguntando se eu poderia chegar em 10 min", conta Ana, que recebeu a primeira dose, após ter apresentado laudos que confirmavam sua comorbidade, no dia 24 de maio. Recente, na última segunda (21), ela recebeu a segunda dose.

Ana avalia ter se antecipado ao menos 15 dias em relação ao momento em que sua faixa etária seria contemplada no calendário oficial. Tempo que é substancial, já que o país segue com índices altos da doença. Nessa quarta-feira (23), o Brasil registrou 114.139 casos e 2.349 óbitos pela Covid-19.

A jornalista ressalta a felicidade de ter sido imunizada, mas lamenta que o ritmo de vacinação no país esteja lento. De acordo com o consórcio de veículos de imprensa a partir de dados das secretarias estaduais de Saúde, 64.436.634 (30,43% da população) receberam a primeira dose e 24.390.876 (11,52% da população) receberam a segunda dose até o final desta quarta-feira (23).

"Foi um momento de muita alegria porque a gente vislumbra um novo mundo [após a imunização], mas um momento também de tristeza por saber que estou numa posição de privilégio", diz a morada da zona leste da capital.

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