'Se a gente vivesse num país onde todo mundo separa seu lixo, isso aqui não precisaria existir', diz catador do lixão de Teresópolis

Um levantamento feito pela Firjan aponta que os cinco lixões que ainda existem no Estado do Rio recebem cerca de 319 mil toneladas de resíduos sólidos reaproveitáveis, quantidade oito vezes maior do que a coleta seletiva arrecada. Quatro dos lixões no estado ficam em municípios próximos à divisa com Minas Gerais e Espírito Santo: Miracema, Porciúncula, Itaperuna e Bom Jesus do Itabapoana. Teresópolis é a única cidade fora do Noroeste Fluminense sem a adequação da gestão de seus resíduos: junto ao material orgânico do lixão de Fischer, onde mais de 40 mil toneladas anuais de resíduos são dispostas, há material reciclável, hospitalar e todo tipo de restos e de sucata.

A lei federal nº 12.305, de 2010, determinou que lixões, que recebem resíduos sem quase nenhum controle e proteção do ambiente do entorno, deveriam ter sido desativados até 2014 e caracterizou esse tipo de descarte irregular como crime ambiental.

O EXTRA foi até Teresópolis, única cidade serrana com um lixão em seu território, destino de praticamente todos os resíduos sólidos do município. O lixão do Fischer, à beira da BR-116, já abrigou cenas macabras, como o encontro de um bebê recém-nascido, e morto, em fevereiro deste ano. Lá trabalham mais de 100 pessoas todos os dias, em meio a centenas de urubus e um entra e sai contínuo de caminhões, ora despejando lixo ora comprando recicláveis dos trabalhadores. O expediente vai de 7h a 17h, de segunda a sábado.

João André da Silva Neto, de 38 anos, está há seis anos no lixão serrano. O montante que levanta por semana com a venda de recicláveis oscila: vai de R$ 500 aos mais de R$ 1.500 que já apurou nos melhores momentos.

— Se a gente vivesse num país onde todo mundo separa seu lixo reciclável, isso (o lixão) não precisaria existir. A gente precisa catar material no meio de comida, entulho, mato, tudo misturado. Até vidro, com o risco da gente se cortar. É por isso que a maior parte do que daria para se reciclar, se perde. Com a pandemia, o desemprego cresceu e refletiu em menos recicláveis chegando aqui, porque já tem muita gente catando pelas ruas — ensina o catador.

João conta que também consegue fazer dinheiro quando acha algo de valor, porque “o rico não doa, prefere jogar fora”.

— Com a pet, consigo R$ 1 no quilo. Sucata é uns R$ 70. O papelão não vale nada, só R$ 0,15 o quilo, enquanto o alumínio sai a R$ 5,50 e o metal a R$ 17. Mas também já achei celular, relógio, câmera, brinquedo, videogame e mangás que consegui reaproveitar e até vender para colecionadores. Já achei uma boneca novinha que lavei e levei para a minha filha brincar — diz.

Apesar de, em sua composição, predominarem materiais tecnicamente recicláveis, hoje, segundo o Inea, 1,4% dos resíduos sólidos gerados no Estado do Rio são encaminhados para lixões, enquanto 98,6% são enviados para aterros sanitários, estruturas licenciadas e ambientalmente preparadas para receber lixo.

Além do evidente impacto ambiental negativo dos lixões, a perda do valor do material ali depositado é imediata: quando há alguma recuperação de valor do reciclável, ela é baseada na atividade de catadores, com pessoas expostas a condições precárias de trabalho.

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Procurador-geral de Teresópolis, Gabriel Palatnic admite que o lixão é um problema histórico do município, mas afirma que a administração vem buscando uma solução: a expectativa é de que, ainda em 2022, seja feita uma licitação para o transbordo dos resíduos.

— Em 2019, fizemos uma cotação no mercado e o transbordo (para um aterro sanitário) custaria cerca de R$ 840 mil por mês, mas a pandemia atrapalhou nossos planos. Hoje, com o aumento do diesel, esse valor já deve estar bem maior. Por isso, estamos buscando junto ao estado algum apoio para que possamos financiar essa operação, que é muito custosa para o nosso orçamento. Sabemos que é uma responsabilidade nossa e precisamos dar um fim a esse drama — resume Palatinic.

A prefeitura de Teresópolis informou que está em andamento a negociação para a suspensão do despejo no lixão do Fischer com o transbordo dos detritos, pelo período de dois anos, para o aterro sanitário de Itaboraí, e confirmou que está buscando recursos junto ao governo estadual para a efetivação desse procedimento.

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