‘Se alguém do grupo vulnerável fica doente, não temos o que oferecer hoje no Brasil’, alerta epidemiologista sobre varíola dos macacos

Nesta sexta-feira, o Ministério da Saúde confirmou a primeira morte pela varíola dos macacos no país. O caso, registrado em Belo Horizonte, Minas Gerais, não é um alerta apenas para o Brasil, trata-se também do primeiro óbito do surto mundial fora do continente africano, onde o vírus monkeypox é endêmico. No entanto, enquanto outras nações garantem o acesso a vacinas e antivirais, e a Organização Mundial da Saúde (OMS) declara emergência pública de saúde internacional, o governo brasileiro repete os mesmos erros cometidos com a Covid-19 e demora para tomar medidas efetivas. A avaliação é da epidemiologista Ethel Maciel, professora da Universidade Federal do Espírito Santo.

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— Enquanto alguns países já começaram a vacinação e já estão com acesso ao antiviral, o TPOXX, nós não temos nada aqui no Brasil. Se alguém do grupo vulnerável fica doente, nós não temos o que oferecer hoje. O Brasil está demorando muito para decretar emergência de saúde pública de importância nacional, decreto que facilitaria as negociações de vacinas e medicamentos para a doença. Estamos vendo a repetição dos mesmos erros cometidos com a Covid-19 — diz a especialista, pós-doutora em epidemiologia pela Universidade de John Hopkins, nos Estados Unidos.

Para ela, o status de Emergência de Saúde Pública de Importância Nacional (Espin) não deveria ser entendido como algo negativo a ser evitado, e sim como uma legislação sanitária eficiente que deve ser instituída em momentos de alerta como o atual. Ethel explica que o decreto flexibilizaria burocracias para o acesso ao tratamento e possibilitaria que medidas fossem tomadas de forma mais rápida.

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Foi o que aconteceu com a Covid-19, que teve a Espin decretada no dia 4 de março de 2020, antes mesmo de a OMS declarar emergência internacional, no dia 11 do mesmo mês. Porém, com a melhora do cenário epidemiológico, a medida foi suspensa em abril deste ano, ainda que sob críticas de parte dos especialistas.

Agora que o Brasil vive uma alta de casos da varíola dos macacos, com mais de mil pessoas contaminadas, entre elas três crianças, é urgente que o ministério volte a implementar medidas em caráter de emergência que possam conter o surto no país, defende a epidemiologista.

— Esse paciente que foi a óbito, por exemplo, se tivesse tido acesso ao antiviral, talvez o desfecho dele teria sido diferente. Então precisamos de ações efetivas do ministério. Não podemos mais ficar contando casos e, a partir de agora, óbitos. Precisamos de ações de saúde pública que garantam acesso às vacinas e aos medicamentos para os grupos mais vulneráveis — diz Ethel.

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Em entrevista recente ao GLOBO, a única fabricante de vacinas contra a varíola símia no mundo, a dinamarquesa Bavarian Nordic, afirmou que já existe uma fila de espera de países interessados no imunizante. Nesta quarta-feira, a Organização Pan-americana de Saúde (Opas) afirmou que articula uma compra conjunta de dez países americanos, entre eles o Brasil. O Ministério disse que o cronograma preliminar prevê a entrega de pouco mais de 20 mil doses na primeira remessa apenas em setembro e, depois, em novembro, o restante até completar as 50 mil doses encomendadas.

O contingente de aplicações necessárias não é grande como o da Covid-19, uma vez que apenas pessoas consideradas de maior risco de exposição ao vírus monkeypox estão recebendo a proteção. Isso porque a transmissão do patógeno é principalmente por contato de pele com pele, por isso não é esperada uma disseminação tão intensa como a do novo coronavírus. Além disso, a letalidade da varíola dos macacos é mais baixa, o que não compensa uma campanha de vacinação em massa.

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Por isso, a OMS não orienta a medida para todos os públicos, e reconhece os benefícios apenas para grupos como profissionais de saúde e homens gays, bissexuais e que fazem sexo com outros homens, que têm representado a maioria dos casos. No entanto, a organização alerta para que não sejam criados estigmas e preconceitos sobre a doença, uma vez que todos podem ser infectados.

Em diversos países, são imunizados ainda contatos próximos de pessoas contaminadas. Isso porque o período de incubação do vírus monkeypox – tempo entre a infecção e o surgimento dos sintomas – é longo, podendo chegar a 21 dias. Com isso, a aplicação da vacina, mesmo em alguém que potencialmente já foi exposto ao patógeno, ajuda a diminuir o risco de quadros graves da doença, pois há tempo para que a imunidade seja estimulada pelo organismo.

No Brasil, o Ministério da Saúde pretende iniciar a vacinação com profissionais da saúde e contatos de infectados, mas não se manifestou sobre os demais. Além disso, prevê uma campanha de comunicação sobre o vírus. No entanto, não há previsão para a compra de antivirais, o que seria eficiente para evitar desfechos mais graves dos casos atuais, pontua Ethel..

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Para ela, é importante que as vacinas e os antivirais cheguem o quanto antes ao Brasil justamente para que casos como o óbito de Minas Gerais possam ser evitados. O paciente em questão tinha 41 anos e estava com a imunidade afetada devido a um processo de quimioterapia para tratar um câncer no sistema linfático. Segundo a Secretaria Estadual de Saúde de Minas Gerais (SES-MG), ele morreu na quinta-feira.

— Nós já falávamos que era uma questão de tempo até que o vírus, que é transmitido por contato e gotículas, encontrasse pessoas que são mais vulneráveis, como imunossuprimidos, crianças, gestantes e idosos, e estão em risco — diz a epidemiologista.

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