Se fosse inflação tarifa de transportes em SP seria no máximo R$3,82, diz MPL

Se fosse inflação tarifa de transportes em SP seria no máximo R$3,82, diz MPL

Segundo ato é marcado para próxima quarta-feira (16) na Praça do Ciclista

Por Gabriel Prado

Anunciada pela Prefeitura de São Paulo e pelo Governo do Estado de São Paulo, a nova tarifa de ônibus, metrô e trens da CPTM aumentou na última segunda (7) para R$ 4,30. Sendo recebido com protestos na última quinta-feira (10), o reajuste de 7,5% foi acima da inflação acumulada para o período.

Acumulada para o período em 3,86%, a prévia de inflação do IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) foi ultrapassada com o novo reajuste. Caso fosse aplicada, o valor da tarifa seria próximo de R$ 4,15.

Nos anos de 2016 e 2017 não houve reajuste da passagem conforme promessa do então prefeito João Doria (PSDB) assim que eleito. A manutenção do valor da passagem nesses anos vem sendo usado como justificativa para o reajuste acima da inflação deste ano. Embora tenha sido reajustada em janeiro de 2018, a alteração do valor colocou o Movimento Passe Livre (MPL) novamente nas ruas para pressionar governo e prefeitura.

Liderando os protestos de junho de 2013, quando a tarifa foi reajustada de R$3,00 para R$ 3,20 e 22 dias retornou a R$ 3, o MPL convocou novos atos este ano. O movimento está desafiando prefeito e governador a utilizarem o transporte público por um mês transitando entre o centro e a periferia da cidade. Conversamos com a Gabriela Dantas, militante do movimento que nos deu a perspectiva do momento sobre o reajuste e a situação do transporte público na capital.

Como vocês encaram o aumento da tarifa dos transportes públicos acima da inflação este ano com a justificativa de não ter tido reajuste em 2016 e 2017?

Gabriela: Lamentável essa alegação, uma vez que teve reajuste em janeiro de 2018, já em 2017 novas cobranças nas integrações dos terminais foram determinadas e houve aumento no valor do bilhete mensal. Houveram diversos aumentos, essa justificativa de que as taxas estiveram congeladas é falsa.

Há dados de que se a tarifa fosse aumentado só com a inflação acumulada desde 2004. agora estaria em R$, 3,82 e não R$4,30. Já se fossemos contar com a inflação desde o plano real, ela estaria a R$ 3,00 agora. Isso demonstra que não é um cálculo técnico usado no reajuste, mas um cálculo político. Entre o quanto eles vão aumentar o preço da tarifa no bolso da população e quanto vão aumentar o lucro dos empresários.

O MPL convocou uma manifestação ontem (11) contra esse reajuste, qual é o saldo deste primeiro ato?

Gabriela: O ato tinha por volta de 20 mil pessoas, maior do que nós esperávamos. As pessoas estavam muito animadas e dispostas a mostrar sua revolta com o aumento de R$ 4,30. A Polícia Militar, infelizmente, não deixou o ato chegar até o final de seu trajeto na Praça do Ciclista. Em uma tentativa de demonstrar poder, faltando uma quadra para o encerramento, a polícia interrompeu a manifestação, sem justificativas aparentes para isso. Marcamos o próximo ato para a quarta-feira (16) iniciado da Praça do Ciclista, demonstrando que vamos sim ocupar a rua.

Após o reajuste, ou até mesmo antes, houve sinalização do governo para um diálogo com a população?

Gabriela: Não. Pelo contrário o aumento foi feito no momento de virada do ano em que as pessoas estão em recesso, passando tempo com a família, às vezes ainda não estão trabalhando como uma forma de estratégia antiga para aumentar a tarifa no momento menos perceptível. Não houve nenhuma tentativa de consulta pública ou de comunicação com população que será afetada pelo aumento.

Há alguma projeção do movimento do quanto esse aumento significa no lucros das empresas de transporte público de São Paulo?

Gabriela: Infelizmente, não. O cálculo do lucro dessas empresas é algo muito obscuro e de difícil acesso. Em 2014, foi realizada uma auditoria em resposta aos protestos de 2013, então foi descoberto que os lucros das empresas de ônibus estão em torno de 18% ao ano. Sendo assim praticamente o dobro da taxa de lucro da maioria das empresas. São taxas de lucros que são garantidas durante tempos longuíssimos.

Na próxima licitação proposta, que deve tramitar esse ano, entre os ônibus municipais a taxa básica de lucro prevista está entre 9% e 9,5%, podendo aumentar por meio do índice de produtividade, que na verdade são ônibus mais lotados. Quanto mais eles lotaram os ônibus, mais bônus eles vão ganhar e maiores vão ser os lucros das empresas.

Quais são as perspectivas para os transportes públicos e a situação de reajuste atual?

Gabriela: Este ano teremos as licitações para definir como irão funcionar os ônibus de São Paulo durante os próximos 20 anos. Querem desenvolver um mecanismo que torna automático o corte de linhas que não atendam ao índice de produtividade. Na prática, isso significa que as linhas que ainda se consegue ter um mínimo de conforto podem ser cortadas se elas passarem 3 meses sem atingir 90% da cota determinada.

O MPL está desafiando publicamente o prefeito Bruno Covas (PMDB), e o governador, João Doria (PMDB), para passarem um mês indo de um ponto final do Grajaú (extremo sul da capital) até a estação Pinheiros da CPTM, pegar a Linha Amarela 4 do Metrô e ir até a estação Luz. Caso eles façam isso durante um mês, todos os dias, com um terço do salário mínimo geralmente gasto pela população com transporte e continuarem defendendo o aumento como justo, negociamos com ele.

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