Sauditas ganham e palestinos perdem na viagem de Biden

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A viagem de Joe Biden ao Oriente Médio tem três objetivos principais: 1) ampliar o acesso ao petróleo saudita para compensar o da Rússia, alvo de sanções dos Estados Unidos e seus aliados ocidentais, e assim tentar reduzir o preço do barril no mercado internacional; 2) tentar formalizar as relações já super próximas entre Israel e Arábia Saudita; 3) fortalecer a frente contra o Irã, visto como principal ameaça aos interesses israelenses e sauditas no Oriente Médio. O conflito Israel-Palestina ficará longe de ser uma prioridade na agenda do presidente americano, ainda que a defesa de uma solução de dois Estados venha ser mencionada de forma protocolar e inócua.

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Resumindo, o grande vitorioso da vigem de Biden ao Oriente Médio será o esquartejador Mohammad bin Salman, ditador sanguinário da Arábia Saudita. Em primeiro lugar, naturalmente, verá mais um presidente americano se curvar a Riad. O poder do petróleo supera qualquer outro. Os sauditas sempre souberam que nem mesmo o apoio a jihadistas ao longo dos anos 1980 e 1990 e o apartheid contra as mulheres interromperam a aliança com covardes e hipócritas presidentes dos EUA, fossem eles democratas como Barack Obama e Bill Clinton ou republicanos como Donald Trump e George W. Bush.

Biden não visitou nenhuma nação da África e tampouco da América Latina, mas irá até a capital saudita se reunir e tirar foto com uma pessoa que ele próprio, enquanto era candidato à Presidência, descreveu como pária por ter ordenado o esquartejamento do jornalista Jamal Khashoggi, entre outras atrocidades, como os crimes de guerra no Iêmen e o sequestro do então premier do Líbano, Saad Hariri.

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Em segundo lugar, Bin Salman será vitorioso por ver seus esforços de se aliar a Israel contra o Irã renderem frutos. A partir de agora, contará com o poderio militar israelense, além do americano, para se proteger dos iranianos, que são seus rivais históricos. Tudo, claro, sem a necessidade de levantar a proibição a sinagogas e igrejas no território saudita. Ao estabelecer relações diplomáticas com os israelenses, mesmo que não imediatamente, verá ainda um aumento nos investimentos estrangeiros no país e uma melhora na imagem do regime no exterior, especialmente nos EUA. Seu sonho de transformar a Arábia Saudita numa gigante Dubai fica mais próximo.

Por último, o ditador sanguinário da Arábia Saudita praticamente não precisará fazer concessões aos EUA. Seguirá com sua política de neutralidade em relação à Guerra da Ucrânia, mantendo relações próximas com Putin, e seus negócios cada vez maiores com a China, principal rival geopolítica de Washington.

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Os maiores derrotados da viagem de Biden serão naturalmente os palestinos. O presidente dos EUA, que pode ser descrito como o mais pró-Israel da história americana, é o primeiro em mais de três décadas a não ter nenhum plano para a resolução do conflito. Basicamente, aceitou que não haverá um Estado palestino, que a ocupação israelense da Cisjordânia prosseguirá indefinidamente, assim como a presença do Hamas em Gaza. Talvez seja uma resignação, porque essa é a realidade. Não deixa de ser triste, no entanto, que aquela esperança de dois Estados — um palestino e um israelense — vivendo lado a lado tenha literalmente morrido. Não haverá Palestina, infelizmente. Biden, claro, não se importa, assim como não se importa que Bin Salman seja um ditador sanguinário.

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