Schiap mudou para sempre o jeito de se fazer moda

Inaugurada na semana passada no Museu de Artes Decorativas de Paris e em cartaz até janeiro, a mostra sobre a obra de Elsa Schiaparelli é a grande exposição de moda do momento. Percorrendo aquelas salas, lembrei um fato de que pouco se fala (nem uma palavra no museu, aliás): a paixão da estilista pelo Brasil.

Em 1952, Schiap desembarcou no Rio, ciceroneada por Assis Chateaubriand. Eles haviam se conhecido meses antes, em Paris, onde Chatô promovia vez por outra grandes bailes para divulgar o algodão brasileiro junto às maisons de alta-costura. Num de seus últimos desfiles, o poderoso tycoon brasileiro lhe mandou uma escola de samba inteira para entreter os convidados.

Ela já era uma habituée dos brasileiros. Todos os domingos, organizava em sua casa parisiense um jantar para sua turma verde-amarela de amigos. Eles entravam em seu closet e vestiam suas roupas, o que levou um dia Greta Garbo a lhe perguntar como ela deixava aquelas pessoas mexer em suas coisas. Schiap respondeu que os brasileiros eram impecáveis e deixavam a casa em perfeitíssima ordem, como se uma empregada tivesse acabado de fazer uma faxina.

Em sua jornada pelo país, a estilista ganhou festa numa favela carioca, impressionou-se com a arquitetura de Niemeyer, visitou São Paulo e se esbaldou na Bahia, onde participou de uma cerimônia de candomblé em que “fechou o corpo”. Terminou a viagem em Recife e Feira de Santana, onde participou de uma vaquejada. Saiu do país dona de um pequeno pedaço de terra em Teresópolis, presente do empresário Carlos Guinle. “O que teria acontecido com esse terreno?”, perguntou-me sua única neta viva, a atriz Marisa Berenson (resposta: faz parte da Granja Comary). Schiap se desmancharia em juras de amor eterno ao Brasil, e chegou a doar quatro Modiglianis de sua coleção ao MASP.

Nascida em 1890 em Roma, numa família aristocrática, foi desde cedo uma rebelde. Contra a vontade dos pais, casou-se com o conde Wilhelm Wendt de Kerlor, com quem se mudou para Nova York, no trepidante bairro Greenwich Village, celeiro de vários artistas da época. Lá conheceu Francis Picabia, Marcel Duchamp, Alfred Stieglitz e Man Ray, que faria um retrato emblemático dela.

O marido — lindo e charmoso — se deslumbrou e desbundou, colecionando amantes e admiradoras. Quando Schiap deu à luz a única filha do casal, Gogo, eles já estavam separados. Ela nunca mais lhe dirigiu a palavra nem permitiu que evocassem seu nome.

Desembarcando em Paris em 1922, sem um tostão e com uma filha para criar, seus seis anos nos Estados Unidos foram de grande valia. Os amigos milionários americanos invadiram a cidade e a apoiaram na abertura de sua butique, em 1927. Os colegas fotógrafos de Nova York estavam bem colocados nas grandes revistas de moda e impulsionaram seus looks.

Conhecida por ter inventado uma cor, o rosa shocking, e dona de um senso de marketing avant la lettre, ela adquiria peças de artistas em ascensão que, em troca, realizavam obras para promover suas roupas e seus perfumes. De Salvador Dalí vieram o vestido-lagosta e o chapéu-sapato, a artista Léonor Fini desenhou o famoso frasco que reproduzia a sinuosa silhueta do corpo de Mae West; Jean Schlumberger assinou uma coleção de joias, Jean Cocteau colaborou com várias peças.

Seu sucesso também se deveu ao talento inato de fazer com que falassem dela e de suas coleções, cujos temas iam do circo ao Zodíaco, passando por Botticelli e a música. A “coleção comercial” tinha roupas angularmente esculpidas para o dia, com ombros e ancas pronunciados, e suas clientes eram vistas — às vezes bem, às vezes mal — como mulheres independentes e voluntariosas. O que ela adorava.

Schiap mudou para sempre o jeito de se fazer moda, valorizando a beleza extraída das coisas e pessoas então consideradas “feias”. O chique se sobreporia ao bom gosto, a contestação à adequação, e a performance à etiqueta. Detalhe: num baile à fantasia da aristocracia francesa, a estilista lacrou, vestida de cenoura.

Com tudo isso, acabou fundando um novo padrão estético: o não-padrão. Mais atual, impossível.

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