Saques de museus na Ucrânia podem ser maior roubo coletivo de arte na Europa desde Segunda Guerra Mundial

Em uma manhã de outubro, forças russas bloquearam uma rua em Kherson e cercaram um prédio com dezenas de soldados. Cinco caminhões e veículos militares estacionaram. Foi um ataque no estilo militar cuidadosamente planejado... a um museu. Nos quatro dias seguintes, o Museu Regional de Arte de Kherson foi esvaziado, com as forças russas “se movimentando como insetos”, com carregadores transportando milhares de pinturas e especialistas em arte berrando ordens.

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— Eles carregavam essas obras-primas como se fossem lixo — disse a diretora do museu, Alina Dotsenko, que recentemente retornou do exílio, contando o que testemunhas lhe haviam relatado. — Quando voltei ao museu, em novembro, e percebi quanto tinha sido roubado, quase perdi a cabeça.

Museus de arte, história e antiguidades. A Rússia atacou as instituições culturais do país, saqueando algumas das contribuições mais importantes da Ucrânia, que remontam a milhares de anos. De acordo com especialistas internacionais, a pilhagem pode ser o maior roubo coletivo de arte desde que os nazistas saquearam a Europa na Segunda Guerra Mundial.

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Em Kherson, no Sul da Ucrânia, promotores ucranianos e administradores de museus afirmaram que os russos roubaram mais de 15 mil peças de arte e artefatos únicos. Arrastaram estátuas de bronze de parques, pegaram livros de uma biblioteca científica, encaixotaram os ossos de 200 anos de Grigory Potemkin, amante de Catarina, a Grande, e até roubaram um guaxinim do zoológico.

Ataque ao orgulho do país

Autoridades ucranianas divulgaram que as forças russas roubaram ou danificaram mais de 30 museus — incluindo vários em Kherson, cidade que foi retomada em novembro, e outros em Mariupol e Melitopol, que ainda estão ocupadas pelos russos. Com os investigadores ucranianos ainda catalogando o desaparecimento de pinturas, moedas, colares e bustos, é provável que o número de itens roubados relatados aumente.

Em um museu em Melitopol, no Sul da Ucrânia, testemunhas disseram que um homem em um jaleco branco havia chegado para extrair, com luvas e pinças, os objetos mais valiosos da coleção, incluindo peças de ouro do Império Cita criadas há 2.300 anos.

Autoridades ucranianas e especialistas acreditam que a pilhagem seja um ataque generalizado ao orgulho, à cultura e à identidade ucranianos, consistente com a atitude imperialista do presidente russo Vladimir Putin, que constantemente menospreza a ideia da Ucrânia como uma nação separada da Rússia.

— Não é como um soldado colocando um cálice de prata em sua mochila. Trata-se de uma escala muito, muito maior — afirmou James Ratcliffe, conselheiro-geral da organização The Art Loss Register, sediada em Londres, que rastreia arte roubada e já registrou mais de dois mil itens da Ucrânia que desapareceram.

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Mesmo com a guerra em curso, advogados e especialistas em arte trabalham para coletar provas para o que esperam que sejam futuros processos por crimes culturais. Eles fazem listas meticulosas de objetos desaparecidos, vasculham os registros do museu e tentam identificar possíveis testemunhas e colaboradores locais que poderiam ter ajudado os russos nos roubos.

Os ucranianos acusam os russos de violar tratados internacionais que proíbem saques de arte, como a Convenção para a Proteção de Bens Culturais em Caso de Conflito Armado, de 1954. Mas os russos inverteram a narrativa e apresentaram suas ações não como roubo, e sim como libertação.

— Não entrem em pânico — declarou Kirill Stremousov, vice-administrador russo de Kherson, ao explicar em outubro o que estava acontecendo. Ele garantiu que, quando os combates cessarem, os monumentos “definitivamente retornarão” e que tudo estava sendo feito “em benefício da preservação do patrimônio histórico de Kherson”.

As estátuas ainda não foram devolvidas.

‘Proteção’

Muitas das pinturas saqueadas do museu de Kherson apareceram recentemente em um museu na Crimeia, a península do Mar Negro que a Rússia roubou da Ucrânia em 2014. O diretor do museu, Andrei Malguin, deu ao jornal espanhol El País uma justificativa conhecida, garantindo que estava mantendo a coleção para “protegê-la”.

Uma visita aos museus de Kherson é deprimente. Praticamente todos os milhares de pinturas a óleo que haviam sido guardados no porão do museu de arte desapareceram.

— Sou filha de um oficial que me criou para ser forte, mas chorei durante duas semanas — disse Dotsenko, que trabalha no museu há 45 anos.

Do outro lado da rua, no Museu de Tradições Populares, Denys Sykoza, inspetor de objetos culturais do governo de Kherson, olhava os cacos de um delicado copo de vidro do século V.

— Eles o quebraram quando tentaram roubá-lo. E era um exemplar único — lamentou Sykoza.

Os soldados russos também exibiram o animalzinho que haviam “libertado” do zoológico de Kherson. Em vídeos que se tornaram virais, os paraquedistas declararam que o guaxinim roubado era agora sua mascote, viajando com eles pelo front, e tinha sido batizado de Kherson. Isso levou a um meme popular na internet ucraniana, exibindo o pequeno animal, com a legenda “O resgate do soldado Guaxinim”.