'Se o Estado não nos protege, isso é assassinato', diz líder indígena que participa da Cúpula dos Povos nesta quinta

Enquanto a Cúpula das Américas acontece em Los Angeles, EUA, é realizada paralelamente a Cúpula dos Povos pela Democracia, já que lideranças entendem que o encontro de chefes de Estado não tratará de assuntos que julgam importantes. E nesta quinta-feira quem estará falando por lá será Toya Manchineri, liderança indígena da Amazônia, que, em entrevista ao O GLOBO, falou sobre a visita do presidente Jair Bolsonaro aos Estados Unidos, sobre a questão das terras indígenas no Brasil e do desaparecimento do indigenista Bruno Pereira e do jornalista Dom Phillips.

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Em viagem desde o último dia 30, Toya Manchineri — assessor político da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab) e coordenador da Área de territórios e Recursos Naturais da Coordenadoria das Organizações Indígenas da Bacia Amazônica (Coica) — fica nos Estados Unidos até este sábado, dia 11. Nesse tempo, além das agendas locais, acompanha de longe o caso do indigenista Bruno Pereira e do jornalista Dom Phillips, que no domingo, dia 5, desapareceram na região do Vale do Javari, na Amazônia.

— O desaparecimento deles não nos amedronta, pelo contrário. Mas o que o indigenista Bruno e o jornalista Dom Phillips estavam fazendo era ajudar a divulgar a realidade dos povos indígenas e o descaso do governo brasileiro com os nossos direitos: se o Estado não nos protege isso é assassinato, não é? — conta Toya. O líder indígena relata que acompanhou o caso, inicialmente, através de notícias que lia pela internet e que, agora, a Coiab tem dois técnicos auxiliando nas buscas e, assim, os mantendo informados.

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— Ainda tenho esperanças que sejam resgatados, porque, se aconteceu algum acidente, o Bruno conhece bem a região. Eles não estariam, digamos assim, no rio sem saber nadar. Agora é preciso fazer pressão nas autoridades para colocarem mais gente e helicópteros na busca, porque a região é grande e eles precisam de resgate o mais rápido possível.

Toya Manchineri analisa que falta, por parte das autoridades do Brasil, uma política de proteção aos povos indígenas e povos da floresta. Nesta viagem, a sua agenda inclui ainda um encontro no Conselho Nacional de Segurança para o Brasil, na Casa Branca, adiado por após um dos anfitriões ter sintomas de Covid-19.

— Antigamente se falava que tinha muito índio para pouca terra, e hoje a gente vê que tem é muita terra para pouco proprietário. Enquanto o país tem muitos famintos, para onde está indo essa riqueza? Precisamos democratizar a questão da distribuição de renda — explica Manchineri, que diz, ainda, o porquê da Cúpula dos Povos acontecer paralelamente à Cúpula das Américas.

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— A democracia é muito importante, mas ela passa pela redistribuição de renda e, os que vão debater (na Cúpula das Américas) não estão interessados nisso. O (presidente Jair) Bolsonaro vem aqui para tratar da democracia? Talvez não, não é? A todo momento ele tenta dar um golpe nele mesmo, quando diz que o sistema eleitoral brasileiro foi fraudado, mesmo ele mesmo tendo sido eleito diversas vezes por esse sistema eletrônico. Espero que o (presidente dos EUA, Joe) Biden não possa apertar a mão do Bolsonaro, para que ele não se utilize disso em sua campanha.

Manchineri participará nesta quinta-feira, a partir das 17h (horário de Brasília) de um painel na Cúpula dos Povos pela Democracia, sob a temática "Sobrevivendo juntos: Soberania alimentar, justiça climática e o futuro do nosso planeta".

— Esse painel se relaciona com o Brasil da seguinte maneira: primeiramente, a justiça climática passa pela inclusão dos povos indígenas em todos os debates, no tocante às políticas públicas, na definição de recursos públicos, mas, também, na inclusão do conhecimento desses povos no desenvolvimento do país. Isso significa incorporar vários conhecimentos desses povos no trato à terra. Se você trabalha a terra com veneno, daqui um tempo você não consegue mais utilizá-la — explica.

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Para ele, essa preocupação deve vir por parte de todos:

— A não ser nos filmes, já viu alguém ressuscitar um ser vivo? Por isso, temos que ver a terra como nosso patrimônio, seja o pequeno agricultor, o indígena e até quem compra a abóbora ou a laranja no supermercado.

Questão ambiental

Em relação às queimadas na Floresta Amazônica, Toya Manchineri conta que a Coiab tem um programa de monitoramento e de prevenção a incêndios que mede a temperatura do solo, já que, pelo acúmulo de material em decomposição no solo, muitas vezes o incêndio não se dá apenas nos troncos e folhas. Mas aponta que as autoridades devem ser responsabilizadas por esses incêndios:

— O Estado sempre tem culpa quando não destina recursos para fortalecer as instituições, como no próprio Ibama, na capacidade de recursos humanos e equipamentos para o combate, você está deixando de cumprir o seu compromisso constitucional, é um crime que o governo está fazendo.

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Já sobre os créditos de carbono, amplamente discutidos durante a Cop-26, no ano passado, coordenador da Coica fala que não os vê com bons olhos porque esses recursos, na sua visão, não serão usados em prol do meio ambiente. E se utiliza de uma metáfora para explicar isso:

— O crédito é um dinheiro e, se você não souber usar isso, vai utilizar tudo em cachaça e acabou. Para os povos indígenas, essas são negociações que não são claras: são de Estado para Estado, e tanto povos indígenas, tanto povos tradicionais não se vêem dentro dessa negociação. Quando esses recursos chegam no Brasil, a gente tem que brigar pra esse serem destinados às populações tradicionais — conclui.

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