'Se não votar no Bolsonaro não posso tirar título': jovens relatam pressão em casa

Jovens relatam pressão em casa na hora de tirar o título de eleitor (Marcello Casal Jr/Agência Brasil)
Jovens relatam pressão em casa na hora de tirar o título de eleitor (Marcello Casal Jr/Agência Brasil)

Milhares de jovens entre 16 e 18 anos se mobilizaram nos últimos dias para tirar seu primeiro título de eleitor e garantir sua participação nas eleições de 2022. Apesar das mobilizações das escolas, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e de artistas, muitos ainda se sentem pressionados e com muitas dúvidas na hora de escolher seus candidatos.

O Yahoo conversou com 40 alunos de duas escolas da rede estadual do município de Toledo, no Paraná, com idade entre 16 anos e 18 anos, eles falaram sobre desmotivação para votar, pressão familiar e dificuldade para expressar suas opiniões diante a sociedade.

Entre eles, o voto é encarado como uma maneira de realizar a “vontade de adultos” e ajudar a inflamar mais ainda a polarização política no Brasil.

“Eu prefiro não me estressar esse ano, minha mãe falou que se eu não votasse no Bolsonaro ela não ia tirar meu título”, desabafou J. E, de 16 anos, estudante do 3º ano de uma escola da rede pública.

Para a maioria dos entrevistados, existem poucas informações de fácil acesso fora das redes sociais, mas que não há hábito entre eles de procurar fora delas. Entre os que vão votar esse ano, as principais fontes de informação serão as conversas em família e com os amigos.

Marcus Nascimento tem 17 anos e divide a sua rotina da escola com o trabalho, ele relatou que está com algumas dúvidas para escolher seus candidatos: “No geral a população está bem dividida, eu trabalho com gás de cozinha, e quase toda semana tem aumento, daí eu vou na casa de alguém que me passa a visão que o aumento é culpa do governo e numa próxima casa a pessoa fala que a culpa não é do governo e sim de um monte de outras coisas, como da pandemia, da guerra…eu tenho até medo de dar uma opinião diferente, as pessoas estão muito radicais”, contou.

As redes sociais têm direcionado o público jovem na hora de decidir e filtrar seus candidatos, mas eles acrescentam que o nível de credibilidade é baixo e que preferem pesquisar a vida dos políticos no Google e de diferentes maneiras.

“Por isso que é importante a gente tirar o título, porque parece que só tem dois candidatos e existem outros também, tirar o foco desses dois grandes pólos. É importante pesquisar, tem gente que não é tão famoso, mas tem boas propostas e isso pode fazer a diferença, mas eles não tem reconhecimento para serem eleitos, pesquisar bem antes de tomar qualquer decisão”, ressaltou Eduarda Ribeiro, aluna do 3º ano do ensino médio.

Outros alunos preferem se abster de qualquer decisão enquanto jovem, para eles as questões políticas geram muitos desentendimentos em casa e na rua.

“Título é zuada, pelo amor de Deus, eu prefiro pagar as taxas nos próximos anos do que votar, o país está polarizado, se eu ficar no meio vou ser “taxado de isento” e se eu ficar de algum lado também vou ser atacado, prefiro me abster disso, é tipo futebol, sempre vai dar briga”, afirmou João Queiroz, de 16 anos.

Em meio a diversidade de opiniões, muitos jovens já decidiram seus candidatos e se mostraram firmes na escolha.

“Já escolhi, bom eu acredito que para você escolher seus candidatos, você escolhe de acordo com seus valores, e esses valores vem da família, mas você tem que ver o que sua essência fala, é tipo assim, não vou dizer que meu candidato é o melhor, pois tudo dá para melhorar, mas de acordo com meus valores, e da minha vivência, eu acredito que esse seja o melhor. O governador e os deputados eu vou escolher a partir de como vai ser vantajoso para o presidente que eu escolhi, para ajudar no governo, por exemplo do Paraná”, relatou Luize Zepnicki, de 16 anos.

Para outros a polarização não muda em nada, o estudante Victor Pinheiro de 17 anos, afirmou que as discussões não o influenciou: “Eu vou pesquisar sobre os candidatos, analisar as propostas que eles têm para o nosso país, pra mim a polarização não atrapalhou na minha escolha”, afirmou.

“Um voto pode mudar tudo, e esse voto pode ser o meu, o dele, ou dela, ou de qualquer outro, isso garante o nosso futuro”, acrescentou Fernanda Tais Dorigon, do 2º ano do ensino médio.

Campanha nas escolas

O TSE promoveu a semana do Jovem Eleitor de 2022 em parceria com os 27 Tribunais Regionais Eleitorais (TREs) para atrair o público jovem. A iniciativa foi criada em 2015 e visa aumentar o número de eleitores para contribuírem com a escolha dos representantes do país.

O diretor da escola cívico-militar, Sadi Nunes, falou sobre a campanha nacional do TSE e do cartório eleitoral local que convidou os diretores das escolas para incentivarem os alunos que completam 16 anos até o dia 4 de outubro a participarem do processo democrático.

“Nós temos uma disciplina de cidadania e civismo, conversamos com a professora e eu também passei nas salas incentivando e disponibilizando os computadores da escola para quem tivesse dificuldade de fazer o processo, é importante ressaltar que não é votar por votar, mas explicar que as mudanças acontecem através do voto”, disse o diretor.

Mais de 2 milhões de novos eleitores

O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) divulgou nesta última quinta-feira (05), que entre janeiro e abril de 2022 o Brasil ganhou mais de 2.042.817 novos eleitores entre 16 e 18 anos.

De acordo com os dados divulgados, esse número representa um aumento de 47,2% em relação aos anos de 2014 e 2018. Eles acreditam que a mobilização nacional em parceria com influenciadores digitais, clubes de futebol, instituições públicas e privadas trouxeram resultado positivo.

O TSE também divulgou dados do Twitter, segundo a plataforma, mais de 6,8 mil tuítes foram publicados com o tema sobre a importância de tirar o título de eleitor, que chegou às telas de mais de 88 milhões de pessoas.