Sargento cria grupo em aplicativo contra ex-soldado que denunciou tenente-coronel por ameaça de estupro

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Policial assediada e ameaçada de estupro e morte por tenente - Foto: Acervo Pessoal/Reprodução
Policial assediada e ameaçada de estupro e morte por tenente - Foto: Acervo Pessoal/Reprodução
  • Jéssica Paulo do Nascimento descobriu que um sargento a quem respondia na PM criou um grupo contra ela no WhatsApp

  • Seu advogado entrou com petição e vai utilizar o fato como prova da perseguição que a mulher vinha sofrendo

  • Ela denunciou um tenente-coronel por assédio sexual e ameaças de estupro e de morte

A ex-soldado Jéssica Paulo do Nascimento descobriu que o sargento para o qual respondia antes de deixar a Polícia Militar criou um grupo contra ela no WhatsApp. Seu advogado já protocolou uma petição na corporação e pretende usar o ocorrido como prova da perseguição que a mulher vinha sofrendo. As informações são do G1.

Jéssica, de 28 anos, denunciou em abril o tenente-coronel da PM Cássio Novaes por assédio sexual e ameaças de estupro e de morte. Um mês depois, ela deixou a carreira e foi exonerada. Na época, explicou que tomou a decisão por conta de perseguições que vinha sofrendo dentro da corporação.

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A criação do grupo “Todos odeiam Jéssica” pelo sargento superior à ex-soldado embasa o argumento da mulher. Em entrevista ao G1, ela explicou que recebeu uma denúncia anônima sobre o assunto e, posteriormente, imagens das conversas que aconteciam no grupo.

De acordo com a denúncia, o sargento, que não teve a identidade revelada, publicava notícias referentes à acusação de Jéssica contra Cássio. Alguns policiais teriam sido adicionados ao grupo, mas foram saindo, sobrando apenas o sargento e uma outra agente.

Imagens recebidas por Jéssica do grupo criado contra ela - Foto: Arquivo Pessoal
Imagens recebidas por Jéssica do grupo criado contra ela - Foto: Arquivo Pessoal

“O homem criou um grupo para me humilhar, cujo título dizia que todos me odeiam. Porém, não é bem assim, porque tem pessoas lá dentro que me respeitam e me consideram, tanto que muitos saíram do grupo indignados, e ainda recebi print de tudo. Espero que a justiça seja feita, e que seja provado que esse homem é outro obcecado e vem me perseguindo", declarou Jéssica.

Advogado explica medidas

Diante das evidências, o advogado da mulher, Sidnei Henrique, informou que protocolou uma petição na noite da última segunda-feira, requerendo a instauração de um Inquérito Policial Militar para investigar o caso, além de um processo administrativo para verificar a conduta do sargento.

O advogado ainda reiterou o pedido de medidas protetivas contra o tenente-coronel responsável pelas ameaças e, agora, também o sargento que criou o grupo.

"A criação de um grupo fomentando ódio coloca veementemente em risco a vida da ex-soldado e da sua família. Além das medidas citadas, também foi requerido que, diante da gravidade dos fatos, os autos do IPM que apura o crime de assédio sexual seja remetido para a Justiça Militar com essa novas informações com urgência, a fim de que o Ministério Público tome ciência dos fatos e, assim querendo, se manifeste a respeito", disse.

Policial assediada e ameaçada de estupro e morte por tenente pediu medida protetiva no litoral de SP - Foto: Acervo Pessoal/Reprodução
Policial assediada e ameaçada de estupro e morte por tenente pediu medida protetiva no litoral de SP - Foto: Acervo Pessoal/Reprodução

Relembre o caso

Jéssica denunciou em abril o tenente-coronel Cássio Novaes, que foi afastado enquanto a investigação é conduzida pela Corregedoria da PM. Ele atuava na capital paulista enquanto Jéssica está atualmente lotada no 45° Batalhão da Polícia Militar do Interior (BPM/I), em Praia Grande, no litoral de São Paulo.

De acordo com a soldado, em 2018, quando Novaes assumiu o comando do Batalhão da Zona Sul de SP, ele passou pelas companhias para se apresentar aos policiais. Após conhecê-la, o tenente-coronel teria convidado Jéssica para sair na primeira oportunidade em que se viu sozinho com ela.

Ela disse ao superior que era casada e tinha filhos, recusando o convite. "Depois desse dia, minha vida virou um inferno", desabafou a soldado, que relatou a humilhação em frente aos seus colegas e até sabotagem por parte de Novaes.

Soldado chegou a afastar-se

Jéssica ficou dois anos e meio afastada do serviço para evitar contato com o tenente. A licença foi encerrada no mês retrasado e ela precisou voltou ao trabalho. Na sequência, Novaes teria conseguido o telefone dela e recomeçado o assédio.

Segundo ela, o comandante prometia sustentar os filhos da soldado, dar uma promoção para ela dentro da corporação e a transferência que ela queria para o litoral paulista.

"Eu pensei que precisava de provas porque ele sempre ia fazer isso e ninguém ia acreditar. Entrei em contato com um advogado e ele me orientou a ver até onde ele iria, deixando ele falar", conta. "Foram coisas muito baixas. Me ameaçou de estupro", afirmou ao G1.

Há também ameaças de morte por áudios. Em uma das falas, o comandante afirma que "não existe segredo entre dois, um tem que morrer" e "quem não tem problema na vida, está no cemitério".

Jéssica deixou a carreira

Um mês depois da denúncia, Jéssica foi exonerada da Polícia Militar, após decidir deixar a carreira. Ela contou que vinha sofrendo pressão e perseguição dos colegas e superiores por conta da repercussão do caso.

A mulher relatou que foi desarmada, escalada para trabalhos na rua à noite mesmo denunciando ameaças de morte, recebeu negativas para pedidos de transferência e foi chantageada sobre as férias às quais teria direito.

A soldado revelou, também, ter recebido advertências internas por dar entrevistas sobre a denúncia e que pediu afastamento por abalo psicológico, mas foi informada pelo médico da Polícia Militar que "só lhe daria alguns dias se o comandante dela autorizasse".

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