Se queres ser cego, que seja: Lula, Bolsonaro e os ataques à democracia

Lula e Bolsonaro ocupam as duas primeiras posições nas pesquisas (Fotos: Ricardo Stuckert e Isac Nóbrega/PR)
Lula e Bolsonaro ocupam as duas primeiras posições nas pesquisas (Fotos: Ricardo Stuckert e Isac Nóbrega/PR)

Se política já envolve paixão é no ano eleitoral que as coisas tomam outra proporção. Muito tem se falado na possibilidade de golpe por parte de Jair Bolsonaro caso ele perca as eleições. É estranho falar novamente em ameaça à democracia quando não temos nem 40 anos de estabilidade democrática. Não confundir estabilidade democrática com democracia plena, mas esse é um outro assunto.

Voltemos ao propósito desse texto: no meu pós-doutorado li todas as manifestações de Jair Bolsonaro na Tribuna da Câmara dos Deputados desde 1991 até 2018.

Em 1 de julho de 1993 a discussão na Câmara era uma denúncia feita pelo então procurador da Casa, Vital do Rêgo (PDT/PB) e pelo corregedor e vice-presidente da Câmara, Fernando Lyra (PDT-PE) contra Bolsonaro (então PPR) por falta de decoro. O então deputado era acusado de pregar diversas vezes o fechamento do Congresso e o retorno do regime militar. Parte dos congressistas naquela época o consideravam parte de um movimento de militares que pretendia desmoralizar as instituições e provocar um golpe. Alguma semelhança com 2022?

Bolsonaro é isso. Para ele, guerra é paz. Ele sobrevive com essa narrativa de confronto e foi assim que chegou ao Palácio do Planalto. Bolsonaro é o típico homem pós-moderno do qual o autor Cristopher Lasch fala tanto: caótico, impulsivo e raivoso. Ele sai vitorioso desde que o debate público gire em torno dele.

Nossa democracia é recente, frágil, mas as instituições funcionam. O Congresso não permitiria um golpe e o Judiciário mantém sua independência manifestando-se contra esses ataques.

Lula, por outro lado, mesmo com as recomendações constantes de sua equipe para evitar temas polêmicos tem insistido no assunto de regulamentação da mídia. É assim que se começa o processo corrosivo da democracia. Por dentro. Primeiro você desacredita as instituições e depois está todo mundo amortecido. Que nossa cegueira não seja parcial. Se é para sermos vigilantes, que sejamos dos dois lados.

Hannah Arednt dizia que o melhor súdito para o autoritário não era o nazista ou comunista mas aquele que não sabia a diferença entre verdade e mentira. A imprensa faz esse papel. Imprensa livre é um dos fortes indicadores de uma democracia estável.

Política é o que é, não o que gostaríamos que fosse. Os ataques vêm de todos os lados. Cabe a nós fazer nosso exercício e enxergar o cenário inteiro sem os fanatismos e as paixões que nos cegam. Mas como diz Saramago: se queres ser cego, sê-lo-ás. Ninguém mais sentirá as consequências além de nós.

E, eu termino esse texto com Maquiavel: “O homem age com o que lhe parece mais lucrativo guiado por atitudes que lhe darão mais vantagens”. Não existem santos na política.

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