"Se o objetivo do processo era me censurar, o tiro sairá pela culatra", afirma ex-reitor da Ufpel, após ato da CGU

Renata Mariz
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BRASÍLIA — Epidemiologista e coordenador do Epicovid, principal estudo sobre a contaminação do novo coronavírus no Brasil, Pedro Hallal afirmou que continuará fazendo críticas ao governo, mesmo diante do processo disciplinar aberto contra ele pela Controladoria-Geral da União (CGU), que terminou com a assinatura de um termo de ajuste de conduta (TAC). "Se o objetivo do processo era me censurar, o tiro sairá pela culatra", afirmou Hallal, em entrevista ao GLOBO.

Hallal e o professor Eraldo dos Santos, ambos ligados à Universidade Federal de Pelotas (Ufpel), foram enquadrados pela CGU na lei dos servidores públicos por "manifestação desrespeitosa e de desapreço direcionada ao Presidente da República". Para que o processo de infração disciplinar de menor potencial ofensivo fosse arquivado, eles concordaram em assinar o TAC.

Hallal é ex-reitor da Ufpel e, como epidemiologista, tem se manifestado de forma crítica em relação à condução da pandemia pelo governo federal. As declarações que motivaram o processo, no entanto, foram feitas durante transmissão na internet, nos canais oficiais da Ufpel no Youtube e no Facebook, para comentar o fato de Bolsonaro ter nomeado a segunda mais votada para reitora da universidade, o que foi criticado pela comunidade acadêmica.

Na ocasião, Hallal disse que "nada disso estaria acontecendo se a população não tivesse votado em defensor de torturador, em alguém que diz que mulher não merecia ser estuprada ou no único chefe de Estado do mundo que defende a não vacinação da população". O professor ressalta que não recuará de suas opiniões.

O senhor cumprirá a "quarentena" de ficar dois anos sem repetir o ato que levou à abertura do procedimento na CGU (ou seja, manifestar "desapreço" ao presidente da República), conforme consta do TAC?

Eu nunca cometi, e não tenho qualquer intenção de cometer, qualquer infração disciplinar. Seguirei manifestando minhas opiniões livremente, como sempre fiz. Se o objetivo do processo era me censurar, o tiro sairá pela culatra. A condução vergonhosa do Ministério da Saúde e do Governo Federal no enfrentamento de pandemia deve ser denunciada por todos os pesquisadores do país. Três de cada quatro pessoas que morreram no país até hoje não teriam falecido não fosse o país uma vergonha mundial no enfrentamento da pandemia.