'Se chamar o Inter de chorão agora, não chora depois', diz presidente, que discorda da CBF sobre VAR

Igor Siqueira
·5 minuto de leitura

Em uma reunião com os árbitros escalados para a última rodada do Brasileiro, o presidente da comissão de arbitragem, Leonardo Gaciba, apresentou números parciais do desempenho do VAR. Era uma leitura positiva, com percentuais superiores a 90% de acerto, seguindo a tendência do ano anterior. A percepção da CBF, porém, contrasta com a visão de alguns clubes.

Vice-campeão brasileiro, o Internacional se dispõe a levantar uma bandeira que não se apoie simplesmente na frustração pela perda do título. Segundo o presidente Alessandro Barcellos, é preciso debater a profissionalização e a definição mais eficaz de critérios para a arbitragem, sobretudo com o VAR.

— Fomos prejudicados. Mas se não olharmos para a solução, isso não ajuda. Com a profissionalização, muitas vezes se fala em dedicação exclusiva, dando condições melhores para trabalhar. Acho isso importante. Mas vou além. Falo de processos, critérios, metodologia de trabalho. Me parece que esse hoje é o grande problema da ferramenta — disse o presidente do Inter em entrevista ao GLOBO.

O desafio envolve unir os clubes e contar com a abertura da CBF para criar vínculo empregatício com os árbitros. Com a formação de três turmas em fevereiro, o futebol brasileiro tem 290 árbitros e assistentes homologados na Fifa para trabalhar com o VAR.

A mobilização por critérios mais claros e profissionalização seria, então, “choro” de perdedor por parte do Internacional?

— Estamos propondo colocar os clubes como propulsores do debate, não só na hora em que são prejudicados. Se cada um fizer isso agora, todo mundo vai ver que precisamos olhar isso. Podem até entender que o Internacional teria que ter perdido mesmo, não tem problema. Esquece o Inter, mas olha para si. Em algum momento de alguma competição vai achar momentos de injustiça e vantagens sobre alguém. É simples. Não estamos preocupados em ser tachados de estar reclamando de uma derrota. Até porque se fosse para fazer isso (só reclamar) estaríamos agindo de outra forma, pedindo impugnação de partida. A gente já viu que isso não funciona. Partimos para uma posição propositiva. Acredito que a maioria dos clubes tem essa compreensão. Talvez um ou outro ache que essa pauta não é importante. Mas que fique claro: lá na frente, não venha a lamentar se for prejudicado. A banca paga e a banca recebe. Se chamar o Inter de chorão agora, não chora depois — disse Barcellos.

O presidente do Inter não é a favor da extinção do VAR. Ele pondera que a tecnologia é importante para reduzir erros.

'Não existe prejudicado ou favorecido'

A discordância entre CBF e clubes sobre o desempenho da arbitragem se exemplifica também no discurso do presidente Rogério Caboclo durante o Prêmio do Brasileirão, na última sexta-feira:

— Todos os 20 clubes se dizem prejudicados. Falo a cada presidente: “Se isso for verdade, quem será o favorecido?” Na verdade, não existe prejudicado ou favorecido. Se existe uma classe isenta, correta, digna e profissional é a arbitragem.

A defesa repercutiu bem entre os árbitros, segundo o GLOBO apurou. Na visão dos que atuam na elite, há uma perspectiva equivocada na crítica de clubes e imprensa de que o VAR iria acabar com todos os erros. Mas há o fator humano.

Alessandro Barcellos foi um dos dirigentes aos quais Caboclo se referiu. Ele foi à CBF após a derrota para o Flamengo. Lá também estavam o rubro-negro Rodolfo Landim e Julio Casares, presidente do São Paulo.

A principal reclamação levada por Barcellos na ocasião foi a expulsão de Rodinei. O presidente do Inter conversou com Leonardo Gaciba e ouviu os áudios do VAR.

— O juiz de campo não foi capaz de sustentar sua posição, dita por ele e pelo bandeirinha que grita: “Dá o amarelo”. A tecnologia não pode permitir que haja interpretações diferentes porque ela deixa de ser exata e tira a decisão de dentro do campo para outro ambiente. Não foi em um jogo, mas em vários. Discordo frontalmente e respeitosamente do presidente Caboclo — afirmou.

Na última rodada do Brasileiro, contra o Corinthians, o pênalti cancelado após revisão no vídeo se somou aos itens que, nas palavras de Alessandro Barcellos, trouxeram “desconforto”. No minuto final, o VAR confirmou a decisão de campo de anular, corretamente, um gol feito por Edenílson em impedimento.

— Não acredito em sistema infalível — disse Barcellos.

O que vem por aí

Uma das referências que o dirigente do Inter faz é clara. O clube está envolvido em outra questão com o VAR: a descalibragem das câmeras que deveriam checar o impedimento no gol diante do Vasco. O assunto tramita no Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD). O presidente da corte, Otávio Noronha, precisa se manifestar a respeito do pedido vascaíno pela anulação da partida.

— O que a gente busca no tribunal é a Justiça. O que pudemos ver é uma injustiça sem tamanho, baseada numa ferramenta que veio para tirar a injustiça do futebol — disse o diretor executivo de futebol do Vasco, Alexandre Pássaro.

No Internacional, o assunto não preocupa tanto:

— Não achamos correto que o instrumento esteja descalibrado. Mas a regra prevê o que acontece se não estiver funcionando. Sinceramente, para mim, o campeonato está encerrado. Entregaram a taça — disse o presidente do Inter.

O relatório de Leonardo Gaciba, com dados completos da Série A, deve ser finalizado nesta semana. A comissão de arbitragem planeja uma reunião para avaliar a temporada e traçar alguns passos para 2021.

Há duas ideias principais em desenvolvimento para o VAR — ambas foram atrapalhadas pela pandemia. Uma consiste na instalação de uma câmera adicional para checagem do impedimento. Isso daria uma visão triangular dos lances, com mais precisão para a checagem da linha. Na Fifa, inclusive, há um debate em torno da adoção de softwares que flagrem o impedimento com mais precisão.

A segunda envolve uma conexão de cabos de fibra ótica entre todos os estádios e a CBF. Na sede, seria montada a central do VAR, sem necessidade de levar a equipe que atua no vídeo para os locais das partidas.

O projeto está em fase de estudos. Caso haja aprovação do orçamento por parte da CBF, a montagem estrutural levaria cerca de dois meses.